segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Conhecimento para crescimento e vida abundante



O ser humano tem mania de ver tudo a partir de opostos: branco x preto; verdade x mentira e também espiritual x material, secular x sagrado. Nesse contexto, muitas vezes surge uma oposição entre o intelecto, a razão humana e o espiritual. A gente encontra uma série de pessoas, em nosso segmento cristão, que veem com dificuldade o processo de conciliar estudos e espiritualidade. Mesmo quem entra num seminário pode desenvolver a ideia de que está ali apenas para cumprir uma etapa, um “mal necessário” para chegar a ter um título e desenvolver um ministério.
Porém, a teologia e seu estudo estão na base de tudo o que fazemos. Quando expomos o Evangelho, o fazemos a partir de pressupostos de pessoas que interferiram em nosso entendimento, conhecendo a gente ou não, gostando ou não. Por exemplo, a palavra Trindade, que tanto usamos em nossas explorações doutrinárias, não é bíblica. De onde ela vem? Quem a pronunciou? Quem deu a ela o sentido que usamos de forma tão sólida? Tertualiano, um dos pais da Igreja, que viveu entre 150 e 220 d.C., aproximadamente. E quando falamos em Reino do Céu, cidadão do céu e termos parecidos? Podemos estar nos referindo ao pensamento de outro teólogo cristão africano, Agostinho de Hipona!
Fazemos teologia a todo o tempo. Nosso jeito de orar, de cantar, de pregar, de ler a Bíblia, em suas especificidades em cada igreja cristã no mundo são nosso modo de fazer o que no campo dos estudos se chama de Teologia Prática. Desta forma, é bom que a gente traga à mente alguns conceitos de teologia que podem enriquecer esse debate, superando as dicotomias entre estudo e espiritualidade, para demonstrar que maneiras o estudo da teologia é fundamental para o crescimento na fé e para a vida abundante de nós mesmos, enquanto pastores, pastoras e líderes, e para a membresia de nossas igrejas.
O que é a teologia?

Teologia é um jeito de falar sobre o corpo.
O corpo dos sacrificados.
São os corpos que pronunciam o nome sagrado:
Deus...
A teologia é um poema do corpo,
o corpo orando,
o corpo dizendo as suas esperanças,
falando sobre o seu medo de morrer,
sua ânsia de imortalidade,
apontando para utopias,
espadas transformadas em arados,
lanças fundidas em podadeiras...
Por meio desta fala
os corpos se dão as mãos,
se fundem num abraço de amor,
e se sustentam para resistir e para caminhar.
(Rubem Alves)

