quarta-feira, 8 de março de 2017

Preparar a Páscoa, preparar a vida (Lucas 22.7-18) - Sermão pregado na IM Asa Sul, 05 de março de 2017


Esses dias, desde a quarta-feira de cinzas, são celebrados em todo o mundo cristão como o tempo da Quaresma. Dizem os estudiosos que a Quaresma é um período muito mais guardado e marcante para a Igreja Oriental, especialmente a partir do século IV depois de Cristo. Nesse período, os cristãos e cristãs refletiam sobre os 40 dias que Jesus passou no deserto, se preparando para o início de sua missão. Esses 40 dias são lembrados pelo povo cristão antes da Páscoa, que é o tempo da crucificação, morte e ressurreição do Senhor.
Na Bíblia, não temos a palavra “quaresma”, mas dá para perceber que havia um tempo de preparo da Páscoa. No Antigo Testamento, há instruções para a preparação da Páscoa em Êxodo 23, Levítico 23 e Deuteronômio 16. Se três dos cinco livros do Pentateuco fazem referência ao momento, isso mostra sua relevância e importância para o povo! Os preparativos incluíam instruções específicas sobre o motivo da festa, o que comer, onde comer, onde celebrar e quais as pessoas que deveriam participar do encontro festivo. No Novo Testamento, Jesus manda seus discípulos prepararem a Páscoa em Mateus 26, Marcos 14 e o texto de Lucas 22.7-18, que é nosso texto-base para a reflexão nesta noite.
A quaresma é celebrada com a cor lilás ou roxa. Essa cor significa expectativa, espera. Em nosso calendário cristão, ela aparece duas vezes no ano: antes da Páscoa e antes do Natal. São dois eventos reveladores da presença de Deus no mundo. E antes dos dois existe esse tempo de preparo, de anunciação, de um “quase lá”, que precisa chamar nossa atenção. Talvez, afinal, não seja à toa que também o movimento feminino no mundo use a cor roxa-lilás... expectativa de coisa boa, não é? Da presença de Deus por meio das vidas das pessoas.
Quaresma: preparo
Por que pensar nesse assunto, quando parece que tantas coisas urgentes estão na nossa agenda e temos tanto para fazer? Algumas práticas cristãs na Quaresma incluem jejum, oração e algum tipo de sacrifício pessoal, de mortificação da carne. Era o desejo dos cristãos e cristãs de outros tempos se sensibilizarem para melhor incorporar em suas vidas o significado da morte de Jesus.
Era parte da perspectiva dos judeus, quando celebravam a Pessach, que recordar a história antiga da libertação do Egito não era algo para ser feito de qualquer maneira, sob o risco de perder algo da sensibilização para ouvir a Deus. Mas eu gostaria de falar sobre a Quaresma pensando no que ela significaria para Jesus, à luz do texto de Lucas.
Eu sempre me emociono com este texto e acredito que, porque ele também é nossa referência para a Ceia, nas palavras de Paulo, hoje ainda tenha um sentido mais especial para nós e para nosso tempo. A delicadeza dos termos, das palavras escolhidas pelo autor, são fundamentais para compreendermos o que isso significa para a gente, hoje, em nosso tempo.
Na tradução da Bíblia Judaica completa, se diz, no v. 7: “Então chegou o dia da matzah, em que o cordeiro pascal tinha de ser morto”. No grego, se diz que “era chegado o dia dos pães asmos, em que era preciso sacrificar o cordeiro da Páscoa” Na nossa tradução, se diz: “em que importava comer a Páscoa”, então parece que perdemos um pouco da força dessa expressão: “era preciso”, “tinha de ser morto”. Era um momento inescapável, uma coisa que não dá para contornar, evitar, postergar. Tem seu momento e deve ser feito com precisão. O tom de urgência da Páscoa, então, fica muito evidente para nós.
