Deus, o criador e sustentador da vida (Salmo 104)

Gosto muito de poesia. Acho que a maioria das pessoas que, como eu, gostam de escrever e de ler, reconhece de imediato o valor da poesia, das rimas e metáforas usadas para descrever coisas que, de outra forma, não se poderiam mostrar tão belas. Quero dizer, a poesia parece ser um retrato em forma de palavras. Sua capacidade descritiva é capaz de encher nossos olhos de imagens que não estão ali. Com a vantagem de trazer os sentimentos, as sensações, os gostos, os cheiros... que uma simples foto não consegue mostrar.
É assim que me sinto quando leio o Salmo 104. Ele parece um desses dias claros de sol, depois de ter caído uma chuvinha à noite, quando a gente abre a janela e sente o ar friozinho da manhã. E a natureza parece ter se banhado, limpando suas cores. Para mim, o Salmo 104 deveria ser uma espécie de Salmo de ano-novo.
Digo isso por causa de uma perolazinha que ele traz, lá no versículo 30: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados, e renovas a face da terra”. Mas, antes de chegar lá, o salmista pinta para nós um retrato do Deus que criou, sustenta e renova nossa vida a cada dia, a cada ano...

Como tu és bonito!
O salmista começa dando uma ordem a si mesmo: “Bendize ao Senhor, ó minha alma!” Sabemos que “alma” no sentido do hebraico é a existência toda, o ser em si, sua capacidade criativa e emotiva, psicológica e física, integral enfim. Assim, ao menos a cada ano que começa, deveríamos bendizer ao Senhor.
A palavra “bendizer” traz o sentido da fala que elogia, exalta, reconhece as potencialidades. Recentemente, entrei em uma livraria e o dono logo me reconheceu como a pastora metodista da cidade. Ele me veio com um calhamaço, do tamanho de uma Bíblia de estudos, e me disse: “Desse, a senhora vai gostar (a bem da verdade, me chamar de senhora sempre me gera um frio na espinha...)”. Olhei o livro e era de um cientista americano que afirma que Deus é a causa de todos os males da humanidade, e que, se as religiões acabassem, tudo ficaria bem. Olhei para o dono da livraria com certa pena. Ando querendo ouvir belezas, não estou com tempo para controvérsias sem fundamento. Já tentaram matar Deus antes – o problema (para essas pessoas) é que Ele insiste em continuar vivo... Teve até uma vez que ficou três dias enterrado, mas... você já sabe!
Mas os servos de Deus não têm tempo para essas discussões fúteis. Estão trabalhando, amando, vivendo fielmente. Estão bendizendo. Estão contemplando. Olhando para Deus. Para além das máscaras de nossa religiosidade ou entendimento pessoal, Deus Se revela lindo em todas as coisas lindas e boas que criou. O salmista sabia disso. Ele olha para Deus, refletido nas coisas criadas, retratado na criação, sintonizado com os sons da natureza... e dá um suspiro de felicidade: “Deus, como tu és lindo! Estás vestido de esplendor e de majestade... Só tu podes usar a luz como um manto e fazer do céu uma grande tenda. Só tu podes ter tua morada fincada sobre as águas... Parece até uma daquelas imagens que a gente vê nos filmes de mitologia: Deus cavalgando no céu em uma carruagem de nuvens, puxada pelo vento...
Bela poesia a gente imaginar Deus. Nós, protestantes em particular, não somos muito bons em visualizar, mas precisamos desse exercício para ter a mente mais sensível às falas de Deus que não são meramente intelectuais, racionais, discursivas. Deus também ensina no gosto, no tato, na visão, na audição... O salmista sabe disso. E fala da beleza de Deus que vê: as águas (v.6), os montes, os vales (v.8), os animais (v.11,12,17,18,20-22; 24-30), os seres humanos (v.14, 23). Fala também da beleza de Deus que ele ouve: o trovão (v.7), as aves (v.12), os leões (v.21). As belezas que pode tocar também não faltam: as plantas cultivadas pela mão do ser humano (v.14). E, é claro, as delícias do paladar: vinho, azeite e pão (v.15).
Todas essas coisas, em seu conjunto, mostram a beleza de Deus, de Seu caráter, de Seus intentos, de Sua mente criativa. Tudo o que Deus faz tem contornos, cheiros, gostos, texturas e está por toda a parte. O salmista menciona a terra, o céu, o mar, o campo, o firmamento, a floresta... beleza em todo o lugar. Capaz de vê-la e de nela reconhecer a ação e a manifestação de Deus, ele bendiz. E bendizer é fazer a vida mais bonita, é cantar a canção da vida, renová-la, recomeçar.

Renovas a face da terra (v.30)
O sopro de Deus é a expressão bíblica para o “fôlego da vida”. Deus soprou nas narinas dos primeiros seres e eles se tornaram “viventes”. A imagem do sopro, do vento, da brisa é usada em toda a Bíblia para falar da presença animadora do Espírito de Deus. A dependência da criação em relação a Deus é manifesta nos versículos 27 a 30. Deus é quem sustenta a criação. A retirada do fôlego divino significa a morte (v.29). É uma grande expressão de fé e esperança essa. A razão de não sermos destruídos, muito embora o mereçamos em função de nosso pecado e arrogância contra Deus, é que Ele deseja renovar Sua criação! Deus insiste em soprar vida em meio a nossas queimadas, usinas, bombas nucleares, efeito estufa, aquecimento global, derramamento de óleo, guerras absurdas. Deus insiste em fazer Seu sol e Sua lua trabalharem em favor de nosso planeta, mesmo que nós, seres humanos, estejamos maldizendo ao invés de bendizer. Esse é o milagre maior da renovação da vida: ela não é um desejo humano, mas uma iniciativa divina! Cada ano-novo é, portanto, graça – favor imerecido.

Possa Ele sempre se alegra com o que criou
Esta é a tradução da Bíblia Sêfer para o versículo 31. Eu penso ser um bom desejo para a renovação da vida neste início de 2008. Talvez Deus não tenha tantos motivos para se alegrar, é verdade. Talvez você também não tenha. Talvez o ano-novo esteja começando com velhos problemas, velhas angústias, velhas dúvidas. Talvez com novos desafios, novas dificuldades... Mas não se deixe abater, porque Deus não Se deixa. Ele é teimosamente amoroso, energicamente terno, profundamente suave. Ele não desiste de renovar Sua criação. E jamais perde as esperanças em nós. Por que o faríamos em relação a Ele? Sejamos nós as pessoas que vamos fazer esse desejo do salmista se cumprir. Que a minha vida e a sua alegrem a Deus. Como faremos isso? Seguindo o conselho do salmista. Contra toda a desesperança, contra mesmo os intentos de quem almeja destruir a Deus e à nossa fé, renovar a vida: cantar a Deus, louvar enquanto vida houver, ter pensamentos agradáveis, ter alegria em Deus (v.33-34). A renovação chegará a seu ápice um dia, quando o pecado e a impiedade deixarem de existir (v.35). Até lá, façamos nossa parte: bendigamos, bendigamos ao Senhor!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Isaías 6.1-8 A brasa do altar

O sonho de Jacó (Gênesis 28.12)

Pagar o preço