Esperarei sempre... louvarei mais e mais... (Salmo 71)

Começar algo novamente, depois de ter experimentado o fracasso de algumas tentativas, não parece muito estimulante. Eu me lembro de uma experiência boba de adolescência, mas que me marcou muito neste sentido. Era uma sala comprida, com várias cadeiras e mesas onde havia máquinas de escrever manuais. O barulho das teclas tilintando era terrível. Era meu primeiro dia de aula de datilografia (quem se lembra disso?). No fundo da sala, eu fiquei sentada, tentando colocar os dedos em cima das teclas, mas eles teimavam em ficar pelos meios, machucando as pontas naquelas barrinhas finas de metal. A professora veio e colocou-se na parede, recostando-se tranquilamente enquanto eu arfava de aflição, com receio de ela chamar-me à atenção pela falta de destreza com aquele troço. Naquela noite, durante o sono (que não vinha) fiquei ouvindo o barulho da sala e vendo as teclas saltando na minha frente. Pensei que jamais ia conseguir datilografar uma linha inteira sem errar... Mas depois de frustradas tentativas, vocês sabem que até que digito rapidinho?
A mesma ansiedade adolescente teima em desafiar hoje, quando enfrento coisas mais sérias e profundas do que uma máquina velha de datilografia. Os barulhos da vida me ensurdecem e, por vezes, tiram o sono. Vejo os problemas saltando diante de mim. Então, eu penso: Será que nunca vai acabar? Será que nunca teremos paz de verdade, mas só um saltar de problema em problema? Aparentemente não, pois “no mundo tereis aflições”, disse Jesus. Que consolo resta, então? Que esperança haverá no futuro?
Uma história com Deus...
Estou lendo um livro chamado “Os horizontes espirituais da criança”, em que a autora fala da importância da experiência com Deus dos pais para que os filhos possam conhecer o Senhor. E ela pergunta: como é que você pode despertar espiritualmente seu filho, se você mesmo não se maravilha com Deus? O que você tem para contar?
Ter o que contar acerca de nossa vida com Deus é ter motivo para começar de novo quando necessário.  É mais fácil quando nos apoiamos em experiências anteriores. Sem isso, muitos retrocedem, desistem da vida, desistem de si mesmos e dos outros ao primeiro sinal de perigo. O salmista se lembra e diz: “Em ti tenho confiado desde a minha mocidade” (v. 5) e “Em ti tenho me apoiado desde o meu nascimento” (v. 6). Eu sempre digo às minhas filhas como foi quando eu soube que estava grávida delas. Eu digo que passava a mão na barriga e dizia: “Senhor Deus, me dê uma menininha assim...” e descrevo exatamente como elas são agora. A cor dos olhos, do cabelo... claro que minhas orações não eram exatamente assim, mas o que procuro é que elas saibam que eu as desejei e as amo do jeito como são. Vejo que esta história é importante para elas. Quando se sentem tristes por alguma razão, elas me pedem: “Mãe, conte aquela história de quando eu nasci...” Eu quero que elas sempre se lembrem de como houve orações a seu favor e de como Deus participou de sua história desde o ventre materno. Assim, quando precisarem, saberão reconhecer que o Senhor esteve sempre ali.
É muito difícil recomeçar quando sentimos que estamos sós. O salmista, em seu desafio, traz à memória a presença de Deus em sua história e novamente implora por ela no presente: “Não me rejeites na minha velhice, não me desampares” (v. 9); “não te ausentes de mim” (v. 12). Devemos nos lembrar a todo o momento que o Deus a quem servimos é presente, pessoal, preocupado conosco. O mundo caminha na impessoalidade, mas Deus é aquele que nos chama pelo nome, que gravou-nos nas palmas de suas mãos, que nos trata como a menina dos olhos, que nos ampara ainda que nossos pais faltem... este é o nosso Deus! Para ele, não somos um registro, um CPF, um RG perdido entre documentos. Somos pessoas, às quais ele conhece e com as quais deseja ter um relacionamento... Como é mais fácil erguer-se quando você se lembra de que este é o Deus que está de mãos estendidas para amparar você!
Um falar com Deus, um falar de Deus
Os recomeços exigem diálogo. Recomeçar uma vida familiar, recomeçar uma carreira de trabalho, recomeçar a espiritualidade, recomeçar os compromissos com a comunidade de fé... nenhum recomeço é isento de partilha, de diálogo. O salmista, cansado dos problemas, quer falar com Deus. No v. 2, ele pede que Deus incline os ouvidos, isto é, que o ouça. Nossas orações, mesmo em aflições, podem ser ainda superficiais. Podem não conter a verdade mais profunda de nossa alma. Temos coragem de admitir nossas dificuldades realmente diante de Deus? Temos intimidade suficiente para dizer o que, de fato, precisa ser dito?
Por outro lado, temos reconhecido a grandeza de Deus? O salmista afirma no v. 8, que sua boca estava cheia dos louvores do Senhor. O que sai de sua boca nos seus momentos de alegria e também de tristeza? Deus está presente no seu discurso? Não falo isso do modo tradicional, em mensagens ou orações, mas... Deus é um tópico de referência para você?
Para recomeçar e para renovar-se na fé, os fundamentos precisam ser sólidos. Eu me lembro de uma canção antiga, do grupo Vida Abundante, que contava a história de um velho fazendeiro, chamado Tio Sampaio... Bem idoso, experimentado na vida, ele sabe que está perto da morte. Mas quando alguém lhe pergunta: “Como conseguiu manter-se firme diante de tantas lutas da vida? Qual o segredo de uma vida renovada, cheia de verdor? Qual o segredo de uma fé tão radiante?” Tio Sampaio respondeu: “As raízes... cuida bem das coisas principais. Arraigado, sempre firme nas promessas do Senhor, nada vai te abalar as raízes”. Por causa de suas raízes, o salmista fala com Deus e sobre Deus com renovada esperança: “Tu me tens feito ver muitas angústias e males, mas me restaurarás ainda a vida e de novo me tirarás dos abismos da terra” (v. 20).
Uma disposição de alegria
Eu reconheço meus pecados... tenho uma tendência à tristeza. Choro por qualquer coisa, até em comercial de margarina... Mas eu sei que os recomeços na vida têm uma característica em comum para serem bem-sucedidos: eles precisam de disposição à alegria. O idoso salmista bíblico não cometeu meu erro. Sua disposição era para a alegria: “esperarei sempre, louvarei mais e mais”! Veja que ele descreve toda uma lista de problemas, mas, no final, só palavras de ânimo: louvar com a lira, celebrar a verdade, cantar salmos na harpa, exultar com os lábios e com a alma... (v. 22-24). Que maravilha! Preciso aprender com ele... e você?

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