Acho que podemos comparar isso a uma cirurgia que temos de fazer. Esperamos poder celebrar a recuperação, a volta para casa. Aguardamos o dia da alta médica. Não é possível chegar a isso sem o enfrentamento da mesa de cirurgia. Quem já passou por um momento desses ou já teve de aguardar o resultado da cirurgia de uma pessoa amada, sabe do que eu falo. Preparar-se é angustiante. A mesma coisa é passar por fases da vida que exigem preparo: o casamento, o vestibular, o concurso, a chegada de um filho, o período da faculdade. Não é possível alcançar o final em nenhum empreendimento desta vida sem o necessário processo de preparo. É disso que a quaresma falava: não é possível a gente passar por um momento profundo com Deus, real, de transformação, que é a compreensão do que a Páscoa significa – a entrega de Jesus por nós – sem que nos demos conta de que se trata de algo grande. É preciso preparo para isso, um preparo profundo, real, uma compreensão de que “é preciso”; de que “tem que ser” e que não dá para contornar, despistar ou minimizar isso.
Saindo do entorpecimento
O preparo da Páscoa para o povo judeu significava rememorar a condição deles como escravos no Egito e tudo o que implicou a saída deles de lá. Cada comida – as ervas amargas, o pão sem fermento, os doces, o cordeiro – era uma representação até teatral, bem didática, bem forte, bem real, de tudo o que seus antepassados e antepassadas tinham vivido na pele. Acho o teatro essa coisa mágica, capaz de nos transportar a outro tempo e lugar, coisa que Deus colocou na vida humana como um dom de compreensão. Tenho certeza de que é por isso que Jesus conta histórias, faz malabarismos malucos para curar pessoas, colocando barro, mandando ir para depois voltar... são formas de introjetar que o milagre que acontece no corpo não é espantoso por si mesmo, mas é a porta para entrar no maior de todos os milagres, que é entender quem a gente é dentro do coração de Deus. Isso me encanta!
Mas o preparo também visa fazer-nos sair de um estado de entorpecimento que a rotina põe na gente. Num dia de preparo, seja para uma festa, seja para um evento social, seja para uma morte, seja para o que for, a vida muda de compasso. Pessoas se reencontram, abrem-se os álbuns de fotografias, receitas de família são tiradas de caixinhas empoeiradas, dores antigas são reavividas, conflitos são trazidos à tona. Tudo de bom e de mau surge com vigor nessas horas que se tornam marcos na vida da gente. Esses tempos são sempre hora de metanóia, de mudança, de transformação.
Avivamento sempre é precedido por uma quaresma
Jesus ansiava comer a Páscoa com os discípulos e discípulas porque aquele tempo e aquele lugar eram únicos no seu ministério. Nunca mais, ele diz. Nunca mais vou comer de novo. Nunca mais teremos isso que temos aqui. Os discípulos estavam plenos da presença de Jesus, talvez nem se tocassem que haveria tempos de “faltura”, de ausência.
Estamos num tempo de farturas. Temos excesso de informação, de entretenimento, de roupas, de comida, de tudo. Estamos cercados e cercadas por um mundo de coisas que roubam nossa atenção e nos mantém funcionando o tempo todo. Então parece que estamos num estado de embriaguez, em que as dores são entorpecidas; as alegrias são passageiras; a morte não espanta, a violência é lugar comum... estamos de novo escravizados pelos egitos diversos. Precisamos reconhecer que neste tempo a igreja precisa de libertação, senão ela não poderá nunca ser o Moisés desses tempos e levar o povo todo  ao novo Canaã, que é Jesus Cristo, ele mesmo, o Messias.
Lendo os livros de história eu percebo que todo momento de avivamento foi precedido por um tempo de quaresma. As pessoas voltam às Escrituras, percebendo que precisam de esvaziamento, de jejum, de quebrantamento. Percebendo que estão drogadas por um estilo de vida pernicioso e malvado, que rouba delas a humanidade, a capacidade de sentir e de amar, a capacidade de estar ao lado de alguém e ser solidário, solidária de verdade. Elas entram numa crise de abstinência: elas clamam, choram, gritam, sofrem. Elas negam que estejam assim. É difícil encarar seu pecado como uma droga entorpecente. E então, lentamente, ao se esvaziar desse modo de ser e de viver, elas são preenchidas pela alegria da vida abundante. Seus valores são transformados, a vida encontra leveza. Elas se desprendem de seus velhos hábitos e valores e lentamente começam a sua jornada com Cristo. Não há nem nunca haverá Páscoa ou Pentecostes sem a Quaresma. Tudo começa com o arrependimento.

