Dize-me com quem andas (Ed René Kivitz)

Não podemos ter uma vida espiritual sozinhos. A vida do Espírito é como uma semente que precisa de terreno fértil para crescer. Este terreno fértil inclui não só uma boa disposição interior, mas também um ambiente favorável.

É muito difícil viver uma vida de oração num ambiente onde ninguém ora ou fala com carinho da oração. É quase impossível aprofundar a nossa comunhão com Deus quando aqueles com quem vivemos e trabalhamos rejeitam ou até ridicularizam a idéia de que há um Deus que ama. É uma tarefa sobre-humana procurar fixar o coração no Reino de Deus quando todos aqueles que conhecemos e com quem convivemos têm o coração fixo em tudo, menos no Reino de Deus.

Não é, portanto, surpresa nenhuma que as pessoas que vivem em ambiente secular - onde o nome de Deus nunca é mencionado, a oração é desconhecida, não se lê a Bíblia nunca e a conversa sobre a vida no Espírito é completamente ausente - não consigam agüentar a sua dimensão de comunhão com Deus por muito tempo. Descobri como sou sensível ao ambiente em que vivo. Com a minha comunidade, as palavras sobre a presença de Deus na nossa vida brotam espontaneamente e com grande facilidade.

Quando levamos a vida espiritual a sério, somos responsáveis por criar um ambiente onde a mesma possa crescer e amadurecer. E, embora eventualmente não sejamos capazes de criar o contexto ideal para uma vida no Espírito, temos muito mais opções do que geralmente pensamos. Podemos, por exemplo, escolher amigos, livros, igrejas, arte, música, lugares para visitar e gente com quem estar que, no seu conjunto, contribuem para criar um ambiente em que é possível à semente de mostarda que Deus semeou em nós crescer até atingir as dimensões de um grande planta.

Estas considerações de Henri Nouwen estão de acordo com a sabedoria da Bíblia Sagrada que nos recomenda enfaticamente o cultivo da vida comunitária e das amizades espirituais com vistas à qualidade e aprofundamento de nossa experiência espiritual:

Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado. Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até o fim. (Hebreus 3.12-14)

E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia. (Hebreus 10.24,25)

Quem deseja experimentar Deus tem que andar perto de gente que anda com Deus. A amizade com Deus implica a amizade com os amigos de Deus. As pessoas íntimas de Deus nos ajudam a colocar Deus no foco. Primeiro seguimos os passos dos íntimos de Deus, até que aos poucos seguimos os passos de Deus. Esta parece ser a recomendação do apóstolo Paulo: Sede meus imitadores, como também eu de Cristo (1 Coríntios 11.1); Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados (Efésios 5.1). Primeiro você imita Paulo, que imita Cristo, que imita Deus. Depois você imita Cristo, que imita Deus. Até o dia quando você fica face a face com Deus.
Quem são as pessoas com quem você convive, pergunto eu? Com quem as palavras sobre a presença de Deus na vida brotam com facilidade? E quem são as pessoas com quem você convive com quem as palavras de murmuração, as fofocas, as maledicências, as doenças mutuamente são retroalimentadas? Quem são as pessoas com quem você convive que só servem para ficar cutucando as suas feridas, e você cutucando as feridas delas? Quem são as pessoas com quem você convive que trazem para a mesa da conversa a Palavra de Deus? Trazem para a mesa da conversa a necessidade da oração e da intercessão? Que valorizam a comunhão?
Palavras de Henri Nouwen novamente: “Mesmo nessas ocasiões, a competição arraigada, muitas vezes inconsciente entre as pessoas, as impedem de se revelarem umas às outras e de estabelecerem relações que durem mais que a própria festa. Quantas relações que você tem que duram apenas o momento da festa? Onde somos sempre bem-vindos nossa ausência não importa muito. E onde todo mundo pode ir e é bem-vindo nenhuma ausência é particularmente notada. Geralmente há bastante comida e bastante pessoas para comer a comida, mas muitas vezes parece que a comida perdeu o seu poder de criar comunidade. Não raro saímos da festa mais conscientes de nossa solidão do que quando entramos”.

