A fé e o medo (Salmo 27)


O comentarista Arthur Weiser (WEISER, 1994, p. 177) diz que este salmo é composto por duas partes (1-6 e 7-14), que são dois vigorosos hinos: um fala da confiança em Deus e o outro consiste na lamentação de um homem necessitado de ajuda num momento de grande tribulação. Estes dois cânticos teriam sido unidos num só salmo porque trazem algumas expressões similares. Eu gostaria, portanto, de meditar com você acerca da primeira parte, dos versos 1-6. A estrutura do texto é muito simples: os primeiros três versículos falam da confiança em Deus de forma contundente e os versículos 4-6 ressaltam o desejo do salmista por intimidade para com Deus.
Fé: luz e proteção
O incompreendido Kierkegaard dizia que a “fé é um salto no escuro”. Ele dizia isso porque entendia que a fé, quando totalmente explicada e definida, não é fé. A objetividade anseia a tudo entender, mas se sabemos tudo sobre Deus, Ele deixa de ser Deus, o totalmente outro, o incompreensível, o transcendental. Como não podemos entendê-Lo ou explicá-Lo, temos de aceitar a subjetividade e acolhê-Lo por fé. Este é o salto no escuro. Significa que não há garantias, embora muita gente gostaria de tê-las. E, ingênua e equivocadamente, paga por elas, por meio de indulgências antigas e modernas, penitências antigas e modernas, escambo cristão pós-moderno, etc. (Quem lê, entenda!)
O salmista afirma que não sente medo de nada e de ninguém porque Deus é a sua luz, sua salvação e a fortaleza de sua vida. Podemos estabelecer uma interessante relação entre estas três figuras e a definição de fé de Kierkegaard. A fé cristã pode ser um salto no escuro porque seu objeto é a própria luz! Sim, se Deus é a luz, acabou-se o motivo para o medo ocasionado pela escuridão, diz o salmista.
Luz e trevas
A oposição entre luz e trevas é uma das mais exploradas no universo bíblico. Há uma grande variedade de textos que citam esta oposição, comparando a luz a Deus, a Cristo (Jo 8.12) e aos próprios cristãos (Mt 5.14). A luz é a fonte da vida, do bem, da justiça (Jo 1). As trevas simbolizam o estado de vida sem Deus, uma condição de perdição e falta de direção (Is 9.1). Já no princípio, segundo Gênesis, Deus fez separação entre a luz e as trevas e viu que a luz era boa (Gn 1).
A necessidade humana por segurança nos levou a produzir milhares de possibilidades de gerar luz, desde a mais simples fogueira nas cavernas aos sistemas sofisticados de iluminação encontrados em estádios, prédios, etc. Tudo para não ficar no escuro, o lugar da insegurança, da inaptidão. Mas o problema é que as luzes exteriores não eliminam as trevas que podem existir dentro de nós: temores, ansiedades, problemas não resolvidos, falta de Deus. O salmista demonstra uma admirável confiança, que é fruto de sua relação com Deus. Ele a expressa em termos de luz versus medo. O Senhor é a minha luz – minha iluminação, a fonte da minha segurança. Assim sendo, que razão há para ter medo? Que escuridão pode resistir a esta luz tão intensa, confiável e perene?
Em Mateus 6.22-23, Jesus diz que os olhos são a luz do corpo. Não apenas a forma como olhamos, mas para que olhamos e de que maneiras projetamos nosso olhar, podemos trazer luz ou trevas para dentro de nós. Isso pode gerar fé ou medo. E as trevas estão dentro de nós, que grandes elas serão! Tomarão conta de nosso ser e nos levarão à imobilidade e à morte espirituais!
Sabedor desta realidade, o salmista nos diz porque a luz está em seu interior e ele mantém sua confiança em Deus. Ele faz isso porque contempla a beleza do Senhor e medita no seu templo (v.4). Ele coloca seu olhar sobre as coisas de Deus, pois contemplar não é simplesmente olhar, mas investir tempo observando, percebendo, reconhecendo e refletindo sobre o que se vê.
Fé em meio às trevas
O salmista, ao manifestar sua confiança em Deus como luz, nos ensina que as trevas podem até estar ao nosso redor, mas não dentro de nós. A confiança vem da certeza de que a fonte da luz caminha conosco. Ele diz que ainda que os malfeitores se levantem ou um exército se acampe contra ele, ainda assim, terá confiança.
Será que muitas das coisas que hoje nos atemorizam não se originam do fato de não permitirmos que a luz de Deus ilumine nosso interior e nos confronte? João, em seu Evangelho, diz que os seres humanos amaram mais a luz do que as trevas porque não queriam que suas obras más fossem manifestas. O primeiro desafio da fé é vencer a nós mesmos, nossa autorresistência, nossa pecaminosidade e limites pessoais. É lançar luz para dentro de nós. Para adquirir a verdadeira fé e superar o medo, temos de permitir a Deus que faça sua obra em nossa vida e remova o medo e as trevas que queiram resistir dentro de nós. Aí, sim, poderemos dar saltos no escuro, como disse Kierkegaard. Não precisaremos de luz para saltar, uma vez que ela já estará conosco!

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