O equilíbrio da maturidade (Salmo 39)


Sempre apreciei, de modo particular, este salmo, especialmente o verso 7. Para mim, contudo, a totalidade deste salmo é sobre a maturidade. Não em questão de idade, me parece, mas em termos de conduta. Às vezes, não sabemos como agir em certas situações que nos afligem. Temos algumas posturas que não condizem com o que Deus espera de nós. Encontrar o equilíbrio diante de tudo isso é o desafio que o salmo nos convida a encarar: como viver a vida de modo a testemunhar o nome e poder do Senhor?
Maturidade é ter a coragem de falar o que precisa ser dito (v.1-3)
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)
Não sei se você conhece os textos de um autor chamado Bertold Brecht, mas ele fala muito acerca dos posicionamentos políticos das pessoas. Ele chama o silêncio por muitos nomes duros e critica a omissão de seus contemporâneos, apontando as consequências danosas, que começam pelo amigo, pelo vizinho, até que atingem a própria pessoa.
O salmista vive esta experiência. Ao ver os maus agindo, ele se cala. Tem receio de se envolver, de se comprometer, de “dar a cara a tapa”. Muitos de nós somos assim. Vemos o erro e nos silenciamos. Ditados populares resguardam a violência: “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”; “Isso é briga de cachorro grande”; ou a famosa frase em inglês: “It isn’t your business!” (Não é problema seu!). Calados, vemos o mundo se afundar na maldade e na impunidade. Encontrei a famosa frase de Martin Luther King fora de contexto, solta na internet, mas ela bem poderia ser um comentário aos versículos introdutórios deste salmo...
“Para não correr o risco de pecar”, eu me calo diante do ímpio. A desculpa parece santa, mas é, de fato, omissa. Tanto que a dor se agrava, o coração fica em brasas, o fogo arde (v. 2-3). Esta é a experiência de Jeremias também, como profeta de Deus (confira em Jeremias 4.19). Quando a maldade impera ao redor, aquele que ouve a voz de Deus em seu coração não pode se omitir. É falta de maturidade espiritual ficar calado quando o mundo precisa e a situação exige uma voz profética... Como orou o bispo Ralph Spaulding Cushman: “Inflama-nos, Senhor, sacode-nos, nós te suplicamos! Enquanto o mundo perece, nós, indiferentes, seguimos o nosso caminho, sem rumo, sem paixão, dia após dia. Inflama-nos, Senhor, sacode-nos, nós te suplicamos!”
Maturidade é reconhecer sua humanidade (v. 4.7)
"O autoesvaziamento prepara o transbordamento espiritual." (Richard Sibbes)
Eu sempre fiquei intrigada com a história dos ciclopes, aqueles personagens da mitologia grega que só tinham um grande olho no meio da testa. Diz a narrativa que isso aconteceu porque, querendo saber o futuro, eles deram a um mágico enganador um de seus olhos. Mas a única habilidade de ver o futuro, dada pelo mágico, era decepcionante. Eles nasciam sabendo o dia em que iam morrer... Esta história nos traz a mesma mensagem de Gênesis 1-3: querendo ser deuses, almejando ser mais do que são, os seres humanos somente encontram a morte. Não é à toa que a maioria das mortes hoje no Brasil acontece entre os jovens: se embebedam, se drogam, dirigem loucamente, se expõe a perigos, confiam demais em si mesmos... Porque quando somos jovens, nos sentimos tão cheios de vida que parece que nada vai nos acontecer. Algo muda quando amadurecemos. Posso lhe dar um exemplo pessoal: agora que tenho duas filhas pequenas, cultivo certo temor por minha vida. A responsabilidade de cuidar de mim mesma aumentou, porque já não sou apenas eu...
O salmista quer reconhecer sua fragilidade diante de Deus: sua vida mede apenas alguns palmos, não significa nada diante de Deus. Por isso mesmo, não adianta achar-se invulnerável, pois reconhecer-se frágil é entender que a vida é um grande tesouro a ser preservado, cuidado... Não pode ser consumido por banalidades! A maturidade espiritual nos leva a dar valor ao que é importante. Por que corremos tanto, nos adoecemos física e emocionalmente, trocamos pessoas por coisas, corremos atrás do vento, se tudo passa tão depressa? Diante da morte, muita gente revê sua vida e chega à conclusão de que faria muita coisa diferente. Por que, porém, esperar? A Palavra nos desafia a rever nossa história hoje mesmo, a amadurecer, a buscar o que é realmente valioso.
Maturidade é depender de Deus (v.8-13)
“Por muito tempo meu espírito aprisionado, permaneceu nos grilhões das trevas e do pecado. Até que de teu olhar veio o raio vivificador. E despertei, meu calabouço em pleno fulgor. Os grilhões se romperam, meu espírito foi liberto. Levantei-me e passei a seguir-te de perto. (João Wesley)
Quando reconhece sua humanidade, o salmista abre, de fato, seu coração a Deus. Expõe seus problemas por meio de expressões como: minhas iniquidades, estou consumido, grito por socorro, minhas lágrimas... Ele se percebe como forasteiro na terra, sem nada de permanente (v.12). Reconhece que o olhar da santidade de Deus manifesta todos os seus pecados e, por isso, pode consumi-lo... e clama por misericórdia!
Cristãos maduros colocam-se no altar da santificação, negam a si mesmos, buscam os interesses de Deus. Não cultivam pecados habituais. Têm o temor genuíno de Deus em seus corações. O salmista agora novamente se cala, mas agora é diante de Deus, o qual não permite nenhuma autojustificação (v.9). Por sua vez, pede que Deus fale, que aja a seu favor, que não se emudeça, pois é de Deus que vem toda resposta definitiva às perguntas e questionamentos da vida (v.12).
Maturidade, então, nos ensina o salmista, é abrir a boca contra o pecado, é conhecer a si mesmo o suficiente para não se achar mais do que é... mas é, por fim, calar-se diante da única verdade incontestável e imutável, contra a qual toda ação humana fenece: a majestade de Deus!

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