Anseio comer com vocês esta Páscoa
É preciso sacrificar o cordeiro. É preciso comer a Páscoa. Mas como fazer isso sem discernir o corpo e o sangue? O arrependimento, diz João W
esley, não é apenas a tristeza de perceber o erro em nossas vidas, mas um autoconhecimento. É saber não apenas que você peca, mas que você é um pecador, uma pecadora. É saber não apenas que eu erro, mas que sou um ser errante. Essa consciência me abre de um modo específico ao agir de Deus.
Sou uma discípula preparando a Páscoa. Enquanto a preparo, lembro-me de tudo o que Jesus fez por mim. Lembro-me de seus ensinos, de suas palavras. Lembro-me de que ele me tirou de dentro de um barco, de uma coletoria, de umas redes rasgadas, de debaixo de uma figueira, de uma esquina perdida, de um bando de estudos, de uma sinagoga. Lembro-me de que ele me reconheceu e me deu valor quando ninguém dava nada por mim e me escolheu para ser sua seguidora e para aprender com ele. Enquanto preparo a Páscoa, eu me lembro de suas palavras que me enchem de esperança quando eu tenho esse governo corrupto, esses problemas econômicos mundiais, essas guerras... quando acho que não posso fazer nada e me escondo atrás das coisas. Eu me lembro de que ele me prometeu poder – dymanis do Espírito – que é a capacidade de fazer, de realizar. Eu me converto por preparar essa Páscoa, porque isso é dar lugar ao plano eterno que ele tem. Que não é só de céu, mas também de justiça, vida, transformação, renovo, bondade, amor, restauro nesta vida e aqui e agora. Eu sou parte disso porque ele me pediu para preparar a Páscoa.
E quando ele chega e se senta à mesa, depois de eu ter preparado tudo, estou muito mais sensível para ouvir sua voz amorosa. E ele me diz: “Eu esperei ansiosamente para comer com você esta Páscoa”. Eu preciso que você entenda que o cordeiro tem que ser sacrificado. Eu preciso que você compreenda que o cordeiro pascal tem que ser morto. Essa necessidade é que vai proporcionar a você a vida. Preciso que você compreenda que não é algo que acontece por acaso. É a sua jornada de pecado e de afastamento de Deus, como parte de toda a humanidade, que torna esse momento preciso e incontornável. É a minha vontade de salvar, é minha escolha por você, como parte de toda a humanidade, que torna esse momento preciso e incontornável. Eu estou ansioso para comer com você!
Só quando a gente sai do entorpecimento do pecado é que a gente pode entender o avivamento que existe nesse momento de Ceia do Senhor, de Páscoa. É por isso que a gente precisa urgentemente de uma Quaresma. De um quebrantamento real e profundo. Fico olhando nossas questões hoje, nossas brigas com a igreja, com os líderes, com o mundo... fico olhando nossos interesses, nossas vontades, nosso egoísmo quando tanta gente está morrendo sem Deus. E eu vejo essa necessidade de sair do meu vício pecaminoso. Do meu jeito de olhar o mundo, de culpar e responsabilizar a tudo e a todos pelas coisas erradas. Vejo a necessidade de parar com as minhas fugas da realidade. Do meu medo do que os outros e outras vão pensar. Eu preciso preparar a minha Páscoa. Eu preciso viver a minha Quaresma.
Porque quando eu me sento diante de Jesus e o escuto dizer que ele estava ansioso para comer comigo, algo extraordinário sempre acontece. São esses momentos que me mostram que eu não nasci para mim mesma. Cada vez que escuto Jesus falar isso eu olho em volta e a mesa fica maior, com mais cadeiras vazias. Eu como e bebo aqui hoje, mas eu me levanto para seguir essa Quaresma permanente, de preparar a Páscoa. Porque da próxima vez tem que ter outra pessoa na cadeira ao lado. E eu é quem terei de dizer ao meu próximo, à minha próxima: “Eu estava ansiosa para comer com você essa Páscoa”. Vê? Jesus não vai comer de novo até que o Reino esteja pleno. Até que ninguém mais tenha fome. O cordeiro já foi morto, mas eu tenho de compreender isso cada vez melhor. Não posso esquecer. Tenho de viver essa Quaresma, de preparar essa Páscoa. Não posso comer sem entender. Ou muita gente vai ficar sempre do lado de fora, sempre com fome. E o Reino de Deus não vai se completar.