Gosto muito dessa definição do Rubem Alves, porque ela coloca a teologia no seu lugar fundante. Ela nunca poderia almejar ser uma definição de Deus, nem explicar Deus. Quando fazemos isso, estamos longe de poder teologar. Deus, em Si mesmo, é indizível. É mistério. Tudo o que podemos fazer é buscar compreender de que formas podemos nos relacionar com aquilo que Ele nos revela, nos faz entender. A teologia é um esforço humano de se aproximar do divino. É algo tão válido que Deus vai se deixando revelar, compreender, conforme esse esforço. Vou me concentrar aqui, portanto, em falar de teologia sempre numa perspectiva cristã. Deus se revela, nós buscamos compreendê-lo.
Rubem Alves neste texto nos mostra que a teologia é concreta: acontece no nosso corpo, responde às questões deste corpo, é engajada. Um conhecimento teológico que fique no campo do achismo não é conhecimento. Queremos teologar para saber por que nascemos, para que existimos, por que a doença dói e por que a morte mata. São coisas tangíveis, reais, dolorosas ou angustiantes que nos movem na busca de conhecer, de responder à indagação: “A vida é isso aqui ou tem mais? Há um propósito para mim neste mundo?”
Nosso propósito é conhecer para crescer enquanto ser humano, para nos aproximar daquele alvo que é estar mais perto de Deus. A meu ver, é um retorno a Gênesis 2-3, aquela imagem Dele em nós antes da queda – o ser humano mais humano é o melhor espelho de Deus que podemos ter. Deus Se revelou naqueles primeiros seres, no Seu jardim especial. Por isso, um conhecimento que não se preocupa se as pessoas têm o que comer, o que vestir, como estudar, se estão em condições de cuidado e justiça, se não lhes é dada a condição ideal para um encontro com Deus em plenitude de vida, então esse teologar é falso e entra no campo das fábulas descritas por Paulo a Timóteo. Devemos seguir o conselho do apóstolo e fugir delas, pois são profanas e não agregam.
O que é conhecimento?
Em Oseias 4, diz: "Meu povo perece por falta de conhecimento". A partir deste texto, acusamos as pessoas de serem alienadas religiosa, política e afetivamente. Dizemos que é culpa delas por serem tão ignorantes. Gritamos que o povo não sabe votar, nem escolher, nem tomar decisões. Mas observemos no contexto:
Ouvi a palavra do Senhor, filhos de Israel! Porque o Senhor está em litígio com os habitantes da terra. Não há sinceridade nem bondade, nem conhecimento de Deus na terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio. Por isso, a terra está de luto e todos os seus habitantes perecem; os animais selvagens, as aves do céu, e até mesmo os peixes do mar desaparecem. Entretanto, ninguém poderá acusar {o povo}, nem o repreender, mas eu censuro a ti, ó sacerdote.
Na referência bíblica, a pessoa responsável pela transmissão do conhecimento ao povo, em prover-lhe condições para desenvolver seu discernimento e seguir a Deus é a figura sacerdotal. O papel do teólogo e da teóloga, portanto, é gerar um conhecimento que alcance a todas as pessoas, ao povo, dando-lhe apontamentos seguros para que possa caminhar rumo à salvação, ou seja, impedindo que “ele pereça por falta de conhecimento”. Agostinho afirma: “Sequer poderíamos crer se não tivéssemos mentes racionais”. Que conhecimento seria esse?
Primeiramente, é um conhecimento que requer investimento de nossa parte. Ele não é raso, não é simples e não pode ser achado em pesquisas rápidas no Google. Ele é, ao contrário, exigente. O fundador da Igreja Metodista, João Wesley, assim se expressou, em 17 de agosto de 1760, a um pregador chamado John Trembath, por meio de uma carta na qual o exortava a preparar-se adequadamente para o ofício da pregação:
O que tem lhe prejudicado excessivamente nos últimos tempos e, temo que seja o mesmo atualmente, é a carência de leitura. Eu raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez por negligenciar a leitura, você tenha perdido o gosto por ela. Por esta razão, o seu talento na pregação não se desenvolve. Você é apenas o mesmo de há sete anos. É vigoroso, mas não é profundo; há pouca variedade; não há sequência de argumentos. Só a leitura pode suprir esta deficiência, juntamente com a meditação e a oração diária. Você engana a si mesmo, omitindo isso. Você nunca poderá ser um pregador fecundo nem mesmo um crente completo. Vamos, comece! Estabeleça um horário para exercícios pessoais. Poderá adquirir o gosto que não tem; o que no início é tedioso será agradável, posteriormente. Quer goste ou não, leia e ore diariamente. É para sua vida; não há outro caminho; caso contrário, você será, sempre, um frívolo, medíocre e superficial pregador.
Na Bíblia, vemos Paulo, prestes a ser martirizado nos porões de Roma, pedindo a Timóteo que lhe traga uma capa e seus livros... O tratado de Paulo aos Romanos é um dos mais belos exemplos bíblicos de aula de teologia. É uma explicação só possível a alguém que gastou muito tempo meditando, pesquisando, conhecendo. Nenhuma pessoa pode ser hábil em sua profissão senão tendo estudado para isso. Mesmo o sapateiro no seu ofício estuda: seu objeto é o couro, o plástico, a linha... Ele conhece cada um desses elementos, sabe como se encontram, qual serve para qual... E o pregador ou pregadora não pode ser diferente. Precisa “manejar bem a Palavra” e não pode pressupor que saiba tudo ou que o Espírito lhe revelará tudo. Ele ou ela precisa e depende de outros que antes se debruçaram, pesquisaram, conheceram e podem lhe fornecer informações importantes sobre seu percurso com a Bíblia.
Em segundo lugar, é um conhecimento vital: debates são sempre muito bons pra desenvolver o nosso intelecto, mas eles precisam ter um propósito. Eu não sei muita coisa se isso só serve para polemizar. O conhecimento teológico serve para ajudar as pessoas a encontrar soluções para suas vidas espirituais, para sanar suas dúvidas existenciais, para ajudá-las a encontrar o propósito de sua vida em Deus. Um exemplo claro disso é o encontro de Filipe com o eunuco, na narrativa de Atos. É o conhecimento que Filipe tem das escrituras que torna possível ele “começar por Isaías para anunciar-lhe a Cristo”.
Filipe sabia contextualizar o texto, sabia o que Isaías estava falando e sabia como percorrer a trajetória histórica do texto para chegar onde queria. Muita gente sem conhecimento comete as mais bárbaras heresias porque lê a Bíblia como se ela tivesse sido escrita ontem, sem levar em conta a quantidade de gente que nos precede e o espaço histórico no tempo no qual as interpretações diversas se estabelecem. O conhecimento teológico precisa gerar vida. Alberto Fernando Roldán, no texto Para que serve a teologia (Editora Descoberta), afirma que
