Estas seis coisas o SENHOR odeia, e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos. (Provérbios 6.16-19).
Já se passaram alguns dias do Concílio Regional e nosso coração continua inquieto. Vemos sinais por toda a parte de que algo mais profundo precisa ser mudado, se quisermos ver a vontade de Deus cumprir-se em nosso meio. Não se trata apenas de uma mudança de mentalidade, mas de profundas transformações de caráter. Concordamos com o bispo Roberto ao posicionar-se firmemente a favor do crescimento da Igreja. De fato, o discurso de que somos o que deveríamos ser mostra-se uma falácia. A igreja tem a natureza do crescimento, da expansão. Sua missão é ir até aos confins da Terra, anunciar o evangelho a toda a criatura, fazer discípulos/as de todas as nações. Para chegar tão longe, ela precisa de muitos braços e pernas e bocas e corações palpitantes pela missão. Ela tem que ser despertada, motivada e orientada a sair de si mesma, a olhar o passado com humildade, aprendendo com os acertos e erros, honrando a memória dos que se foram em dedicação ao Senhor, honrando seu legado indo mais adiante e também reconhecendo seus limites e propondo novos parâmetros quando necessário for.
Ontem mesmo, ao ir à fisioterapeuta e, depois, ao supermercado, encontramos duas pessoas que já foram membros da igreja que pastoreamos – estão longe agora, sem participar de nenhuma comunidade. Ficamos felizes pela oportunidade que Jesus nos deu de poder convidá-las a voltar. Ainda as encontraremos outras vezes e reforçaremos o convite, orando e crendo que Jesus pode fazer com que elas regressem, pedindo-lhe que nosso encontro com elas seja já a sua ação efetiva a favor dessas vidas.
Mas quando elas vierem para a Igreja, encontrarão um espaço de acolhida e crescimento? Um espaço em que serão desafiadas a ter o caráter de Cristo? Ou a Igreja será a nova arena das vaidades, dos desvarios e dos desvios que tanto mal fazem ao mundo? Pensamos nos nossos colegas de ministério que desistiram da caminhada vocacional. Alguns deles por problemas concretos, que mereciam uma intervenção. Mas não poucos por puro desapontamento, por relacionamentos mal conduzidos e mal direcionados, movidos por aspirações humanas e pecaminosas. Há muitos pastores e pastoras assim. Há muitos membros assim. Ovelhas sem pastor, não apenas por que não os têm, mas ainda pior: por não acreditarem mais neles...
E isso tem acontecido de modo devastador, muito embora haja o empenho de nosso bispo em trabalhar contra isso. Reiteradamente, o bispo falou durante nosso concílio, nos cultos e nas plenárias, para que não houvesse conversas paralelas e boatos de corredor. Com firmeza, ele alertou contra tais práticas, mas, novamente, o que vimos foi isso acontecer. Podemos falar com certeza e firmeza, pois pessoalmente fomos atingidos, vitimados por boatos, fofocas e mentiras, dos quais, infelizmente, só viemos a ter conhecimento quando já terminava o culto de encerramento do 39º Concílio Regional.
É preciso que as palavras sérias e proféticas que foram ditas durante este Concílio Regional se encham de real e profundo conteúdo, capaz de transformar a vida e a missão da Igreja Metodista. Nosso bispo afirmou categoricamente que é preciso garantir a unidade da Igreja e que tal unidade significa respeitar a todas as pessoas. Ele afirmou e nós concordamos, que “é melhor ter um inimigo declarado do que um falso amigo, muito embora na vida da Igreja devemos nos esforçar para não vermos uns aos outros como inimigos, já que todos fomos comprados pelo mesmo sangue de Cristo e somos irmãos”. Nossas diferenças de postura, opinião e forma de viver a fé nos fazem diferentes e não opostos. Doeu demais ouvir que circulou por lá esta veemente mentira: “O Otávio está deixando de ser superintendente distrital para fazer oposição ao bispo e porque ele vai fazer campanha para que a Hideide seja bispa”. Ao deixar o cargo, por razões estritamente pessoais e da vida da Igreja, procuramos o bispo, expusemos todas as razões pelas quais era necessário, estrategicamente para a vida familiar, para a vida da Igreja, pelos projetos pastorais assumidos e por dificuldades particulares. Fizemos como fizemos quando de sua chegada à Região: conversamos abertamente sobre nossa disposição ao serviço.