Exórdio

Qual é a sua quaresma pessoal? Qual é o entorpecimento espiritual que afasta você do verdadeiro sentido da Páscoa? Qual o arrependimento, o autoconhecimento que tem feito falta em sua vida hoje? Aproveite esses próximos dias para jejuar, orar e tomar um tempo para sair desse entorpecimento, que todos nós vivemos de algum modo, para se sensibilizar a algum comando de Deus em sua vida. Aceite esse duro desafio. Quando a Páscoa vier, você vai sentir o peso do sacrifício de Cristo. Vai ser doloroso e difícil. Mas só passando pela Quaresma, depois pela Páscoa, é que a gente chega ao Pentecostes: o enchimento do Espírito Santo que nos proporciona real envio e transformação no mundo. Deus prometeu. Ele cumprirá! Aleluia!

quinta-feira, 2 de março de 2017

Ministério pastoral: especial e essencial


Ser pastor e pastora é uma alegria, um privilégio e um desafio. A Igreja Metodista diz que para ser exercido ele requer vocação e reconhecimento. Vamos saber mais sobre isso à luz da Palavra e dos documentos da Igreja.

“O pastorado é um dentre os ministérios da Igreja. É uma instituição apostólica que consagra e ordena pessoas vocacionadas e reconhecidas pela Igreja. Esse ministério, desde o Novo Testamento, passando pela Reforma até hoje, está voltado para a unidade do corpo de Cristo, para a correta ministração dos sacramentos, para o zelo na pregação da palavra. além de outras tarefas pastorais”. É assim que o Colégio Episcopal da Igreja Metodista definiu, na carta Dons e ministérios, espiritualidade e serviço, publicada em 1997, na página 20, como entende o ministério ordenado.
Homens e mulheres são chamados por Deus para perto de si. Todos eles e todas elas são convidados igualmente à salvação e ao serviço. Porém, cada pessoa é enviada ao serviço de Deus conforme o dom que recebeu e que desenvolve. A diferença entre as pessoas, portanto, não é quem é superior ou inferior, mas o tipo de serviço a que cada uma é enviada.
O pastor ou pastora que quer exercer bem o seu chamado deve compreender que existem dois critérios básicos para exercer seu dom, de acordo com a orientação da Igreja, inspirada nas Escrituras: vocação e reconhecimento.

A vocação
A vocação é mais do que aquele desejo pessoal que expressamos: “Eu sinto que Deus está me chamando para o ministério”. Já fui convencida de que na verdade, recebemos um envio, não um chamado.
O chamado é para estar com o Senhor, o envio é nosso serviço ao mundo. Estou mudando minha linguagem de: “Eu tenho um chamado” para “Eu recebi um envio”. Isso me faz pensar que não tenho exclusividade ou posse do ministério pastoral. Antes, ele é uma concessão de Deus para mim, uma oportunidade recebida para cuidar de pessoas. Se eu não estou com o Senhor (chamado) então não exercerei bem o serviço (envio). Há uma mutualidade aí que não podemos negar.
A vocação é fruto dessa relação com Deus. Em Isaías 6, vemos que é da relação e do encantamento do profeta com Deus, seu preenchimento pela presença divina, que o faz ouvir a voz de Deus: a quem enviarei? E então ele consegue responder: “Eis-me aqui, envia-me a mim”.
Temos de reconhecer que muitas vezes estamos sob o encanto da instituição, do título, da oportunidade de estar à frente de alguma coisa e não sob o maravilhamento da presença de Deus que nos evoca ao serviço. Por isso é que depois de algum tempo, podemos encontrar frustração e aborrecimento ao invés de plenitude. Porque os títulos não sustentam o envio. O dinheiro não sustenta o envio (não mesmo!). Nosso ego não sustenta o envio. O que sustenta o envio é o chamado: “Eu te escolhi, eu te designei para que você vá e dê muitos frutos”. Quando a comunidade vê os frutos, ela reconhece a vocação.