o pastor [a pastora] que não se preocupa com seu preparo bíblico e teológico condena sua igreja ao infantilismo e raquitismo espirituais e, com frequência, acaba tornando-se um pastor [uma pastora] monotemático que, como tal, desenvolve todos os seus discursos ao redor do seu tema favorito. Um pastor [uma pastora] monotemático está longe de apresentar ‘todo o conselho de Deus’ à sua congregação.
É cruel com as pessoas que elas passem anos e anos dentro das igrejas sem que possam se mover ao mínimo de autonomia nas suas reflexões ou se envolvam em debates insossos que alimentam somente as diferenças entre as doutrinas e não o crescimento saudável do membro em sua comunidade. A teologia pastoral serve a este propósito, pois, de acordo com Efésios, é para “equipar os santos para o desempenho do seu ministério”. O pastor ou pastora é essa pessoa que prepara as demais para atuar nos campos. Como fazer isso sem entender o porquê de fazer o que faz? É para isso que serve o conhecimento! Ele não é independente – respondemos às doutrinas cristãs estabelecidas desde os primeiros concílios da Igreja e estamos em sujeição às demandas de nossa igreja denominacional, pois o conhecimento teológico é, em essência, comunitário – mas é autônomo – consegue fazer sozinho aquilo que deve ser feito, sem muletas de qualquer tipo, como crendices, superstições, maldições ou coisas similares que fomentam o medo de questionar, indagar e aprender.
Em terceiro lugar, o conhecimento também serve para dar fidelidade ao ensino. Charles Spurgeon afirma:
Sejam bem instruídos em teologia, não façam caso do desprezo dos que zombam dela porque a ignoram. Muitos pregadores não são bons teólogos, e disso procedem os erros que cometem. Em nada pode prejudicar o mais dinâmico evangelista o ser também um bom teólogo; pelo contrário, pode ser o meio que o livre de cometer enormes disparates. Hoje em dia ouvimos alguém extrair do seu contexto uma frase isolada da Bíblia e clamar: “Eureka!” como se tivesse descoberto uma nova verdade; no entanto, não achou um diamante, mas um pedaço de vidro quebrado. Se comparasse o espiritual com o espiritual, se entendesse o significado da fé, ou estivesse familiarizado com a santa erudição dos grandes estudiosos da Bíblia em épocas anteriores, não se apressaria tanto em jactar-se de seus maravilhosos conhecimentos. (SPURGEON, 1991, p. 15)
Jesus era reconhecido como alguém que falava como quem tem autoridade. Que isso quer dizer? Havia segurança em suas palavras, firmeza nos seus conceitos. Ele era habilitado para ensinar e reconhecido como um rabino ou mestre, como o atesta o próprio Nicodemos na entrevista que tiveram. Jesus cita toda a Bíblia quando conversa com os discípulos no caminho de Emaús. Jesus chega na sinagoga e no rolo que lhe é dado Ele tem toda a condição de fazer sua preleção, porque é um estudioso. É evidente seu conhecimento, certamente recebido por toda a tradição judaica de ensino no contexto do lar e da sinagoga. Some-se a isso sua vida de devoção e oração e a autoridade se torna algo tangível e inegável até mesmo por seus inimigos!
Por fim, quero pontuar aqui, mas não somente isso, que o conhecimento produz, em decorrência dos aspectos acima, autoridade. Uma das funções da teologia é a apologética, a defesa da fé, não apenas em termos de debates, mas também por meio da formação das pessoas, da transmissão da correta doutrina, do forjar do ensino no dia a dia do povo, na formação de novos líderes, na transmissão de conteúdos e valores. Como fazer isso sem constante estudo e atualização? O professor e pastor Anders Ruuth ensina:
Não é o estudo em si o que transforma um pregador em um bom pregador, do mesmo modo como a honra de ser doutor em teologia não garante em absoluto a condição de profeta. Mas o estudo confere ao pregador os conhecimentos formais necessários para exercer seu ofício de pregador, assim como o artesão e o profissional têm de aprender as técnicas e práticas próprias de suas profissões. Todo mundo tem respeito por uma pessoa que é capaz em seu ofício. Assim também o ministro deve fazer-se respeitar pelos conhecimentos que possui. (RUUTH apud ROLDAN, p...)
A competência formal é importante. É claro, por exemplo, que Pedro é um grande líder na igreja primitiva. Sua autoridade é inegável. Mas a habilidade de discutir, de escrever e de pregar de Paulo, que foram aprimoradas porque ele estudou com os melhores professores de seu tempo, como Gamaliel, levaram ao máximo sua capacidade e por isso ele foi capaz de fazer transposições que Pedro não conseguiu, como se tornar o apóstolo entre os gentios, transitar entre culturas e saber “traduzir” o evangelho para povos não acostumados aos ritos, tradições e ao texto sagrado judeu.
Assim, o pregador ou pregadora, seja no pastorado, no ministério de evangelismo ou missões, tanto mais poderá avançar quanto conhecer todas as questões possíveis do campo da teologia. Do mesmo modo, ninguém conseguia colocar Jesus em apuros sobre a interpretação bíblica, porque Ele havia desenvolvido sua capacidade de raciocínio, articulando os conhecimentos bíblicos às demandas de seu tempo. Exemplos disso podem ser o episódio sobre o tributo, o caso da mulher adúltera ou quando lhe perguntam sobre sua autoridade e Ele devolve indagando se o batismo de João é do céu ou da terra. Sua forma de atuar é sempre levar as pessoas a racionar, ao invés de oferecer saídas fáceis e formatadas. Só assim se pode chegar ao segundo estágio de nossa conversa aqui: o crescimento!
Crescer: como?
O pensador católico Libânio faz um diagnóstico muito duro da realidade do cristianismo no contexto desse momento a que chamamos de pós-modernidade (seja lá o que isso signifique, dadas as tantas nuanças...). Ele afirma, primeiro, o que eu entendo que nós, protestantes, também podemos concordar quanto ao que seria um processo de maturidade (ou de crescimento na fé). E, a seguir, ele apresenta o problema que percebe na contemporaneidade para podermos ter tal crescimento:
A fé cristã pede uma identidade firme que passa por um tríplice processo. O cristão sente-se tocado pela Palavra de Deus, pela pessoa de Jesus, por sua práxis, pelos seus ensinamentos. Num momento seguinte, converte-se para uma nova vida, ao impregnar sua identidade religiosa de tal Palavra. E, num momento seguinte, compromete-se com o Reino de Deus. Isso significa que o agir se conforma com a lei do amor a Deus e ao irmão. E tal identidade se alimenta na comunidade daqueles que vivem tal experiência de conversão e seguimento. A identidade religiosa pós-moderna, pelo contrário, alimenta-se da emoção, de momentos intensos e passageiros, de uma busca de porta em porta de experiências sempre novas nas boutiques espirituais. As pessoas se entregam a verdadeiro nomadismo religioso. Reina o provisório. Desde que uma prática religiosa já não satisfaz, ela é descartada com toda facilidade. Não se receia misturar formas religiosas de tradições as mais diversas e até irreconciliáveis num ecletismo e sincretismo sem questionamentos. Vive-se no interior de uma nebulosa religiosa. Institui-se o primado da experiência sobre as prescrições da Instituição. Interiorizam-se e subjetivizam-se as expressões religiosas escolhidas conforme o próprio gosto. Há um dobrar-se sobre si mesmo, sobre o próprio eu. O termo mística soa redondo. Envolve vivências leves, gostosas, suaves. (LIBÂNIO, 2009, p.10-11)
A teologia se concentra nessa primeira parte para promover o crescimento. Levar a pessoa de um momento de ser tocada pela Palavra de Deus para chegar ao ápice, que é o comprometimento da vida com o Reino de Deus. Isso acontece no seio da comunidade de fé, que é uma comunidade interpretativa. Quer dizer que também a leitura bíblica e sua correta interpretação não são fruto de uma pessoa ou de seu modo particular de pensar. Quando a Reforma Protestante fala de colocar a Bíblia na mão das pessoas, dar-lhes acesso e incentiva ao sacerdócio universal de todos os crentes, ela não pretendia uma leitura individualista da Bíblia. Contudo, o que temos na atualidade é isso, a tal ponto que a experiência pessoal e particular inibe ou até contraria a vivência comunitária.
Essa fragmentação tem levado muita gente a desconsiderar a recomendação bíblica de não deixar de congregar-se, contida em Hebreus. E isso não é apenas deixar de ir à igreja, mas deixar de ser e sentir-se parte de algo maior. Sem o lastro dessa reflexão comunitária, há uma perda teológica não apenas de valores, mas de tradições e historicidade que vão se perdendo, levando à individuação e ao relativismo teológico, perigo tão aventado em nossos dias. Também se verifica, mediante a perda dos seus membros, que as igrejas-comunidades começam a adotar regras e práticas de mercado para segurar seus clientes, perdendo sua prerrogativa de espaço profético e tornando-se lugares de negociação religiosa. A Bíblia perde sua eficácia porque não há teologia que a sustente na vida das pessoas. Voltamos ao tempo dos juízes, quando “cada um faz o que acha correto”. A esse processo, temos chamado “secularização”.
É o conhecimento e o estudo das Escrituras, sua recondução ao lugar de texto sagrado na vida das pessoas, que vai garantir um crescimento real para a pessoa que ministra, tirando-a do lugar comum, mas do mesmo modo para sua igreja, levando a uma firmeza doutrinária e bíblica, a um fortalecimento do ser interior e um despertamento para a real vivência missionária, para as lutas do Reino de Deus que vão além da igreja, como a superação da violência, da criminalidade, das injustiças, a retidão nos governos, etc. O projeto de Deus não é só para a igreja ou para um conjunto específico de pessoas. É para o mundo todo. Não é um novo bairro ou um novo país, mas um novo céu e uma nova terra!
A educação teológica, para gerar crescimento e vida abundante, deve ser libertadora no sentido de elevar as pessoas à condição de protagonistas de sua história. A leitura bíblica precisa impulsionar à ação. Superar a secularização pelo resgate da Bíblia como inspiração concreta e da comunidade como fomentadora de vida. Levar as pessoas a se engajar em projetos que não apenas gere adeptos para seus arraiais, mas gente comprometida com todos os aspectos possíveis para transformar o mundo.
Vivemos um novo nível de massificação, como nunca imaginado. A Teologia tem se tornado produto e tem gerado mercados. Prova disso é o grande número de cursos que se oferece. Se por um lado podemos agradecer pela ampla oferta de conhecimento, por outro, nos deparamos com o consumo e com o pragmatismo que caracterizam, em muitos momentos, a educação teológica que temos recebido. A educação teológica deve, ser, portanto, comprometida, assumindo posturas e negando qualquer falsa neutralidade em nome de um bem-estar aparente, do que seria politicamente correto. Para haver conhecimento, crescimento e vida abundante, é preciso profundidade, compromisso, tempo.
Eu creio que a sensação mais próxima do que eu quero expressar na totalidade dessa reflexão é que o pastor ou pastora, ou a pessoa que quer estudar teologia, deveria fazê-lo, para ter conhecimento, crescimento e vida abundante, a mesma disposição que havia nos pregadores antigos para com seu tempo com Deus em estudo e aprofundamento. Dentre tantos, me permitam citar João Wesley, em sua introdução aos sermões, que tem um dos textos mais lindos sobre como a teologia nasce do contato com as pessoas, com a Bíblia, com a experiência pessoal e com a tradição, que são os pensadores que vieram antes de nós:
Eu não tenho receio de revelar os meus pensamentos mais íntimos aos homens sinceros e sensatos. Eu tenho pensado que sou uma criatura de um dia, passando pela vida como uma flecha através do ar. Sou um espírito vindo de Deus e que para ele voltará; espírito apenas pairando sobre o grande abismo, até que daqui a uns poucos momentos eu não seja mais visto e entre numa eternidade imutável! Quero saber uma coisa – o caminho para o céu; como desembarcar-me com segurança naquela praia feliz. O próprio Deus condescendeu em ensinar o caminho; para este fim, ele veio do céu. Ele o escreveu em um livro. Oh, dá-me esse livro! Por qualquer preço, dá-me o livro de Deus! Eu o tenho. Aqui há conhecimento suficiente para mim. Seja eu o homem de um livro. De modo que estou distante dos costumes atarefados dos homens. Eu me assento a sós: somente Deus está aqui. Em sua presença abro e leio o seu livro; para este fim: achar o caminho do céu. Há alguma dúvida a respeito do significado daquilo que leio? Parece alguma coisa difícil ou intricada? Ergo o meu coração ao Pai das luzes: "Senhor, não é tua palavra, se alguém necessita de sabedoria peça a Deus? Tu dás liberalmente e não lanças em rosto. Tu disseste: se alguém quiser fazer a tua vontade, ele a conhecerá. Eu quero fazê-la, dá que eu conheça a tua vontade." Eu então pesquiso e considero as passagens paralelas das Escrituras, "comparando as coisas espirituais com as espirituais." E então medito com toda a atenção e sinceridade de que é capaz a minha mente. Se ainda persiste alguma dúvida, consulto aqueles que são experimentados nas coisas de Deus e, então, os escritos pelos quais, mesmo mortos, ainda falam. E o que assim aprendo, isso ensino.  (WESLEY, Prefácio aos Sermões).
Obrigada!