Eu lamento muito que esta fala do Henri Nouwen “Por que tantas festas e reuniões amigáveis nos deixam tão vazios e tristes?”, se aplique também a muitas das nossas celebrações, do que nós chamamos dos cultos. Por que muitas celebrações, cultos nos deixam tão vazios e tristes?
É porque nós não nos aproximamos das pessoas. Nós chegamos depois que começa e saímos antes de terminar. Nós não nos olhamos nos olhos, nós não intercedemos uns pelos outros. E quando perguntamos como você está, é uma pergunta politicamente correta, pro-forma, que não está esperando uma pergunta sincera.
Por que é que anos de convivência com igreja mantém pessoas tão superficiais?
É porque elas convivem com a igreja, mas não convivem sequer com um irmão, com uma irmã. Convivem com o auditório, mas não convivem com uma pessoa sequer. Não abrem o coração, não confessam seus pecados, não compartilham suas dores. Dão desculpas de que não encontraram. Mas na verdade, na minha opinião, é que são muito seletivas. Elas querem sim, compartilhar as suas dores, chorar, confessar pecados, conversar e desenvolver amizades. Mas com pessoas especiais.
Nós somos chamados por Deus a relacionamentos, porque no fundo, no fundo toda pessoa é especial.
James Houston, no seu livro Mentoria Espiritual, diz assim: “Tendo em vista seu objetivo de criar organizações inteligentes, muitas empresas hoje veem nos seus funcionários qualificados o seu maior patrimônio. A expressão feedback tornou-se palavra do momento no contexto dessa interação dinâmica. Pedir feedback, dar feedback, receber feedback, agir com base no feedback. Em última análise, os melhores funcionários não são simplesmente os mais qualificados tecnicamente, e sim, aqueles cujo maior grau de crescimento pessoal está comprometido com o futuro da empresa. O êxito de uma empresa depende, portanto, não só da lucratividade, mas também da eficácia de sua mão de obra. É por isso que se está investindo tanto em técnicas de mentoria”.
Esse dar feedback, receber feedback, oferecer feedback é mais ou menos assim: “Eu sinto que você reage desproporcionalmente às críticas que recebe. Você é uma pessoa não muito aberta a ouvir quem discorda de você. Eu acho que se você acolhesse mais uma crítica que é feita contra você, você iria crescer.
Feedback é quando uma pessoa oferece a você um olhar de fora sobre você. Mas essa pessoa precisa conviver com você, prestar atenção em você, ouvir você, ter informações a seu respeito. Ela precisa conquistar o seu respeito, a sua admiração e a sua confiança. Aí então, ela diz assim: “Posso lhe dizer uma coisa? E você diz: “Pode”.
A qualidade da sua vida depende da qualidade das pessoas com quem você convive e da qualidade dos relacionamentos que você constrói com quem você convive.
Eu perguntaria a você: Você tem amigos que põem o dedo na sua cara? Você é transparente o suficiente com as pessoas para que elas tenham como pôr o dedo na sua cara? Ou você vive com uma máscara toda vez que está em público, mesmo na presença das pessoas que lhe são mais íntimas?
Quero adiantar pra você uma coisa: É impossível viver com máscara na frente da mulher e dos filhos. Ninguém consegue ser um mascarado 24h por dia. E se seus filhos não põem o dedo na sua cara, numa relação espiritual, o que eu quero dizer, numa relação de amor e de ajuda, um dia eles vão virar a cara pra você.
Se as pessoas que convivem com você não têm liberdade, se você não as acolhe, não as recebe para que elas coloquem o dedo na sua cara, o que as empresas chamam de feedback, e que são superficiais no mundo corporativo, e que na igreja, na comunidade da fé, na comunidade cristã, as pessoas acabam virando as costas para nós e isso é pior do que ter um dedo na cara.
Elas perdem o respeito por nós, já não ouvem mais o que nós falamos. Já não se importam mais com a nossa companhia, porque nós vivemos mascarados. E você sabe, o Senhor, nosso Deus, não gosta de mascarados, e ele, cedo ou tarde, para o bem dos mascarados, faz com que a máscara caia.
Essa relação entre Paulo e Barnabé é adulta, é madura. Ela é profunda, é verdadeira. É nesta relação que acontece o que o autor dos Provérbios diz que “como o ferro ao ferro se afia, também o amigo ao seu amigo”. Eu sempre penso que ferro quando afia com ferro sai faísca, por causa do atrito.
Eu pergunto: Você é o tipo de gente que pula dos relacionamentos quando esquenta? Quando atrita? E quando sai faísca? Então, você não vai crescer. Porque você sempre vai encontrar alguém que vai achar bonitinha a sua máscara por algum tempo. Porque é verdade o que se atribui a Abraham Lincoln: “É possível enganar a todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas não é possível enganar todo mundo o tempo todo”.
Esta relação de Paulo com Barnabé me ensina muito sobre a superficialidade das nossas comunidades cristãs; a superficialidade das nossas vidas. Mas ensina também muito a respeito da possibilidade de profundidade das nossas vidas.
Não importa o que fazemos nessa grande comunidade cristã, importam sim, os relacionamentos que construímos enquanto fazemos o que fazemos.
Não importa quanta gente sabe de nós, porque uma pessoa só é campo missionário suficientemente grande, e talvez o maior desafio ou campo missionário mais desafiador que nós temos é a pessoa que está mais próxima de nós. Por quê? Porque a qualidade da nossa vida depende da qualidade das pessoas com quem nós nos relacionamos e da qualidade dos relacionamentos que desenvolvemos com as pessoas com quem nos relacionamos.
Eu encorajo você de todo o meu coração a ser transparente, autêntico, com uma, duas, três pessoas. Construir relacionamentos de autenticidade, de verdade. Pessoas com quem você não precisa usar máscaras para estar junto.
Eu encorajo que você encontre pessoas, amigos. Abra-se, conviva com elas como quem diz assim: Eu estou pronto a que você coloque o dedo na minha cara, porque eu respeito você. Você é meu amigo. Eu confio no seu amor e no seu interesse legítimo por mim, então, pode me confrontar. Eu confio em você.
Esse é o caminho do nosso crescimento espiritual, do aprofundamento da qualidade da nossa vida.
Eu oro a Deus que possamos dizer a respeito da ibab o que o apóstolo Paulo disse à igreja de Roma: “Meus irmãos, eu mesmo estou convencido de que vocês estão cheios de bondade, e plenamente instruídos, sendo capazes de aconselhar-se uns aos outros”.

Ed René Kivitz é escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.

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