O reconhecimento
O reconhecimento confirma a vocação, porque o pastorado não é uma tarefa de um só. E ele também não acontece só quando a Igreja nos envia para o seminário ou para qualquer tipo de formação específica.
O reconhecimento precisa acontecer a cada momento, para que possamos nos manter no foco ministerial. Ele passa pelos critérios de avaliação da igreja, passa pelos concílios locais, distritais e regionais. Tem a ver com a nossa eleição ou indicação para cargos e funções outras, nos níveis de representação da igreja. Mas compreenda: essas coisas são não a essência do reconhecimento do ministério pastoral que exercemos! A Bíblia diz que nossos frutos são nossa credencial de reconhecimento.
Um pastor ou pastora precisa sempre manter o foco de sua tarefa: precisamos manter o corpo unido. Um pastor ou pastora que age mediante partidarismos frutos de seu egocentrismo desintegra o corpo. Nossa vaidade pode ser nosso calcanhar de Aquiles. Temos de cuidar disso com seriedade! Outro ponto é que temos de ministrar corretamente os sacramentos. Isso tem a ver com o uso do ritual? Sim, mas vai além. Precisamos ajudar as pessoas a compreender a profundidade do batismo e da Ceia do Senhor na sua vida espiritual. O ensino deve ser constante e qualificado.
Também precisa haver zelo na pregação. João Wesley falava da seriedade nos estudos e na meditação para garantir profundidade na mensagem. Ênfase na necessidade do arrependimento e da justificação pela fé muito mais do que em bênçãos e vitórias.
E a gente ainda tem muitas outras tarefas pastorais. Ufa! Nem sempre o reconhecimento vem na hora. Mas a vocação sustenta essas fases. O chamado de Deus consola e conforta. E vamos de fé em fé!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Uma igreja digna do seu nome (Atos 11.19-26)

Sermão do culto de posse na Oitava Região Eclesiástica da Igreja Metodista
Brasília, 04 de fevereiro de 2017