Referências
LIBÂNIO, João Batista. Identidade na Pós-modernidade. In: Revista Interlocução, v.1, n.1, Ago./Set./Out. 2009. Disponível em http://interlocucao.loyola.g12.br/index.php/revista/ article/view/27/29
ROLDÁN, Alberto F. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000
SPURGEON, Charles H. Um ministério ideal. Vol. I. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991
WESLEY, John. Carta a John Trembath. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/pregacao/pregadores_wesley.htm, acesso em 01 set 2016.

WESLEY, John. Sermões. Disponível em: http://www.metodista.org.br/sermoes-de-john-wesley-disponiveis-para-download. Acesso em 01 set 2016.

terça-feira, 29 de março de 2016

As roupas da morte não servem (João 20.1-10) - Páscoa 2016

Quando um judeu morria, seu corpo era envolto em faixas. A roupa da morte travava todo o corpo. Devia ser linho branco. A pessoa ficava como a múmia egípcia, mas sem  todo aquele preparo. Todos os órgãos deviam ser enterrados com a pessoa, seu corpo não poderia ser profanado. Perfumes eram colocados em seu corpo. As carpideiras – choradeiras profissionais – deviam lamentar e chorar pelo falecido.

As roupas da morte escondiam quaisquer feridas, deformações ou podridão. Ao contemplar as roupas da morte, ninguém poderia ficar escandalizado ou assustado. As roupas da morte escondem a morte, despistam, minimizam a dor.

A Bíblia diz que a gente também estava morto em nossos pecados e delitos – Efésios 2. E usamos muitas roupas de morte e também perfumes para esconder os cheiros da morte ou a feiúra dela. Se ao menos as pessoas pudessem ver nossas almas, poderiam descrever quanta podridão e tristeza, quanta corrupção e que desastre algumas delas poderiam, ou talvez ainda podem, trazer. As roupas da morte podem ser o sucesso, a beleza, o sorriso sempre aberto, a família margarina, o dinheiro, as palavras bonitas, o círculo de amigos... as roupas da morte podem ser, de igual modo, o distanciamento, a ausência de relacionamentos profundos. Tudo o que possa afastar as pessoas para que elas não sintam o cheiro da morte em nós.

Jesus foi envolvido nas roupas da morte. Seu corpo ficou totalmente coberto por ela. Não era possível ver o seu rosto, porque um lenço foi colocado sobre ele. Tudo escondido. Ele entende perfeitamente, portanto, o que a morte espiritual significa para nós, porque ele a experimentou no seu físico, do jeito mais intenso – e voltou para contar como é; para nos impedir de passar por isso de modo definitivo.

Seu rosto ficou coberto. Sua face sofrida foi escondida. Assim também você e eu podemos usar máscaras ou lenços para cobrir nossas verdadeiras feições. Ninguém vai ver o quanto a nossa alma está agonizando ou sofrendo de morte. Ninguém pode saber a dor que a gente traz lá dentro. Escondemos e achamos que tudo está bem.

Eu me espanto de João ser o único dos evangelhos que gasta tanto tempo para descrever o que aconteceu com as roupas da morte. Na verdade, a gente não pensa muito nelas. Há anjos, há mulheres chorando, há Jesus aparecendo... mas quem iria reparar num monte de panos jogado no canto?

Eu só posso imaginar. Só posso imaginar o corpo de Jesus se remexendo dentro do túmulo quando ele despertou da morte. Ele não conseguia se mover. Estava amarrado como Lázaro (João 11). Estava restrito em seus movimentos. Aqueles panos deviam estar meio fedidos, porque sequer seu corpo foi lavado antes de ser sepultado. Havia neles marcas de sangue, de terra, de ferro, pedacinhos de madeira. Sei lá. Ele não podia se mover.

Eu só posso imaginar que os anjos estavam ali no sepulcro não apenas para contar aos discípulos, mas também para ajudar Jesus. É como no Salmo 91 – os anjos receberam ordens para cuidar de Jesus. Eu imagino que eles estavam ali para tirar os panos da morte e para receber seu Senhor ressuscitado! Eles o desenfaixaram para que ele pudesse andar novamente por este mundo, como Rei e Salvador, aquele que venceu a morte!

Jesus recebeu novas roupas. Não sei de onde vieram. Mas elas são simbólicas para nossa reflexão. Jesus recebeu novas roupas porque as roupas da morte não servem. Adão e Eva haviam recebido roupas e as deles eram de peles, sinal de morte (Gênesis 3-4). Jesus, como sumo sacerdote, deve ter recebido roupas de linho. Será? Não importa! Eram roupas de alguém que estava vivo!

Hoje, neste culto, celebramos esta vida. Não podemos seguir usando roupas de morte quando estávamos em vida! Se Jesus é a nossa vida, temos de aprender com ele a deixar as roupas da morte dentro do sepulcro. Qual é sua roupa da morte? O que você usa para esconder os sinais do pecado, da morte espiritual? A Igreja de Laodicéia usava seu status social. Dizia-se rica. Nicodemos usava seu conhecimento da lei. Entendia-se doutor. Mas eles precisaram nascer de novo, abandonar suas roupas velhas, de morte.

Contemple esses panos no chão. Eles sinalizam que a morte foi vencida. Você pode se sacudir desses panos de morte hoje mesmo. Os anjos de Deus estão aqui nesta noite para ajudar você a se desfazer dessas amarras. Eles estão aqui para proclamar que existe vida em Jesus Cristo para você! Essa boa notícia tem que transformar a vida da gente todos os dias. Cada vez que o pecado quiser amarrar nossas mãos, nossas pernas, nossas emoções, temos de nos sacudir e dizer: Estamos vivos! Há vida de Deus em nós! E jogar esses panos no chão e pisar por cima deles em triunfo! Se ele vive, também viveremos! Toda inspiração vem dele, todo fôlego vem dele, todo amor de Deus vem dele para nós! Temos de nos despir dessas roupas de morte e temos de vestir as vestes da vida.

