A GRAÇA PREVENIENTE E A REDENÇÃO

Há várias etapas, fases e atuações do Espírito Santo na vida de uma pessoa até que ela chegue à plenitude. É um processo que dura toda a existência da pessoa, desde seu nascimento até à sua morte e revela o cuidado e o amor de Deus que, por todas as maneiras, tenta aproximar-se do ser humano e legar-lhe a salvação. Analisando esses dispositivos de Deus para promover a salvação, pode-se aprender mais sobre Deus e sobre a própria humanidade.

Na qualidade de pecadores, os homens estão mortos em seus delitos e pecados ( Ef. 2:1). Essa condição é tal que, por si mesmos, não podem ser salvos. É aí que começa a atuação da graça preveniente. Essa graça é para todos e livre em todos, pois o amor de Deus é infinito. Ele não tem prazer na morte do perverso, mas deseja levá-lo a uma nova vida. A graça preveniente atua, por isso, antes da conversão.

Essa graça é distinta da predestinação, que Wesley considerava uma limitação ao amor divino. Ele entendia que o pecador pode aceitar essa graça e receber seus benefícios de forma cada vez mais crescente. Ou podia rejeitá-la, tornando-se insensível à voz de Deus. Essa graça se manifesta através da consciência das pessoas que, em maior ou menor grau, mostra-lhes o que é certo e errado em suas atitudes ou modo de vida. Essa consciência, portanto, não é natural, mas resultado da ação de Deus nas mentes e corações humanos. É a graça preveniente que torna possível o arrependimento das pessoas.

1.1. O PECADO

O pecado é a mais grave conseqüência da alienação de Deus. O desejo humano, atiçado pela Serpente (a representação do mal, da oposição a Deus - em última instância, de Satanás), levou o ser humano à queda de tal forma que a morte entrou no mundo. Esse pecado atingiu o ser humano no cerne de sua existência: danificou a imagem de Deus que nele estava. Wesley explica seu entendimento sobre essa imagem de Deus:

1.1.1. Imagem moral:

São as características de Deus que estavam presentes no ser humano antes da queda, como santidade (ser sem pecado), pureza e o amor de Deus. Mesmo que essa imagem moral tenha sido perdida com o advento do pecado, Wesley entendia que não se podia apenas aceitar essa nova situação, usando-a como desculpa para o pecado, com afirmações do tipo: "Errar é humano". Ele insistiu que a verdadeira natureza é aquela dada por Deus na criação do ser humano e que ela pode ser readquirida pela graça do mesmo Deus.

Com o pecado, essa imagem foi destruída e deve, pois, ser buscada depois da experiência da salvação. Como diz a Bíblia, "não há um justo sequer", mas a imagem moral perdida pode ser readquirida pela graça.

1.1.2. Imagem natural

"Essa imagem tem a ver com a capacidade de escolha, ou seja, o livre arbítrio. Deus é por natureza autônomo. Ele faz e desfaz o que lhe apraz. Isso não significa, como muitos imaginam, que Deus é caprichoso. Ele é livre e soberano, mas ele não age de uma maneira hoje e de outra amanhã (Gênesis 8.21)."[1]

Deus criou o homem e a mulher com perfeita capacidade de escolha, para decidir desde as menores coisas em sua vida até às decisões de natureza espiritual. Todavia, a escolha do primeiro homem foi errada, prejudicando toda a humanidade.

Na queda, a imagem natural foi afetada gravemente, eliminando a capacidade de livre escolha de Deus. A situação carnal após a queda foi descrita por Paulo em Rm 7. 14-15.

Contudo, negar o livre arbítrio no sentido de livre escolha de Deus e da salvação não significa que o ser humano não tenha nenhuma liberdade. Ainda há diversas escolhas que ele é capaz de fazer: decisões sobre sua vida, planos, participação na comunidade, entre outras.

1.1.3. Imagem política

Deus, como criador de todas as coisas, é o soberano absoluto. Mas ele delegou poderes aos seres humanos. Este fato é claro quando ele diz que o homem deve dominar sobre os habitantes da terra, dos céus e do mar (Gênesis 1.28). A mesma intenção está presente no ato de dar nomes aos animais, pois quem nomeia domina (Gênesis 2. 19-20 e Salmo 8.6-7). Esse domínio não é para destruir, mas para guardar, preservar, cuidar e proteger.

Segundo a Bíblia, essa imagem não é destruída, mas fica prejudicada porque a natureza se torna hostil (Gênesis 2. 16-19). Toda a natureza é afetada, pois o ser humano polui, destrói matas, faz animais entrarem em extinção, cria desertos onde havia florestas.

O pecado original afetou toda a criação e não apenas o ser humano. Para Wesley, era preciso admitir que o ser humano, depois da queda, tornou-se essencialmente mau e não pode gerar boas obras agradáveis a Deus baseado em sua própria justiça. Como pecador, para obter a salvação da parte de Deus, o ser humano necessita do arrependimento.

1.2. ARREPENDIMENTO

Há duas espécies de arrependimento: o chamado legal e o evangélico. O primeiro é a convicção de pecado; o segundo é a mudança do coração e de vida, de todo o pecado para a santidade.

Deus requer do ser humano o arrependimento e frutos dignos do arrependimento. Se o ser humano esperar fazê-lo voluntariamente, não pode esperar que seja justificado. O arrependimento e seus frutos são necessários à fé e a fé é a única condição imediata e necessária à justificação.

O arrependimento é anterior à fé, pois, sem perder a confiança nos próprios méritos não se pode passar a confiar nos méritos de Cristo.

Wesley entende esses dois arrependimentos citados ocorrendo em níveis diferentes da experiência salvífica da pessoa. Um é anterior à aceitação de Cristo como Senhor e Salvador. É o reconhecimento da culpa, consciência da ira de Deus e sentimento de condenação. O segundo ocorre após a justificação e é o entendimento de que, apesar de justificado, o indivíduo necessita do favor de Deus pois ainda possui uma mente carnal, da inclinação do ser humano para o mal, de sua tendência a afastar-se dos propósitos de Deus e inclinar-se ao ateísmo, à incredulidade. E ainda, esse arrependimento envolve um reconhecimento da constante dependência divina, da incapacidade de fazer o bem por si mesmo.



[1]- REILY, Duncan. Estudos Doutrinários do Metodismo. Revista Em Marcha. Vol. 2. São Paulo:

Imprensa Metodista, 1992, pág. 13

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