Na cultura bíblica e também na nossa, o nome é algo muito importante. Ele está ligado a tradições de família, histórias que cercam o nascimento, memórias a resgatar... Do mesmo modo, a gente aprende a preservar o nome: “não pode ter nome sujo na praça”; “tem que honrar o nome da família”. O nome marca, qualifica, dignifica ou traz desprezo, opróbrio... Muitos exemplos encontramos, desde Esaú, Jacó, Jesus, até Icabode, cujo nome marca um momento de derrota e tristeza.
Certa vez, Alexandre, o Grande, conquistador da Grécia, julgou um jovem que havia abandonado o campo de batalha. Era um soldado novo, coitado, inexperiente... mas a acusação era grave. Então, o conquistador perguntou: Como é o seu nome, garoto? E o jovem respondeu: Alexandre, senhor! Então Alexandre ergueu-se e exclamou com o dedo em riste: “Então, mude seu proceder ou mude de nome!”. Um covarde não poderia ser chamado pelo mesmo nome do conquistador.
O texto bíblico acima diz que, até então, os cristãos eram conhecidos como os “do Caminho”, talvez em referência à frase de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Mas agora, em Antioquia, há uma relação direta entre os seguidores e o mestre. Eles são chamados de cristãos, que quer dizer “pequeno Cristo”. Em todo o lugar por onde eles e elas passavam, havia uma identidade, uma relação direta, que impedia que houvesse um reconhecimento de outra forma senão pelo nome do seu Mestre. Era uma igreja digna do seu nome.
Sobre nós, neste tempo, repousa o mesmo desafio feito ao jovem do exército de Alexandre. Que o nome de Cristo, que carregamos sobre nós, é um nome de peso de glória. Não podemos correr o risco de desonrá-lo, renegá-lo ou agir de modo contrário ou inferior à dignidade dele. Eu poderia falar muitas coisas sobre a Igreja de Antioquia que expressam as formas pelas quais aquela comunidade. Mas gostaria de destacar apenas três, a partir do olhar de Barnabé, que foi designado pelos apóstolos para ir até lá e ver o que estava acontecendo.
Uma igreja cheia da graça de Deus (Atos 11.23)
A graça de Deus precisa ser visível na vida de uma igreja que traz o nome de Jesus porque era uma característica Dele. Jesus “crescia em sabedoria e graça”. Ele ia por toda a parte fazendo o bem e a graça era marca do Seu ministério. A graça perdoa, a graça traz alegria. Ela renova, traz leveza. Ela reconcilia. A graça cura. Ela é favor, doação, abertura de si para o outro, a outra. A graça é a maior marca do ministério de Jesus porque ela é expressão viva do amor de Deus. A graça se manifesta salvadora. A graça educa. Quando Barnabé viu a expressão viva da pregação, que aconteceu no meio de grande perseguição e opressão, ele se alegrou sobremaneira, porque o resultado da graça é a alegria para viver e para testemunhar. Essa graça, visível e palpável, o motivou a dedicar-se ainda mais à obra missionária, fixando sua base em Antioquia.
Uma igreja que anuncia apesar das circunstâncias (Atos 11.19-20)
A igreja de Antioquia se iniciou porque uma perseguição veio sobre os judeus depois da morte de Estevão. Eles se espalharam por toda a parte, mas não conseguiram conter o anúncio da boa nova somente à sua etnia. Eles começaram a contar a todo mundo. Homens e mulheres gregos começaram a ouvir de Jesus e a responder com fé ao Seu chamado.
Jesus também não olhou os limites da religião, das condições sociais ou econômicas. Ele anunciou Sua palavra nas cidades grandes e pequenas; falou a pessoas de todos os jeitos e de todas as origens. Jesus não Se intimidou pelas ameaças ou pela cruz.
Uma igreja digna do nome de Jesus é uma igreja missionária, evangelizadora, que vai ao encontro das pessoas em suas condições mais precárias com uma mensagem viva. É uma igreja que muda a história de pessoas, famílias e nações. É uma igreja relevante em qualquer aspecto em que toque a vida dos outros e outras. É uma igreja viva e vivificante.
Uma igreja que vive em unidade (Atos 11.24)
Jesus sempre disse que a unidade entre Ele e o Pai era um sinal para a igreja. Que também devíamos ser um. Até hoje temos dificuldade em tentar explicar por que existem tantas igrejas no mundo. Nossas divisões escandalizam. Esperamos aquele dia em que Deus corrija esses nossos equívocos e nos faça um só povo e um só pastor.
Isso não nos impede de olhar para a igreja de Antioquia. Era uma igreja miscigenada, com gente de várias origens diferentes, como vemos em Atos 13. Mesmo assim, ela se unia em torno da missão. Ela enviou missionários e formou muita gente nos caminhos de Deus. A unidade é a expressão máxima da presença de Deus. Uma igreja digna de ser chamada cristã precisa caminhar na unidade, pagando o preço disso, esforçando-se para permanecer juntos.

Mas além das qualidades da igreja, havia seus líderes. Entre eles, Barnabé. Ele pôde conduzir essa igreja porque “era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”. Nós, que somos pastores, pastoras, líderes de ministérios e de grupos pequenos, missionários, missionárias, evangelistas, precisamos ser pessoas boas, cheias do Espírito Santo e de fé para conduzir este povo a uma jornada, de modo que sejamos todos dignos e dignas do nome de Cristo. Precisamos sondar nossas intenções e nos colocar sob a cruz de Cristo, imitando ao nosso Senhor, que também era bom, como testifica Nicodemos, cheio do Espírito Santo, como fala todo o evangelho de Lucas e de fé – principalmente por confiar a nós a missão de prosseguir com o anúncio do Evangelho. Precisamos mudar de vida ou mudar de nome. Precisamos mudar práticas ou mudar de nome. Precisamos ser dignos e dignas deste nome santo. Sejamos cristãos e cristãs num mundo que carece deste nome de amor.

REVISÃO DE TEXTO COM PERSONALIDADE