Jesus, ao ressuscitar, cumpriu a promessa: “O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. (Isaías 61.1-3)

Quero lhe convidar a receber o manto de louvor, a roupa da alegria nesta noite, porque Jesus ressuscitou. Simbolicamente, nós vamos fazer isso em comunhão, passando esse manto pelos nossos ombros e nos abençoando em nome de Jesus! As roupas da morte não servem para quem está vivo!


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Pistas para se pensar acerca de nossa fé, identidade e estrutura metodistas a partir da relação com o episcopado

Eu acredito em projetos coletivos. Creio que um caminho para eles é a gente jogar ideias, espalhar trilhas de sonhos, recolher indícios de paixões pelo ensino, pela pregação, pela vivência... e disso tudo pensar coisas concretas, com as ideias de cada um. Pela construção de um projeto coletivo de participação, visando ao avanço e maturidade do corpo de Cristo que se reúne como Igreja Metodista, particularmente na minha Região de origem, na qual, junto com os colegas, a gente vê a nossa realidade (e os colegas e membros de outras Regiões podem contribuir, trazendo também as suas), achamos por bem colocar por escrito algumas ideias, sonhos, proposições para fomentar a discussão que se propõe por outros canais, mas que precisa ser conduzida a um fim proveitoso. Entendemos que ela sempre se fez presente ao longo da história do povo de Deus, uma vez que a necessidade faz surgir a vontade e a vontade se transforma em reflexão, em proposição e, eventualmente em clamor. Isso é evidente em textos como 1 Samuel e Juízes. As necessidades concretas do povo o levava a clamar por líderes com perfis adequados aos desafios propostos. Eles não podiam responder a tudo, mas foram bem-sucedidos muitas vezes por terem a clareza necessária ao seu chamado específico.
Devemos recordar este caminho trazendo à tona algumas justificativas, as quais se encontram nos textos bíblicos e também nos nossos documentos. Os Cânones, no seu artigo 127, estabelece os critérios para a eleição episcopal quanto ao caráter e características da pessoa a ser eleita:
Art. 127. As eleições ao episcopado da Igreja Metodista se processam por escrutínio e são realizadas por meio de processo do qual participam os Concílios Locais, Distritais, Regionais e Geral, da Igreja Metodista, em diferentes etapas, observando-se o seguinte:
I - o processo de escolha leva em conta as condições básicas mencionadas na Bíblia Sagrada, em 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.7-9 e, em especial, os seguintes requisitos:
a) integridade moral e espiritual;
b) probidade;
c) coerência entre discurso e a prática;
d) capacidade de liderança;
e) facilidade de expressão oral e escrita;
f)  firmeza doutrinária, segundo os padrões da Igreja Metodista;
g) reconhecida competência no exercício pastoral em igrejas locais, inclusive capacidade administrativa;
h) boa condição de saúde física e mental;
i) não ter pendências judiciais que o desabonem para o exercício do Episcopado na Igreja Metodista.
(Tais critérios pressupõem que os candidatos e candidatas deveriam apresentar algum material comprobatório ou fossem questionados quanto a esses critérios uma vez que se apresentassem ao exercício do episcopado. Ou que as listas de candidatos apresentadas ao processo da igreja local já trouxessem os nomes aprovados a partir dos critérios apresentados. Ainda não sabemos de forma isso se dará, mas, enfim, é preciso demonstrar prévia competência em áreas relacionadas com a atividade pastoral a ser desempenhada.)
Os versículos bíblicos constantes no texto canônico trazem as seguintes recomendações:
Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?). Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo. (1 Timóteo 3.1-7)
Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. (Tito 1.6-9)
Há na Bíblia diversos textos que qualificam aquelas pessoas chamadas para o serviço do santuário e ministérios relacionados com o anúncio profético: os ajudantes de Moisés, os profetas do tabernáculo, os diáconos da igreja primitiva, entre outros. Todos eles contavam com um testemunho público acerca de seu caráter, sendo, a partir disso, incontestável a presença do Espírito Santo, confirmando sua vocação. E eles operavam por áreas de ação. Desta forma, estamos trazendo algumas ideias para que sejam debatidas e, em parecendo bem ao Senhor e a nós, levadas adiante como um projeto. Algumas dessas ideias já vêm sendo debatidas há algum tempo entre pessoas de várias regiões eclesiásticas interessadas num projeto de bases comuns e biblicamente estabelecidas.

