Comunicação: uma necessidade humana e divina

Texto bíblico motivador: Salmo 19

Introdução
É interessante que o texto bíblico se inicie apresentando as primeiras palavras pronunciadas por Deus no contexto da criação: “Haja luz!” (Gn 1.3). O autor desta narrativa nos informa, desta forma, que há um potencial criativo na palavra. O evangelista João reforça este conceito quando retoma a criação do mundo para inserir nela Jesus, o verbo – o que faz a ação acontecer (Jo 1). E o Salmo 19 apresenta o próprio universo como um “merchandising” de Deus, em sua intenção comunicativa para conosco: os céus proclamam, o firmamento anuncia, um dia faz discurso, uma noite revela conhecimento. A comunicação é tão eficiente que, embora não haja palavras, nem sons, “por toda a terra” a mensagem é ouvida!
A palavra comunicação vem do latim comunicatio e traz uma noção de “reunião”, uma atividade que tem como objetivo pôr fim ao isolamento, proporcionar uma relação ou uma atividade em comum. Toda a natureza está em comunicação e, por isso, hoje se pesquisa com grande interesse todas essas formas, desde os desenhos feitos pelos homens das cavernas até os artifícios rudimentares com que os animais se comunicam.
Algumas origens da comunicação: exemplos bíblicos
É bem difícil buscar a origem da comunicação em termos históricos. Podemos observar que, antes de uma linguagem escrita, regulada por símbolos (alfabetos, hieróglifos, etc.), os seres humanos usavam os sons, a expressão oral, os desenhos e rabiscos. Em termos de escrita, os documentos mais antigos encontram-se entre os sumérios. Há registros chineses antiguíssimos e muitas línguas escritas sequer foram decifradas ainda, pois deixaram de ser usadas ainda na Antiguidade.
A própria Bíblia é rica em formas de expressão que até poderiam ser chamadas hoje de estratégias de marketing. Em Habacuque 2.2, o profeta recebe de Deus a instrução para fazer um outdoor: usando tábuas de madeira, com letras grandes, para que as pessoas passassem e pudessem ler rapidamente! Mateus 10.27 fala da proclamação feita a partir do eirado (parte de cima da casa) – quer um palco melhor? Existe até um pregador famoso de televisão que afirma ser o texto bíblico uma predição sobre a antena de tevê (mas aí já é demais, né?).
Quando a comunicação se dava na base da oralidade, as poesias foram um recurso de memória e divulgação de informações muito utilizado por quase todos os povos. Na tradução bíblica, por exemplo, perdemos um pouco da riqueza, mas nos originais é possível perceber que os oráculos (pregações) dos profetas, como os Salmos, eram em forma de poesia e continham rimas. E uma vez apreendido, ninguém mais rouba este conhecimento. Faça um teste e complete os versinhos: “Batatinha quando nasce...” Você se lembra quando foi que aprendeu isso? Pois é, mas nunca mais vai esquecer!
Pode não parecer à primeira vista, mas as parábolas são uma estratégia comunicacional das mais eficientes e foram usadas com maestria não apenas por Jesus, mas por diversos mestres da Antiguidade. De fato, eu sempre digo às pessoas que elas não são capazes de lembrar o sermão do domingo passado, mas certamente se recordam da ilustração contada pelo pregador. Historietas, fábulas, parábolas e comparações são muito mais fáceis de guardar.
As cartas foram o recurso de comunicação mais utilizado nos tempos do Novo Testamento, unindo as comunidades, orientando doutrinariamente, dando um caráter único ao movimento de Jesus. Paulo foi um estrategista de cartas por excelência, inclusive orientando na troca de correspondências para melhor aprendizado (Cl 4.16). Mas há uma série de cartas antigas que são importantíssimas para compreender a história de muitos povos.
Houve figuras muito importantes neste processo de guarda e transmissão dos textos, não apenas os sagrados, mas aqueles que fornecem toda uma gama de informações sobre os povos antigos. Logo o ser humano percebeu a riqueza de tudo isso. Os escribas são figuras presentes em muitas culturas. Eles escreviam histórias, crônicas, eventos dos palácios, ditos da sabedoria popular, decretos reais... Também temos os músicos, que guardam os relatos de amor, de religião, de cultura popular... E não podemos esquecer os artistas: artífices, ourives, pintores, escultores, bordadeiras, etc. Todas as formas de arte visam à comunicação, seja da fé de um povo, seja de seus valores culturais, ou as emoções de um indivíduo ou grupo. São retratos de sua época. Desta forma, podemos aprender sobre o passado observando suas formas de comunicar-se.
A comunicação hoje
Nunca se falou tanto em comunicação, porém, como nos dias atuais. Temos redes sociais, computadores, celulares, Ipods, jornais, revistas, televisão, satélites e um sem-fim de possibilidades, convivendo ao lado de livros, cartas, manuscritos e as formas de arte da contemporaneidade. A quantidade de informações que se lê num dia hoje equivale, segundo alguns pesquisadores, a cerca de um ano na vida de um homem da Idade Média. Resta saber se isso melhora ou piora nossa vida, não é verdade?
É preciso, portanto, refletir sobre o velho paradoxo: quantidade versus qualidade. Somente pelo fato de termos acesso a uma série de informações, isso não significa que estamos melhorando nosso potencial. A revista Galileu trouxe uma reportagem de capa, no ano de 2010, abordando o fato de que o uso da internet tem tornado as pessoas mais burras. A quantidade de informações é tão grande que não há processamento delas e, consequentemente, as pessoas não retêm conhecimento e não ampliam seus saberes. Tornam-se escravas do “copiar-colar”...
Voltamos ao problema de Oséias: o povo perece pela falta de conhecimento, mesmo tendo à sua disposição todo um aparato para alcançá-lo. E, muitas vezes, o conhecimento adquirido tem sido usado de modo negativo, prejudicial. Por outro lado, as pessoas têm a oportunidade de se conectar a outras, ao redor do mundo, instantaneamente e partilhar experiências para  o bem-comum, superar a solidão e o isolamento, reencontrar vínculos perdidos.
Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes
Como dissemos no início deste estudo, a comunicação é uma necessidade tanto humana quanto divina. A realidade da Bíblia em nossas mãos nos fala o quanto o Senhor deseja estabelecer um relacionamento conosco e partilhar de sua vida. Veja alguns versículos que confirmam esta disposição:
1.      Amós 3.7
2.      Salmo 25.14
3.      João 15.15
4.      Êxodo 33.11
5.      Tiago 2.23
Para refletir
Se o objetivo da comunicação, como se pode perceber na etimologia do termo, é estabelecer algo em comum e romper com o isolamento, podemos dizer que as ferramentas podem facilitá-la e ampliá-la, mas é o conteúdo que vai cumprir este propósito. Não basta ter com que dizer: é preciso ter o que dizer. Vale refletir sobre o alerta de Jesus: “A boca fala do que está cheio o coração”  - como Igreja do Senhor, temos o desafio de proclamar as boas novas. As ferramentas estão aí. Como usá-las de modo a transmitir com fidelidade o conteúdo?

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