Três gestos que curam (Marcos 1.29-31)

E, saindo eles da sinagoga, foram, com Tiago e João, diretamente para a casa de Simão e André. A sogra de Simão achava-se acamada, com febre; e logo lhe falaram a respeito dela. Então, aproximando-se, tomou-a pela mão e a levantou; e a febre a deixou, passando ela a servi-los.

Jesus, neste texto, nos dá um exemplo concreto do que significa a vida do Reino de Deus. Ele havia estado na sinagoga como estamos nós, todos os dias no templo. Ele havia entoado canções, certamente havia orado e lido as Escrituras. Talvez ele tenha pregado naquele dia, talvez tenha apenas ouvido. Mas agora, o culto havia acabado. O que fazer depois do culto? Jesus vai para a casa de amigos. Em Cataguases, sempre fazemos alguma coisa depois do culto. Comemos um lanche, conversamos longamente na porta da igreja, saímos juntos, vamos para a casa de alguém. Jesus foi para a casa de seus amigos, Simão e André.
Mas as coisas não estavam bem naquela casa. A sogra de Simão estava acamada. Uma casa onde existe alguém doente é um lugar de clima pesado. As pessoas falam baixo, pelos cantos. Choram. As sombras muitas vezes persistem sob janelas fechadas. Uma casa doente. Muita gente canta, ora e busca a Deus na igreja, mas volta para uma casa doente. Têm vizinhos em casas doentes, parentes doentes, amigos doentes. Doentes de muitos jeitos, de muitas formas.
Na Bíblia, a doença não é algo apenas físico. Ela é um sinal de separação de Deus. No Antigo Testamento principalmente, as pessoas doentes são vistas como próximas da morte. A gente as evita, porque elas podem contaminar e espalhar a morte a partir do toque. Teme-se a doença. Hoje em dia, com os médicos dando diagnósticos, prescrevendo remédios, a doença já não causa tanto medo como antigamente. Mas ainda há doenças que, por causa das deformidades que geram no corpo do doente, afastam as pessoas. Assim é que o doente, além de doente, também fica sozinho, isolado, abandonado.
A sogra de Pedro estava doente. Ele havia ido até a sinagoga com Jesus. Mas ele não contou a Jesus lá na sinagoga que a sogra estava doente. Lá na igreja, ninguém saberia de nada. É quando se entra na casa que a verdade vem à tona. Por isso é que o discipulado é algo tão importante na nossa vida. Em nossa igreja, aos poucos estamos decidindo abrir nossas portas, não apenas para receber as pessoas nos grupos pequenos, mas aprendendo a perdoar nossos pecados e sermos curados uns pelos outros e outras. Decidimos que lá no templo é tudo muito bom e perfeito, mas apenas quando reflete casas curadas. Então, decidimos a cada dia levar Jesus conosco para casa e permitir que Ele veja as enfermidades que o povo da igreja, do templo, da sinagoga, não poderia contemplar. E quando Jesus vem, Ele opera três movimentos de cura:

1. Aproximando-se: Jesus não cura de longe. Ele faz questão de tocar o ferido toda vez que cura alguém. Poucas vezes no Evangelho ele apenas envia a palavra. Porque a cura envolve a acolhida, o abraço. Cuidar de um doente é tocar nele, limpar suas sujidades, trocar seus curativos, sentir o cheiro da doença e dos remédios. Sem compartilhar a dor do doente, todo tratamento é superficial. Quando vamos ao médico, queremos que ele nos toque para termos certeza de que ele não apenas está dando o remédio de que precisamos, mas que, antes disso, ele se preocupa, de fato, conosco. Se a igreja avança aos longo dos anos, mantendo suas portas abertas no culto, mas sem sair de si mesma para tocar os outros, jamais promoverá a cura verdadeira. Se os doentes é que precisam de médico, então o médico tem que ir na casa do doente. Encontrá-lo lá onde suas dores estão. A igreja não é diferente do médico dos médicos. Ela é a enfermeira dele. Ela tem de ir aonde ele vai. Ao contrário disso, muitas vezes a igreja fere, magoa, usa placebos, que são remédios falsos. A igreja põe band-aid onde deveria haver uma cirurgia. E os doentes continuam morrendo das portas para fora, porque a igreja não é o hospital de excelência que deveria ser.
2. Tomou-a pela mão: O ato de estender a mão é um gesto de hospitalidade por excelência. A hospitalidade invertida, pois, numa casa, espera-se que o visitante receba a mão estendida do dono da casa. Mas Jesus, ao invés de ser servido, serve. Tomar pela mão também é um gesto de condução. Pessoas doentes podem fazer escolhas erradas. Podem se aprofundar na doença e na depressão. Podem perder-se na alucinação da febre. Podem morrer. Frequentemente sentem-se desamparadas. A mão é a parte do nosso corpo com a qual primeiramente manifestamos aproximação. Ao conhecer alguém, é o primeiro gesto para romper a indiferença. Estender a mão é superar a barreira que separa. Eu sempre me preocupei, ao corrigir minhas filhas, para jamais bater nelas com as mãos... Uma chinelada no bumbum até rolou, mas beliscão, puxões, arrancos, gestos bruscos? Não! Minhas mãos precisam ser símbolo de afeto, de acolhida. Minhas mãos têm que servir para abraçar, acolher, amar. Meus dedos só apontam se for pra apontar o caminho. Se eu estender minhas mãos na direção delas, não as quero com medo. Jesus tomou a mulher pela mão. Esse também é um gesto de condução. A cama não é o lugar do corpo. Ele não foi feito para quedar-se deitado eternamente. Foi feito para estar de pé. Jesus quer curar, tirar as pessoas da inércia da morte, colocá-las de pé. Tem que haver hospitalidade na igreja. Membros adoecem, pastores e pastoras adoecem, visitantes enfermos chegam... acolhemos ou criticamos? Estendemos a mão ou apontamos o dedo? Se a igreja é a casa de Deus, aqui dentro tem que haver mãos estendidas. Gente pronta para fazer curativo, operar, dar comida na boca, trocar fralda, dar injeção de ânimo! Gente que serve, que estende a mão...
3. E a levantou: Há muita gente que quer curar os outros, mas os mantém seguros pela mão. Escraviza as pessoas com ideias distorcidas sobre pastoreio e discipulado. Jesus levantou a mulher para que ela andasse por si mesma. Há pessoas que precisam de um empurrãozinho de fé. De autoestima. Elas são tão oprimidas pela vida que esquecem que Deus as dotou de grande valor. A igreja está aqui para ser fonte de cura. Para levantar as pessoas, é preciso primeiramente que estejamos de pé. É a ilustração das máscaras de oxigênio no avião: Ponha a sua primeiro, antes de ajudar. Como está sua vida pessoal? Em nossos GPs muitos líderes compreenderam que eles precisam ser exemplo para que as outras pessoas se levantem. Se você tem problemas conjugais não resolvidos, então casais problemáticos virão para o seu GP. Se você tem problemas com dinheiro, vai ter de lidar com gente devedora. Se tem problemas com o perdão, então um bando de gente revoltada vai estar no seu grupo. E o que você vai fazer se não puder ser exemplo? Devemos perceber que Deus não vai mandar vidas machucadas e feridas para uma igreja que não tem o poder para curá-las. Elas já estão mal, ele não vai piorar... se nossa igreja está com problemas, tem que se tratar primeiro, para que depois tenha forças para curar outras pessoas... aí sim, a cura brotará sem detença.

E ela passou a servi-los: uma pessoa curada por Deus é uma pessoa que cuida das outras. Vamos consolar com a mesma consolação que recebemos de Deus, diz Paulo. Só podemos dar o que nós temos. Às vezes, as pessoas vêm para a igreja e queremos que elas sirvam, trabalhem, rendam, deem lucro, antes que possam ter sido curadas, tratadas, amadas e acolhidas. Queremos que falem o dialeto dos crentes e saibam tudo de Bíblia antes que possam falar de Jesus. Mas elas precisam de quem se aproxime delas, estenda a mão e as ajude a levantar antes que estejam prontas a servir. E elas farão isso como resposta ao amor de Deus e não às nossas exigências eclesiais. Se assim não for, de nada servirá. E como é que isso acontece? Porque depois de curar a mulher e outras pessoas, Jesus se retirou para orar.

Conclusão: Jesus se aproximou, tocou e levantou a sogra de Pedro. Mas a cura não terminou porque a mulher ficou de pé. Cristo seguiu intercedendo junto ao Pai por ela e por todos nós. Siga lendo o restante do capítulo e você perceberá que depois da cura, veio novamente a busca pela intimidade com o Pai. Jesus nos sustenta com suas orações eternas de João 17. Você se torna eternamente responsável pela vida que você toca. Para bem ou para mal. Faça ser para o bem. Ao curar a sogra de Pedro, Jesus interferiu na dinâmica de uma casa doente e dali pôde tirar um líder que seu povo precisaria. E esta igreja? Como é que ela atua depois que o culto acaba? 

Comentários

  1. Bênção essa palavra. Muito edificante.
    É o que a Igreja do Senhor Jesus precisa entender e colocar em prática!

    Abraço

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