Ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas (Mateus 26.31)

Durante muitos dias eu fiquei com este versículo na cabeça. Parece fácil compreendê-lo quando o lemos na boca de Jesus, numa aplicação prática do texto no exato momento em que está se preparando para a prisão e a morte. Mas quando voltamos a Zacarias, onde a referência aparece pela primeira vez, parece que dá um nó na cabeça e um aperto no coração da gente: “Levanta-te, ó espada, contra o meu pastor; contra o meu amigo e cooperador!”, declara Yahweh dos Exércitos. “Fere o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas; mas voltarei a minha mão aos pequenos” (Zacarias 13.7). O texto está falando de uma purificação futura. Zacarias vivencia o momento da consagração do novo templo e das reformas de Esdras, juntamente com Ageu. Talvez o texto seja uma denúncia de falsos líderes religiosos que agora são desmascarados, frente ao novo momento do povo e das promessas de restauração. Os comentários bíblicos não são concordantes quanto ao assunto. Mas isso segue me incomodando... a figura do pastor ferido... o que isso pode significar? Acho que sempre penso um pouco nisso em tempos em que pessoas deixam o ministério, em que pastores e pastoras abandonam sua vocação ou chegam ao extremo de tirar suas próprias vidas ou quando vejo as ovelhas dispersas, sofrendo pela falta de cuidado e amor de suas pretensas lideranças espirituais. O tema é muito complexo.
Comecei a pensar na minha vida e nos momentos em que senti-me ferida por diversas razões. Talvez unindo meus sentimentos e as leituras dos textos, possamos trazer uns pensamentos novos sobre nossa vida e ministério. Acho que posso falar em pelo menos três tipos de feridas: as feridas autoinfligidas, as feridas do exercício ministerial e as feridas por acidente. Acho melhor sempre começar por Jesus, porque Ele é o principal ponto em toda discussão cristã, certo?
As feridas do exercício ministerial: Jesus estava falando aos seus discípulos que sua consciência de trajetória lhe apontava o final iminente de seu ministério terreno. Nesta aplicação do texto de Isaías, ele estava alertando seus discípulos sobre este tempo de aparente abandono. Ele estaria morto e sem sua liderança o grupo se dispersaria. Foi mesmo o que ocorreu. Depois da ressurreição, Jesus precisa ir outra vez arrebanhá-los, assegurar o chamado e a vinda do Espírito Santo. Nesta jornada, o pastor ou pastora precisa desenvolver sua maturidade e entender o lugar dessas feridas na sua relação com a igreja. Outro dia, vi um atleta dando entrevistas na televisão. Eu estranhei as orelhas dele, muito grossas. Comentando sobre isso com meu marido, ele me falou que aquele homem havia sido lutador de MMA por muito tempo e que nesse tipo de esportes, a pessoa dá “calos” nas orelhas, por causa dos movimentos da luta que esfregam a cabeça no tatame. Fica feio, mas é inerente ao processo! Assim como bailarinas ficam com pés calejados, homens e mulheres da roça engrossam as mãos, motoristas herdam dor nas costas, o pastor ou a pastora vai trazer as marcas do seu ministério, nem sempre visíveis no corpo. Saber disso pode nos ajudar a tomar posturas profiláticas. Jesus tomou. Ele ia sozinho ao monte orar, ele pedia para que os discípulos intercedessem por ele na hora mais traumática, ele saía do meio da multidão para meditar sozinho. Eram instantes em que ele se permitia ser livre na presença de Deus, usufruir da intimidade do Senhor para curar seu interior sobrecarregado pelo peso de ver as ovelhas perdidas sem pastor e dispor-se ao trato delas. Haverá noites de insônia, haverá crises de ansiedade, haverá momentos de dúvida, haverá conflitos a solucionar. Mas as feridas ministeriais, assim como os calos nas orelhas do lutador ou nas mãos do homem da roça tornam o ministério mais sólido, mais firme, com mais vitórias contadas e mais experiência adquirida. Isso aconteceu com Jesus. Sabendo que seria um momento difícil, ele avisou seus discípulos e logo a seguir, ressuscitado, ele tinha os meios para chamá-los de volta. Não se ressinta das dificuldades ministeriais, nem as oculte. Reconheça-as e se mova para que elas possam se tornar calos e não feridas que não se curam.