O episcopado e o pastoreio
A vocação pastoral precisa ser seguida. Há um distanciamento entre o episcopado e as demandas do pastorado, por conta da institucionalização dessa função. O bispo ou a episcopisa precisa de uma igreja local, na qual possa estar, conjuntamente com sua família, ministrando e recebendo ministração. Não há necessidade, em sua função, de que esteja fora da igreja local todos os domingos. Sua agenda pode prescindir de muitos compromissos não essenciais em nome de uma cabeça e um coração focados na missão e que, desta forma, inspire colegas em seus próprios ministérios.
Aquilo que é pedido do pastor e da pastora precisa ser feito pelo bispo ou episcopisa. Portanto, é mister que ele ou ela conduza um grupo pequeno ou pelo menos participe de um, se essa é a atual ênfase da igreja. É sua forma de manter ativo o ardor evangelístico na base.
O episcopado é um espaço de ministração ao corpo pastoral da igreja. Com uma redução drástica nas viagens que nada acrescentam ao processo de cuidado, essa pessoa poderá e deverá estar presente com mais assiduidade em momentos como retiros e encontros distritais, que ocorrem geralmente durante a semana, sem prejuízo de sua igreja local e com grande ganho para os pastores e pastoras. O investimento correto nessa área pode significar custos mais reduzidos para encontros e possibilidade de ter mais a presença da família pastoral sendo cuidada de perto.
Em sua tarefa junto ao corpo pastoral, garantir ampla transparência, prestação de contas e fiscalização por técnicos e profissionais de aspectos relativos ao pecúlio pastoral, uma grande fragilidade nacional e que gera incertezas quanto ao futuro da família pastoral.
Para dar prioridade ao processo de pastoreio e discipulado, é mister não agir de modo centralizador, principalmente na área técnica, financeira, institucional e burocrática da instituição e suas instituições, que atualmente consomem grande tempo e com míseros resultados para a missão.
Zelar com especial atenção pelas famílias pastorais, provendo espaços de reflexão, encontro, partilha e atendimento às necessidades.
Zelar com especial atenção pelo corpo pastoral que é viúvo, solteiro e do sexo feminino, por suas particulares necessidades, muitas vezes não contempladas pela ação episcopal contemporânea, em função do foco na família a partir da perspectiva do casal.
Definir, em projeto junto às igrejas locais e distritos, o número de pastoras/es que a Região suporte pagar e o número de pastores/as de tempo parcial.
A nomeação em tempo integral ou parcial e seus critérios serão justos e claramente discutidos. O mérito de trabalho, de conhecimento, de estudo e atualização, os frutos e a dedicação aos votos feitos como membro clérigo da Igreja serão efetivamente levados em conta, bem como o projeto da família pastoral, evitando traumas desnecessários e súbitos.
Casais em que ambos são do corpo pastoral da igreja não podem ter prejuízo em seu subsídio e trabalho em função de sua situação conjugal. Há que se propugnar meios para trabalhar essa questão que se arrasta por tempos esquecidos, em nome de uma pretensa “praxe” que pode acabar por abalar o relacionamento.
Seminaristas e recém-formados não serão enviados para abrir novas igrejas sem a experiência ou suporte necessário por meio das igrejas-pólo em cada distrito. Preferencialmente sob a supervisão de um pastor ou pastora que exerça o mentoreamento e acompanhamento para dar estabilidade emocional e espiritual ao novo pastor e pastora.
Rever os processos e conceitos de itinerância, adequando-os ao novo momento histórico e buscando humanizar os processos, forjando o pastor e pastora para pensar um ministério mais longo em cada igreja local.
Desenvolver um cuidado intensivo, igualmente, junto aos pastores e pastoras aposentados da Igreja, verificando a possibilidade de gestar junto a eles e aos mais experientes um projeto real de mentoreamento e cuidado “interpastoral”.

O episcopado e a administração regional
Priorizar pastor e pastora no ministério pastoral, na igreja local ou em ministérios pastorais específicos, não em cargos administrativos, a não ser que tenham a qualificação acadêmica e a experiência necessária. Essa relação distorcida prejudica, pois se tratam muitas vezes de cargos regidos por CLT, caracterizando desvio da função pastoral.
Atendendo ao dispositivo do Concílio Geral que determinou que as cidades com mais de 100 mil habitantes sejam priorizadas como possibilidades de implantação de igrejas, antes de abrir novas frentes priorizar as cidades e seu potencial e não a realidade da igreja local no processo de nomeação. Apoiar integralmente ao pastor ou pastora que realiza sua tarefa com desvelo e apego à doutrina, costumes e tradições da Igreja Metodista, sob a unção e direção do Espírito Santo, para as alterações necessárias visando ao avanço missionário nessas localidades e nas demais.
Investimento no corpo pastoral: pastores/as de tempo integral a cada cinco anos teriam o incentivo para fazer um curso de mestrado ou outro relativo ao seu campo de atuação ministerial, com a criação de parcerias com instituições ou criação de aportes regionais por meio da disponibilização de livros e materiais para a criação de um fundo com este fim, administrado pela Ordem Presbiteral, com critérios estabelecidos em assembleia dos pastores e pastoras.
Estruturação da Ordem Presbiteral na Região, com amplo debate, conforme as orientações canônicas, para atuação junto ao gabinete episcopal na tarefa de cuidado, disciplina e doutrina metodistas, no que couber.
Não é necessário abrir mão de autoridade ou responsabilidade, mas é possível à pessoa no exercício do episcopado terceirizar bastante de suas tarefas administrativas. Ela deve voltar a ser a cuidadora de almas do corpo pastoral e famílias, bem como as demais lideranças regionais e ministérios.
Redução dos gastos do Gabinete Pastoral com visitação às igrejas locais pelo estabelecimento de parcerias com as igrejas locais quando necessário. Os recursos daí gerados servirão para subsidiar a formação de pastores e pastoras com bolsas de participação em eventos que interessem ao distrito e às igrejas locais, conforme agendamento dos superintendentes distritais, bem como a redução de taxas de participação em eventos e convocações regionais.
Também, de acordo com o crescimento regional, alocar recursos para investimento na saúde da família pastoral, por meio de ações diversas de cuidado, desde cursos até ajuda para descanso, refrigério e renovo, bem como apoio financeiro e psicológico em casos de crise, doenças e eventuais. Prevenir ao máximo.

