Um corpo que sente - Salmo 73

Dizem que muitas doenças que temos são psicossomáticas. A etimologia dessa palavra é interessante. Ela vem de psique – traduzida no senso comum por alma, mas que indica vontade, desejo, o íntimo do ser – e soma, que tem a ver com o aspecto físico do ser, a matéria, o corpo. Assim, aquilo que a pessoa sente se projeta no seu corpo de modo concreto, fazendo-o adoecer. São doenças psicossomáticas a gastrite, a úlcera, a enxaqueca e até mesmo alguns tipos de câncer, dizem os entendidos!
Antes desse entendimento moderno sobre as relações entre as emoções e o corpo, porém, os povos bíblicos já se utilizavam de partes do corpo para explicar os processos emocionais e mentais. Tinham uma clara compreensão da relação entre a emoção e o físico. Não dá para separar a totalidade do nosso ser das emoções que expressamos.

Coração limpo (v.1)
Em nossa cultura, o coração está ligado aos sentimentos. Mas para o povo hebreu, esse órgão tinha outras funções. A racionalidade que hoje atribuímos ao cérebro era a característica mais marcante do “coração” para o povo bíblico. Ele não era somente indispensável, por suas funções biológicas, mas a fonte da moral, da ética, dos valores mais elevados, tanto nos aspectos físicos quando espirituais. Vejamos Jeremias 31.33: “Eu pus minha lei nas suas entranhas e eu as escrevi sobre seus corações”. Com o coração, o povo de Deus definia a inteligência, a reflexão, a meditação, a racionalidade: “Que as palavras da minha boca e a meditação do meu coração sejam agradáveis a ti, Senhor, rocha minha e redentor meu”, disse o salmista.
Segundo Asafe, Deus ama os limpos de coração. Não aqueles que sentem boas coisas, mas as pessoas conduzidas racionalmente por valores corretos e justos aos olhos do Senhor. Por isso é que a Bíblia muitas vezes afirma que o coração humano é enganoso. Não pelo que ele “sente”, mas pelo caráter da pessoa que ele designa.
A palavra “leb”, que designa coração em hebraico, é muito importante. Ela e suas variantes aparecem 858 vezes no Antigo Testamento, referindo-se 814 vezes ao “coração” humano. Do mesmo modo, outras palavras mencionadas neste salmo vão nos mostrar como o próprio corpo demonstra as emoções e disposições da pessoa, no todo da sua vida e diante de Deus também. Senão, vejamos:

Por pouco me resvalaram os pés e me desviaram os passos (v.2)
Na Bíblia, muitas vezes a referência a pés, caminho, passos, veredas e palavras similares a essa designam o reto proceder, um senso de direção na vida, propósitos e alvos da pessoa. Quando se caminha com firmeza, significa que a pessoa está no controle da situação. Deus firma os pés daquele que não tem convicção do que está fazendo, devido à sua muita tristeza ou aflição (Salmo 40, Habacuque 3). Se o coração (mente, razão) está firme, então os passos (postura, modo de agir) não vacilam.
As convicções do salmista foram abaladas e isso reflete na maneira como ele age e conduz suas ações. Isso é um exemplo para nós do processo que Tiago, já no Novo Testamento, fala a respeito da concepção do pecado: os olhos (fonte do desejo) vêem; o coração (mente e razão) absorve e engendra e o corpo todo age conforme essa disposição, transformando o pecado em algo concreto, tangível e, portanto, efetivado (Tiago 1.15). É por isso que um coração puro pode levar a pessoa a uma vida inteira de virtude. Se a sede da racionalidade, da motivação, dos valores é pura, então todo o corpo sentirá e agirá de modo coerente a essa disposição.

Lavei as mãos na inocência (v.13)
Em diversos textos bíblicos, o uso do termo “mãos” indica as ações concretas que a pessoa tem. Lavar as mãos na inocência é agir de modo livre de culpa, a pessoa pratica coisas que sabe serem as mais justas, honestas. Se os pés indicam a retidão do caráter, a postura mesma da pessoa, as mãos significam suas ações, aquilo que ela efetivamente realiza. Frequentemente, temos esse tipo de leitura no mundo do Antigo Testamento. Toma-se uma parte da pessoa pelo seu todo: pés, mãos, coração, rins indicam não apenas partes biológicas, mas partes espirituais, morais, éticas e emocionais do ser humano.

Minhas entranhas se comoveram (v.21)
Algumas traduções usam aqui a palavra “rins”. Elas significam o centro emocional da pessoa, os aspectos psicológicos do ser. Equivalem ao coração no sentido em que o usamos em nossa cultura. É interessante pensar na relação feita pelo povo bíblico, uma vez que este é o órgão que filtra as impurezas do ser. Se ele não funciona adequadamente, todo o corpo pode se infeccionar e morrer. Se as emoções não são saradas, elas podem determinar o fim de nossas racionalizações (coração), de nosso caráter (pés) e de nossas ações (mãos).

Um corpo que sente
Existem muitas outras partes do corpo usadas figurativamente na Bíblia para falar do todo do ser, mas vamos ficar por aqui. Muita gente às vezes “psicologiza” demais (com todo o respeito a essa importante área do conhecimento humano), e termina, em certa medida, por desprezar algo que na Bíblia é muito importante: o todo do ser. Quem se fragmenta demais, perde a si mesmo no caminho. Temos supervalorizado nossos desejos e emoções a tal ponto que destruímos nossos corpos. Não é o que acontece quando nos entregamos à promiscuidade sexual, ao uso indevido de drogas, às bebidas, às paixões avassaladoras? Quanta gente, ao final desses processos, está com o corpo totalmente estragado porque não soube conduzir suas emoções? Basta dar uma olhada nas “celebridades” de nosso tempo. Tanto valorizam a busca dos sentimentos que se esquecem e deterioram seu corpo. É importante recuperar esse sentido para nossos dias.
O próprio salmista, ao olhar os maus, desejar ser como eles e frustrar-se com suas próprias posturas, fala de como seu corpo sentiu todo o processo: fraqueza (v.2); cólicas (v.21) e uma fala geral que lembra um processo depressivo, pois é feita em tom de desânimo e entrega.
Talvez devamos resgatar hoje a comparação hebraica e ver as emoções pelo prisma dos rins. Filtrá-las, limpá-las, extrair o que sustenta e jogar fora o que não presta. Emoções boas e límpidas nos encaminham à realização. Emoções negativas infeccionam o ser e levam à morte, em qualquer sentido que seja. Os rins nos ensinam que é preciso encarar os sentimentos e realizar o devido processo de limpeza, que nos permitirá extrair apenas o melhor. Usando seus rins no santuário de Deus, purificando seus sentimentos na meditação na Palavra, o salmista alcançou a verdadeira esperança. Caso algo acontecesse ao seu corpo (v.26), seu interior estaria revigorado pela presença de Deus. Quando as emoções vão bem, o corpo se renova. Quando vão mal, o corpo se entrega. Talvez se possa explicar bem isso em termos científicos. Mas a experiência do povo de Deus já nos mostrou, na prática, que é preciso e possível, com a força de Deus, ter uma ‘mente sã’ num ‘corpo são’...

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