As feridas por acidente: Haverá coisas no ministério pastoral que são inesperadas. Uma pessoa que não combina com nossas ideias. Um amigo que de repente se revolta contra nós e nos deixa. Uma palavra ofensiva dada por alguém num momento de ira. A falta de resposta a uma convocação para um desafio à igreja. São feridas por acidente. Normalmente, quando eu corto a mão fazendo comida, a tendência é jogar a faca longe. Não estava esperando por aquele corte. Foi súbito e assustador. Mas eu já aprendi que isso pode acontecer, então, depois de uma lavadinha pra ver o tamanho do problema, talvez uma chupadinha vampiresca no dedo cortado, uma reclamação básica (que ninguém é de ferro), o jeito é pegar a faca de novo e acabar de preparar o prato, porque a fome não tarda. No ministério não é diferente. Sempre estamos prontos e prontas a achar que a pessoa que discorda de nós é rebelde e deve ser afastada. No entanto, os discordantes podem ser pessoas a nos trazer pontos de vista novos sobre coisas que sempre resolvemos daquele jeito. Elas nos ensinam sobre humildade e aprendizado. Elas podem querer apenas partilhar seus pontos de vista, como você tem os seus. É claro que existem pessoas más. E corremos o risco de estar entre elas! Sempre pressupomos que os outros e outras são os errados. Será? As feridas por acidente nos lembram nossa humanidade. Elas nos despertam ao autocuidado. A não seguir adiante sem lavar o ferimento, perceber sua extensão e ver se ele precisa de um tempo maior de terapia. Cuide de seu coração sobre as pessoas que lhe magoaram. Não siga adiante sem a coragem de entender exatamente o que as levou a isso. Considere que as outras pessoas também sofrem acidentes e carregam feridas e que talvez você só tenha topado com elas e elas sentem a dor! Do mesmo jeito, se isso acontecer com você, reconheça e retorne. Quando um pastor ou pastora está ferido, seu rebanho se dispersa, se distrai, não sabe o que fazer. Se você compartilha a ferida, ele se acalma e aguarda até que você esteja pronto. Se você oculta as feridas, ele se ressente e poderá ser perdido para sempre.
As feridas autoinflingidas: Acredito que, de todas as feridas, essas sejam as piores. Feridas autoinflingidas significam que um problema grave está acontecendo no seu interior. Conheci uma jovem que arrancava e comia os próprios cabelos. Ela precisou de uma cirurgia para retirar os cabelos do estômago. Aquela atitude era resultado de uma dor profunda, de um sentimento de rejeição. Não adiantava mesmo cuidar do exterior sem tratar a alma. Só assim o problema pode ser superado. Mas até que isso acontecesse, muita tristeza, dor e incompreensão. A pior doença autoinflingida de um pastor ou pastora podem ser seus pecados ocultos. É uma autossabotagem ministerial. Você se esforça, trabalha, quer mostrar que faz muita coisa, mas não tem coragem de delegar, de enviar, de viver em profundidade com seus líderes, porque eles podem descobrir... esse receio consome sua alma. Esses pecados não precisam ser coisas escandalosas. Às vezes o medo de assumir uma incompetência ou dificuldade numa área. Às vezes, o sentimento de orgulho e desejo por controle. Às vezes, dúvidas espirituais que você não trata. Mas as feridas autoinflingidas são perigosas porque começam por acaso e se tornam verdadeiras doenças. A pessoa que rói as unhas não deseja fazê-lo. Mas faz, até que os dedos sangrem e uma infecção ache entrada no organismo... o pecado não é diferente.
Eu acredito que o pastor de Zacarias estava sofrendo desse último tipo de ferida. A ferida que resulta do pecado. Ela dispersa as ovelhas de um modo que pode se tornar impossível reuni-las novamente. É triste que Deus diga em Zacarias que este é “meu pastor, meu colaborador”. Deus não estava falando de pessoas assumidamente fraudulentas, falsas, mas de alguém que havia começado com ele e agora estava se afastando do chamado inicial. Ou seja, pessoas como eu e você. Gente normal, com chamados normais, de repente envolvida pela podridão de uma ferida que não sara. Uma ferida que começou por algo que não devia estar na nossa vida e que nós mesmos trouxemos para nós. Analise hoje mesmo sua vida. Trate cada uma das feridas com o tratamento adequado. Algumas podem ser evitadas. Outras precisam ser enfrentadas. Para outras ainda, é preciso chamar uma equipe de enfermagem amiga, ouvinte, atenta e discipuladora. Para algumas, é preciso dar o tempo certo da cura.
De qualquer modo, precisamos nos cuidar. As ovelhas precisam de um pastorado firme, motivador, humano, incentivador. As ovelhas merecem bons pastores e pastoras. Na verdade, precisam. Jesus foi o bom pastor e ele é nosso modelo por excelência. Se ele precisou de tempo para si, quanto mais nós! Se ele teve dúvidas, clamou ao Pai para passar o cálice, pediu por força na jornada e chamou amigos para perto, por que não nós?

Comentários

  1. Certa vez ouvi a seguinte afirmação: "A instituição é impessoal". Existem as feridas ocasionadas pela instituição. Acredito que o Reino de Deus é o fim e não a instituição...portanto muitos pastores e pastoras bem como seus familiares precisam de cura.

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  2. Muito apropriado e bem vindo esse texto no contexto em que vivemos. Obrigada

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