Para refletir sobre o lugar da mulher no ministério - e na vida

Recebi de um pastor, amigo meu, o testemunho abaixo. Em tempos de pré-concílio, há inegáveis burburinhos em torno da eleição episcopal que me dizem que a história abaixo deve ser motivo de reflexão, por parte de homens, mas, especialmente de mulheres. 

Latasha era uma jovem senhora cristã congolesa que foi chamada pelo Senhor para ser pastora da Igreja Pentecostal Graça Celestial. Seu esposo também era um jovem cristão. Em sua primeira igreja, na cidade distante de Aba, a igreja percebeu que Latasha era esforçada e ungida para o ministério pastoral, mas seu marido, Lumumba, era quem mais lhe dava trabalho. Além de ciumento, ele era infeliz por sua esposa ser a pastora e ele, não. Agia como se isso não fosse problema, mas todos percebiam que ele era um marido que desdenhava sua esposa e um tanto quanto sabotador do ministério dela.
Nas outras duas igrejas por onde Latasha passou como pastora, a mesma coisa acontecia. Seu marido não era bênção, alguém que acrescentava, mas limitava e danificava o ministério da esposa.
Latasha queria realmente servir a Deus e, para ser aceita na sua denominação e na sua igreja local, diminuiu-se o quanto pôde para dar conta do pastorado e do casamento. Mas seu ministério, por causa da imaturidade do esposo, estava fadato a ser medíocre, pois Lumumba acabava agindo de modo inconveniente e prejudicando a confiança da igreja no seu ministério.
Ela confronta o marido e o desafia a mudar de atitude.  Até que, um dia, ela diz que não gostaria mais de ser a esposa dele. Ele grita que a cultura de seu país diz que ele é o dono dela e que ela não tem escolha. Ela se muda para Oyo e ali trabalha para abrir uma igreja de sua denominação.
Lumumba fica sabendo e diz secretamente para as pessoas ao seu redor que Latasha o havia traído com um outro homem da Congregação. Infelizmente, a fofoca se espalhou e chegou tanto aos ouvidos da liderança da Igreja Pentecostal Graça Celestial quanto na pequena congregação que ela reunia em Oyo.  Como a palavra de um homem no Congo vale mais que a de mulher, quanto mais Latasha se defendia, mais desconfiança gerava.  Em cultura machista, a mulher precisa de um homem para defendê-la e protegê-la.
O presidente da Igreja afastou Latasha do ministério pastoral. Diferentemente do que acontecia com maridos que largavam suas esposas, Latasha não foi mais reconhecida como pastora. Um ministério pastoral brilhante e cheio de unção foi encerrado não por causa de um mal casamento, mas por causa de um mal casamento que acabou por decisão de uma mulher.
 Há um tempo atrás ouvi de alguém que eu poderia ser uma boa candidada ao episcopado, porque a pessoa tinha certeza de que eu não me separaria do meu marido...  Agradeço imensamente a confiança no meu casamento, mas nem nós dois podemos afirmar com certeza absoluta que isso nunca irá acontecer. Apenas esperamos no Senhor e cremos por fé que nosso amor é abençoado por Deus e pode se renovar no decorrer dos anos. Ainda bem que podemos ter esta esperança, pois muitos homens e mulheres sofridos e mal-amados não a têm e por isso, a contragosto de seus desejos pessoais, acabam se separando. Ninguém o faz porque simplemente quer, a não ser que seja leviano. As pessoas passam por muitos momentos difíceis e são obrigadas a decisões igualmente difíceis e dolorosas. Ao invés de moralismos estúpidos, deveria haver honesto acolhimento e perdão, como o Mestre nos ensinou.
Mas, de fato, isso nem vem ao caso. Ninguém pode ser medido em seu exercício ministerial mais amplo por causa de uma única coisa com a qual não conseguiu lidar. Ou então, que não sejamos parciais. Se todas as denúncias e histórias que ouvimos acerca de relacionamentos conjugais fossem levadas a efeito, todos sabemos onde iria dar - poucos sobrariam - e haveria muitos homens de fora. Há histórias bizarras rondando... Pelo menos deveriam nos pôr para pensar...
Não me interessa saber as razões pelas quais, infelizmente, nossa episcopisa e seu esposo não puderam prosseguir juntos. Como eles, há outros casos que nos entristecem, porque sonhamos em ser felizes e sabemos que deve ser muito difícil escolher outro caminho. Porém, isso não vem ao caso, como já disse. Quero levantar outra questão, que me parece mais pertinente. E quero falar às mulheres cristãs, em seus ministérios e igrejas locais. Peço licença para entrar em temas polêmicos, pois quem me conhece sabe que não gosto de enfrentamentos levianos. Quando falo sobre alguma coisa complicada, é porque o tema já não consegue mais me calar. Estou triste, muito triste, com as palavras que estão vindo ao vento por aí. Antes que seja tarde, então, eu vou falar. Mesmo que discordem, peço que reflitam. É tempo de falar com amor e franqueza, é tempo de refletir e amadurecer.
Tenho dito que me preocupa muito o fato de que mulheres estão se levantando contra mulheres com questiúnculas estúpidas e ciúmes infantis. Eu me ressinto de que não defendamos umas às outras com amor e dedicação, reconhecendo o quanto trabalhamos e o quanto somos importantes. Para eleger uma mulher ao episcopado metodista, foi uma luta e tanto... Não podemos perder de vista o quanto ela tem desempenhado em suas tarefas. Se for feita uma avaliação de seu ministério e este for inadequado, tudo bem. Então que se avaliem, usando os mesmos critérios, todos os homens que lá estão. Seja avaliada a pessoa no exercício do episcopado e o episcopado que exerce. Não seja avaliada a mulher divorciada. Isso é infantil, bizarro e cruel. Contraditório ao evangelho e infrutífero para o Reino. E que não sejamos, nós, mulheres, a fazer isso. É indigno da grandiosidade do nosso chamado. Devemos ter o cuidado de cuidar bem da casa de Deus. Há Latashas em Congo. Há Latashas aqui. E não se iludam. Não são poucas...


Comentários

  1. Parabéns pelas palavras, creio que devamos refletir e nos posicionar coerentemente em relação a esta questão.

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  2. Parabéns, Hideide! Vc disse o necessário, de maneira clara, sem rodeios! Que Deus abençõe sua vida e ministério!

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  3. Eu espero que as Sociedade Locais, as Federações e a Confederação levantem essa bandeira a fim de que a injustiça no seio da igreja não seja cometida mais uma vez.
    Mais que isso: que elas reclamem a eleição de umas três bispas. Quem sabe assim elas não consigam humanizar mais as relações do insano poder que se instalou em nossa igreja.
    Eu particularmente vejo que o problema não está em quem vai ser eleito ou eleita. O problema reside no fato de que as regras do jogo acontecem nos corredores escuros e obtusos da igreja.
    Kirie Elleison

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  4. Hileide, palavras e atitudes como as suas é que fazem a diferença. Quero somar e solidarizar-me a restauração de uma ordem igualitária que devolva a dignidade a todos(as) as(os) excluidos(as) e marginalizados(as) pelos atos de politicagem.
    Rev. Dimorvan Trelha
    2 R.E

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