Cremos que a Igreja é maior do que nós. Que não precisamos concordar de modo homogêneo e uniformizante com todas as pessoas para estar no mesmo barco, navegando lado a lado, atendendo aos desafios da missão. Não estamos contra ou a favor de ninguém. Prova disso é que temos nos mantido fiéis ao princípio interior que temos e não integramos movimento ou grupo algum na vida da Igreja. Não participamos de nenhuma reunião dos chamados metodistas confessantes, nem atuamos no movimento do coração aquecido, por exemplo. Nem somos contra quaisquer desses movimentos, reconhecendo sua participação, quer na reflexão, quer na prática da Igreja. Mas temos amigos e amigas em todos os lugares, porque cremos que todos somos metodistas, porque assim é que é o corpo de Cristo: diferentes membros, um só corpo. Atuamos, em dois anos de Coream e quatro anos de Superintendência Distrital, sempre no melhor interesse do corpo de Cristo, sempre ponderando e conversando, sempre assessorando o bispo da melhor forma que pudemos fazer. Desafiamos qualquer um a dizer o contrário disso – a provar que tenhamos feito qualquer coisa para prejudicar a missão metodista.
O bispo falou, numa de suas mensagens, entre outras coisas, algo que achamos fundamental neste momento crucial de nossa Região. Ele disse: “Desafio a vocês que fazem as coisas no escondido, a fazer cara a cara”. No mundo secular, são feitas alianças e acordos partidários para se alcançar os objetivos desejados, pessoais ou corporativos. No entanto, o bispo nos lembrou em seu sermão, na abertura do concílio, enfatizando a carta do próximo biênio, inspirada em 1 Coríntios (Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo...), que, na Igreja, esta postura e modo de agir não devem existir. Na Igreja, nem tudo o que é lícito nos convém. Sobre esse assunto, os próprios Cânones nos esclarecem que devemos agir “sem discussão, nem debate”. Por isso, ficamos tristes, ao ouvir, nos bastidores dos concílios, boatos perigosos sobre a existência de listas para isso e aquilo, do uso da sala de oração para outros fins que não a espiritualidade. Não foi apenas este boato terrível que circulou, entristecendo os corações dos conciliares, comprometendo a espiritualidade de nosso conclave.
Mal saiu a nomeação pastoral e já havia rumores sobre igrejas “com coronéis” e “pastores ruins”. Ao ouvir essas conversas, nosso coração se rompeu em dor, porque as pessoas dizem isso e, quando confrontadas, afirmam: “Eu não quero me comprometer”. Então, não espalhe boatos, não entre na roda dos fofoqueiros, meu irmão, minha irmã! Não diga o que não pode provar, não espalhe o que apenas semeia contenda entre os irmãos/ãs e lança desconfianças sobre a liderança pastoral desta igreja tão combalida!
Lembremos a seriedade da visão que a revda. Maria de Fátima compartilhou com todos nós, no culto da manhã: “o corpo está ferido... Jesus pergunta: você não se importa?” Foi a pergunta feita a ela, feita a todos nós... Sim, o corpo está ferido, nós, pessoalmente, estamos feridos. E quando falamos isso não tem nada a ver com o resultado deste ou daquele pleito. Não precisamos de cargos para demonstrar nosso chamado – as funções são apenas mais trabalho, como o talento dado ao que já tem dez. Não é prêmio, é serviço. O maior reconhecimento que temos vem dos membros de nossa igreja local, que oram por nós e sabem o quanto nos doamos, viajando, pregando, participando de reuniões, correndo riscos nas estradas, para estar onde a Igreja precisa de nós, onde nos chama. Queremos receber desses irmãos e irmãs o reconhecimento, queremos receber do Senhor. Não queremos estar nos lugares porque fomos colocados lá, por que razão for – queremos estar em decorrência de nosso caráter, de nosso esforço e da confirmação de Deus e da Igreja. Caso contrário, estaremos fora.
