As parteiras: exemplo de compromisso e obediência no discipulado

Discipulado é uma palavra que traz em seu cerne a idéia da adesão, do compromisso. Quando penso nisso, sempre me lembro de uma história que meu pai contou. Ele perguntava: “Num jogo de futebol, quem está realmente comprometido? Jogadores, técnico, juiz? Não. Todos estão envolvidos com o jogo. Comprometido está o boi, que deu o seu couro para fazer a bola.” Na vida da Igreja, há muitas pessoas envolvidas. Elas participam, integram, se alegram. Mas na hora de “dar o couro” pela mensagem do Evangelho, muitos se acovardam, abandonam a partida. O discipulado não é algo que assumimos apenas quando as condições dadas são favoráveis. Um genuíno compromisso dura enquanto seu valor permanece essencial para a pessoa que o assumiu. Quando se trata de seguir a Cristo, esse compromisso precisa ser renovado e reassumido a todo tempo, pela vida toda.

As parteiras do Egito

As mulheres de Êxodo 2.15-22 são anônimas. Certamente naquele tempo não havia apenas duas parteiras para um país inteiro. O texto bíblico, na verdade, faz um elogio quando chama duas, dentre muitas, de Sifrá e Puá, que significam, respectivamente, beleza e esplendor. São títulos que enfatizam seu ato de coragem.
O faraó, preocupado com a força potencial do povo hebreu, manda matar os meninos. “Mulheres são frágeis, não constituem ameaça. Podem viver”. Assim pensava ele, temendo apenas o físico e o bélico. Mas as mulheres resistem, baseadas em astúcia e inteligência. Não com armas, mas com estratagemas. Com despistes, para que Faraó não veja a vida poupada de propósito. Mas agora, não vou falar nesta perspectiva. Quero trabalhar o compromisso dessas parteiras para com a natureza essencial do seu trabalho.

Preservar e garantir a vida
Qual a função essencial de uma parteira? Trazer crianças ao mundo de forma segura e saudável, tanto para elas quanto para suas mães. A ordem do Faraó, portanto, vai contra o que lhes é mais elementar. Onde a vida nasce, ele pede que haja morte. É como pedir a um médico que deixe o paciente morrer. Ou a um pastor que abandone suas ovelhas. Ou a um atleta que deixe de fazer exercícios. Isso não pode ser feito sem que algo muito interior seja negado, sem afetar definitivamente o caráter da pessoa.
De igual modo, uma igreja que negue justiça, amor, alimento, vestuário, cuidados elementares, físicos e emocionais às pessoas que dela necessitam está traindo a natureza essencial de seu ministério. Mulheres que se colocam à margem em suas comunidades de fé quando poderiam colaborar ativamente, estão negando a natureza essencial de seu ministério. Estão dando ao Faraó (que acima de tudo, na Bíblia, é a figura da opressão, da tirania, do sofrimento e da morte), a munição de que ele necessita para destruir a vida.

Coragem para comprometer-se
As parteiras adotam uma estratégia para manter a vida. Com isso, assumem o risco de perder as suas próprias. Estão diante de uma ameaça mortal, porque o poder do Faraó é verdadeiro e fatal.
Ao nosso redor impera a lei da morte. Há pessoas sofrendo, crianças abandonadas, mulheres oprimidas e violentadas de todas as formas, famílias  abaladas por falta de recursos financeiros para manter-se... O faraó está à solta, pois ele é, para nós, todo sistema anti-vida que possa existir. Jesus disse: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (João 10.10). Ele também disse: “assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Se o ministério de Jesus é dar vida, isso significa que o nosso também tem que ser.
Compromisso é essencial. Na Igreja, muitas cisões ocorrem porque as pessoas têm compromisso apenas consigo mesmas, com seus próprios interesses e posições. Os grandes reformadores, os verdadeiros, como Lutero e Wesley, viram os equívocos de suas igrejas; lutaram para mudar. Eles podem ter sido até empurrados para fora no calor do momento histórico. Mas tinham clareza de não querer uma nova igreja para si mesmos. Eles queriam “reformar”, não destruir, separar.
Nossa igreja não é perfeita. Por isso mesmo, precisa de nós, que também somos imperfeitas, mas que estamos abertas ao agir de Deus. A vida está na unidade. Foi o que as parteiras fizeram: elas não enfrentaram a luta com as mesmas estratégias de morte que o Faraó queria. Apenas mantiveram a fidelidade ao seu chamado: preservaram a vida, apesar das conseqüências. Elas temeram a Deus mais do que temeram o Faraó.

Para reflexão:
  1. Que ministério você desenvolve na Igreja?
  2. Como você definiria a natureza essencial dele?
  3. Você tem sido fiel a essa natureza enquanto exerce seu ministério?
  4. O texto bíblico diz que Deus concedeu família às parteiras. Preservando a família dos outros, elas receberam a mesma recompensa, tendo as suas próprias. De que maneiras você, mulher, se sente abençoada em seu ministério? Como seu trabalho para Deus repercute em sua alegria e realização interior?

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