O episcopado e a expansão missionária
Os encontros regionais da liderança pastoral devem abordar temáticas como a história, doutrinas e documentos da Igreja Metodista, sempre em amplas discussões e atualização, para evitar ou prevenir eventuais saídas motivadas por projetos pessoais ou igrejas independentes, como vêm ocorrendo em larga escala na Igreja atualmente.
Os pastores e pastoras, missionários e outros obreiros e obreiras devem ser relembrados de seus votos à Igreja, renovando-os periodicamente em seus encontros e tendo espaço para expor, sanar e sarar suas questões e reinvindicações, nos termos dos pactos que Wesley estabelecia com seus obreiros no passado, sempre com foco na missão.
Pensar juntos um projeto de reconhecimento e valorização do corpo pastoral, sem o qual o avanço missionário fica prejudicado, com vistas a garantir um subsídio adequado e a satisfação interior do obreiro e da obreira enquanto ser humano e “bom presbítero” no sentido discutido por Paulo em suas cartas a Timóteo, sem abuso de poder, autoridade ou falta de transparência do pastor e da pastora na igreja local.
Nenhum pastor ou pastora poderá exercer função regional ou coordenar ações regionais se sua igreja não estiver em dia com suas obrigações junto à sede regional, por uma questão de caráter e coerência, que prejudica e pesa sobre todas as demais igrejas, sempre considerando situações alheias à vontade da igreja, no que couber.
Os pastores e pastoras da região coproduzirão o material de discipulado, podendo contribuir com sua produção por meio do site da Sede Regional e sendo convidados para projetos específicos de produção de estudos, materiais para grupos pequenos, Escola Dominical e outros. Garante-se assim a multiplicidade de olhares, ministérios e práticas que abarquem a multiforme necessidade humana sob a multiforme graça de Deus que opera em todas as pessoas.
A avaliação pastoral passará por profunda revisão, em parceria com a Ordem Presbiteral, visando ao conhecimento da realidade dos pastores, pastoras e igrejas e não apenas para fins de nomeação. Estratégias missionárias, planos de ação e encontros regionais levarão em conta os resultados dessas avaliações, a serem elaboradas por profissionais da área e com a intenção de conhecer profundamente o corpo pastoral e as igrejas. Seus resultados mais relevantes poderão divulgados visando à construção de um projeto coletivo, como acontece em instituições como universidades e grandes corporações.
Desvincular sistematicamente o concílio regional do processo de avaliação e nomeação pastoral para fortalecer sua vertente missionária e de pensar a igreja.

Episcopado e ministérios
Investir sistematicamente na educação e atualização dos pastores e pastoras da igreja. O nosso futuro está no passado do metodismo primitivo dialeticamente aplicado aos nossos tempos pós-modernidade.
Restauração do pressuposto do sacerdócio universal dos crentes, atuando na parceria entre grupos pequenos e ação ministerial dos dons, numa igreja, de fato, conciliar.
Ênfase na igreja como comunidade missionária, lugar e povo de serviço. Priorizar uma formação para além do culto, engajando-se na comunidade por meio de ações de evangelização, cuidado, ação social, políticas públicas, investimento na formação de jovens, educação e parcerias com escolas e poderes públicos.
Entender a equipe de SDs como alvo primeiro do processo de discipulado. Esse grupo deverá ser escolhido numa percepção dupla da sua relação com o gabinete episcopal e com as igrejas locais em cada distrito. Deverão, de igual modo ao gabinete, apresentar seu plano de ação, alvo, objetivos e formas de atuação, com os respectivos resultados anualmente.
Atuar, junto às Federações, em busca de um modelo de ação que preencha a atual necessidade das igrejas, sem engessar a missão, sempre com ampla discussão e debate nas bases. Investir nas Federações como elemento de aglutinação distrital para projetos de impacto nas cidades e movimentos missionários distritais e regionais.
Pensar os processos de emancipação de igrejas, implantação de novas igrejas e transformação dos campos distritais e regionais em Igrejas locais autônomas, com investimentos previstos no orçamento regional, a partir de parceria com as igrejas-pólo em cada distrito, SDs e gabinete episcopal.
Reestruturar as pastorais regionais para que consigam uma atuação mínima real possível, junto às diversas realidades, principalmente junto a crianças e jovens, pessoas em situação de risco, mulheres, grupos étnicos e outros.
Estabelecer formas de parcerias com outros grupos que trabalham o discipulado e com igrejas comprometidas com a missão de modo a agregar conhecimento, sem o risco da desagregação das igrejas locais, como hoje se vê, ou minimizando-a ao máximo sempre que possível por meio da efetiva ação pastoral de cuidado.

Discipulado e sacerdócio de todos os santos
Em minha prática pastoral, tenho crido que a igreja em pequenos grupos foi um fator de favorecimento do surgimento de novas lideranças e ministérios, com grande atuação dos leigos e leigas. Sei que existem modelos negativos de células e grupos, mas nossa história com John Wesley demonstra efetivamente o valor dos leigos e leigas na ministração da palavra, visitação, cuidado aos doentes e enfermos, sem clericalismo ou formalismo.
Gerar espaços de formação para os leigos, não apenas para a liderança dos pequenos grupos, mas também de ministérios específicos como pastorais urbanas, missões com grupos minoritários, direitos humanos, atuação carcerária.
Desenvolver parcerias com igrejas locais que realizam esse tipo de trabalho para ministração de workshops durante congressos de federações, concílios ou quaisquer reuniões do povo metodista, para divulgação e formação de novos agentes nessas áreas.
Restaurar espaços formativos de leigos e leigas para atuar nos diversos ministérios, por meio de parcerias com os distritos, com o fim de realizar eventos que abarquem o maior número de pessoas com menores distâncias. Essas celebrações servirão para unir o povo em projetos comuns, juntamente com a capacitação por meio de oficinas, cursos, trocas e intercâmbios entre distritos e igrejas locais que poderão oferecer seus dons.
Organismos regionais, como os institutos teológicos, ministérios de apoio a famílias pastorais, pessoas de referências poderão acolher em seus quadros pessoas indicadas pelas igrejas locais, com reconhecida atuação como membros, para formar um quadro de consultores, professores e afins para dinamizar e atualizar a Escola Dominical nas igrejas locais. Aliás, a ED precisa de um estudo profundo para responder à nova demanda de ensino, considerando a realidade das regiões e distritos.

Espaços voltados à arte, à reflexão, ao estudo são oportunidades desprezadas atualmente para forjar a identidade e o caráter metodistas em nossos membros. Oportunidades de contemplação, de adoração e louvor num culto racional podem ser incentivadas de diversas formas, desburocratizando em alguns casos e evitando o excesso de espiritualização em outros, pela formação de grupos distritais, com representação regional, para atuar em fomento, orientação e produção de materiais, sempre sob a supervisão teológica episcopal.

REVISÃO DE TEXTO COM PERSONALIDADE