Em nosso quarto, naquele dia pela manhã, após o culto de encerramento do 39º Concílio Regional da 4ª RE, e nos dias até agora, choramos e oramos ao Senhor pela sua cura em nós, membros feridos de seu corpo por causa desses boatos e – por que não dizer? – mentiras, a cura de Deus, que só vem pela verdade que Ele dará a conhecer e que nos libertará.
Fazemos um apelo sincero: se você viu algo errado, fale a verdade e não tema as consequências. Seja um profeta, uma profetisa de Deus. Mas se viu e não quer assumir, então se cale. Se você só ouviu dizer e não viu nada, não passe adiante. Não fique exaltado pelos corredores, falando pelas costas e negando encarar o face a face. Conversas de segunda ou de terceira mão de nada servem senão para semear a dor, a contenda, aumentar as feridas do corpo de Cristo. A Primeira Região deu provas de que tem a coragem de fazer isso: buscar a verdade é desafiador, mas sem isso, como alcançar o caráter de Cristo?
Não se tratam de posturas teológicas, nem de rótulos, como bem frisou o bispo em sua pregação. De fato, há rótulos bem velhos mesmo, que devem cair, há rótulos falsos, que podemos nos induzir ao erro, ao envenenamento. Trata-se de algo que tanto foi frisado neste concílio: trata-se de caráter. Nada ganhamos com boatos, como diz a Palavra do Senhor: “Ó língua fraudulenta, que te será dado ou que te será acrescentado?” (Salmo 120.2).
Nossa palavra aqui não é de denúncia, em termos formais e legais, mesmo porque não somos testemunhas desses acontecimentos; apenas chegaram a nós os boatos. E, como nos atingem pessoalmente, temos o direito de manifestar nosso aborrecimento frente a eles. Mas se trata de uma reflexão (dom que nos foi concedido por Deus); também de um desabafo pessoal e um chamado à unidade, apelo que outras vozes também têm feito e que queremos ver na prática. É tempo de cura, cremos nisso. É hora de deixar para trás o que aconteceu no passado, deixar de perseguir uns aos outros por posições teológicas ou por posturas tomadas nos concílios anteriores.
É hora de deixar de lado os discursos excludentes e assumir que somos uma Região com diversas vozes e que todas podem encontrar o tom ideal para serem ouvidas sem abafar as demais. É hora de pedir a Deus que faça maravilhas no meio de nós – começando por purificar nossa boca de todo boato, fofoca e mentira. Que nos dê coragem de falar a verdade na hora certa. Que nos dê os caminhos certos, justos e éticos para colocar nossos temas em pauta sem recorrer a nenhum subterfúgio.
Por esta razão, procuramos o bispo imediatamente, assim que ficamos sabendo o que a nosso respeito se dizia, para lhe reafirmar nossa posição, que é de contribuir para a Região, para a Igreja Metodista e para o Reino de Deus. Ele está informado. Apesar de todas as diferenças que existiram, porventura existam ou venham a existir num ponto ou outro da caminhada, com relação a colegas pastores/as ou membros de nossas igrejas, não agiremos jamais sem verdade, sem respeito, sem amor cristão. Não há razões cristãs que justifiquem tal postura.
É hora de vestir a armadura de Deus. A nossa luta não é contra a carne, nem o sangue – muito menos de uns contra os outros. De fato, se como diz a Palavra de Deus, onde está o Espírito do Senhor, aí a liberdade, é preciso que assumamos o que é necessário para ter liberdade: “CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ”.
Otávio Júlio Torres e Hideíde Brito Torres
Pastor e pastora da Igreja Metodista na 4ª RE
Cataguases, novembro de 2009