Uma falsa felicidade

O mundo pós-moderno nos presenteou com a ideia do eu. Antes dos iluminismos e humanismos, o eu não era um mundo à parte do nós. Na verdade, a necessidade de um "eu" me parece diretamente ligada à ideia de um mundo no qual estruturas maiores podem ser prescindidas. A gente vive bem sozinho. Nada de família, ou igreja, ou Estado para regular a ação entre pessoas. Com o advento da razão, seremos seres livres de quaisquer amarras, poderemos fazer o que quisermos e, em fazendo isso, seremos felizes e pacíficos.
O problema do pensamento iluminista é que ele desconsidera a imensa, inesgotável capacidade do ser humano de ser baixo, chulo e egoísta. Se ninguém nos despertar para a ideia da coletividade, estaremos sempre com os olhos no próprio umbigo que, meu Deus!, é grande e profundo. Podemos nos perder em nós mesmos.
E aí está a grande revolução perdida do Cristianismo. Ele cedeu sempre aos pensamentos dominantes de seu tempo. Aliou-se aos impérios porque isso é o que todo mundo fazia. E abraçou agora a ideia do eu, do consumo e do antropocentrismo, porque é isso o que o neoliberalismo faz. Não podemos ser oposição, ou perderemos ibope, cresceremos pouco, sumiremos. E daí? Melhor do que adaptar-se. Aliás, foi isso mesmo o que Paulo recomendou não fazer. Entrar na forma é desaparecer, perder a relevância, ficar insosso.
A revolução perdida do Cristianismo era - o outro antes de mim. O outro SEMPRE antes de mim. O outro, não eu. A felicidade do próximo deveria ser o alvo máximo da minha realização. Palavras como perdão, acolhida, suporte, ministração, intercessão, vitória só fazem sentido para o Cristianismo no contexto do outro. E minha realização acontece quando paro de olhar para mim para vê-lo. Se ele estiver bem, eu estou bem. Se ele for feliz, feliz serei.
Esse paradoxo é insuperável. E dolorido, porque é o encontro de contrários. Exige muito de mim. De fato, exige tudo. Mas também facilita. Quando penso na restauração do outro e no quão importante isso é, desisto da minha ira. Perdoo. Quando penso que minha ajuda pode ser a necessária virada na existência de alguém, eu ajudo.
Fica fácil pelo outro lado também. O lado de ser o outro. Porque sempre somos muito exigentes conosco mesmos, mas aceitamos, com certa facilidade, a ajuda do outro. O outro não nos interpela de modo tão profundo quanto nós mesmos. O outro não sabe de tudo, por isso imaginamos que não nos condenará tão profundamente quanto nós mesmos o faríamos... O outro é libertador! Também gostaríamos de ser acolhidos e perdoados pelo outro. Se pensamos assim, então nos liberamos para também acolher e perdoar.
Por isso a vida de Jesus se resume ao encontro com gentes. Não se fala tanto na Bíblia dos lugares por onde Jesus passou quanto se afirma com quem ele esteve em cada parte. Porque gente para ele era mais importante. Manter os vínculos. Perdoá-los, porque, afinal, eles não sabem o que fazem. Se soubessem, não fariam. Eles acham que sabem. Mas não. Eu sei a dor que eu sofro. O outro não sabe que a provoca. E, portanto, sou eu quem devo perdoar, porque eu sei exatamente o que estou perdoando, mas o outro não sabe do que está sendo perdoado. Isso é remidor. Coloca a ação, isso sim, em minha mão. E nesse ponto me faz protagonista da história. O outro é importante porque sou capaz de tocá-lo. E aí reside meu valor maior...
A falsa felicidade é fazer o que me agrada. Meu problema é que nunca me satisfaço em mim mesma. Estou sempre querendo o que não tenho... como diz a canção pop, querendo "o sol acima do sol" e perdendo o que está à minha mão.
Felicidade verdadeira, diz o evangelho, é transformar o outro ao abrir mão de mim por ele. É descobrir que posso mais porque alguém foi tocado pela minha existência. E se não entendo isso, então passo longe de compreender o evangelho. Reduzo-me ao egoísmo iluminista. Penso, logo existo. Pode até ser. Mas quando amo, existo mais. Fico eterna. E existir não basta, é preciso viver.


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