Contando os dias

Salmo 90

Ano que vem faço 40 anos. Mulheres não gostam de dizer sua idade, mas este é um dia que, imagino, será especial. Meu amigo, Moisés Coppe , escreveu uma crônica acerca de seu aniversário de 40 anos, regada a poesia de Adélia Prado e desejos por comida. Li esses dias mesmo... e fiquei pensando em como vou me sentir. Eu me lembro de que, aos quinze anos, quando eu via alguém com sessenta, imaginava-o muito velho. Agora, o tempo se mostra tão relativo! Quando se tem quarenta, nos pegamos falando de alguém que morreu aos setenta: “Meu Deus, morreu tão novo...”
Basicamente, quarenta é a metade da expectativa média de vida que a maioria de nós tem. Meu amigo Moisés diz que achou cabelos brancos na cabeça – eu, esperta, estou ficando loira, como toda boa mulher... Cabelos brancos são sinais de sabedoria no povo da Bíblia. Para nós, pobres mortais do século XXI, a velhice representada pela brancura das cãs (para usar o texto bíblico) tem se tornado zona de desconforto, esquecimento e o que é pior – negação.
Estou querendo contar meus dias. Contar, como disse Rubem Alves, como aquela menina que come uma bacia de jabuticabas. As primeiras eu comi também bem rápido, porque tinha muito... afã de abundância que a gente tem. Agora que o tempo passa e ainda tenho de correr, quero sentir mais o sabor de cada jabuticaba. E que sabor! Estão chegando as conquistas, nem minhas... fruto da graça divina... Vejo minhas filhas crescendo, conquisto coisinhas aqui e ali, ainda tenho projetos e sonhos... mas sei que as jabuticabas estão mais perto do fim. É hora de comer mais devagar, sentir o sabor, observar a beleza do fruto. 
Concordo com Rubem Alves. Apesar da fé na ressurreição, morrer é uma coisa que dá pena. Agora começamos a pensar mais nisso e a vida parece tão boa que dá pena morrer... Queremos viver e ver coisas que ainda acontecerão. Conto minhas jabuticabas e vejo minha limitação. Preciso aproveitar mais este gosto de vida. Não sei onde estarei nem o que estarei fazendo no meu aniversário de 40 anos. Mas espero ter a oportunidade de chupar esta jabuticaba ao lado de gente que amo. Enquanto meu amigo come queijo com goiabada, eu chupo jabuticaba. Mas tenho certeza de que o sabor bom, o gosto da graça divina que nos abraçou pela vida toda e nos guardará na eternidade... sim, tenho certeza! O gosto bom é exatamente o mesmo!

Comentários

  1. Acho que é sempre uma grande benção a gente assimilar as transições da vida. Parabéns pelo texto inspirador!

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