Por que você precisa de um novo nome? (Apocalipse 2.17)

Em Apocalipse, Jesus promete um novo nome para os vencedores. Essa promessa, vinda do Senhor, deve ter um significado especial, ainda mais no contexto de perseguição que as pessoas daquele tempo sofriam. Nós temos a tendência de nos agarrar às nossas coisas e o nosso nome é uma delas. Entendemos que, de alguma forma, nosso nome nos define. Por que Deus quer mexer em algo que é tão inerente ao nosso ser?
O escritor Goethe, percebendo essa realidade, escreveu: “O nome de um homem (sic) não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem”. Então, se arrancar nosso nome faz tamanho estrago, por que quereria Deus fazer justamente isso e – pior, num primeiro momento – fazer isso como um prêmio ao vencedor?
Vamos ver isso conhecendo um pouco acerca de como os judeus entendem o nome. Para eles, os nomes são dotados de grandes e profundos significados. Na cultura bíblica, a prerrogativa de nomear os filhos era normalmente da mulher, exceto nos casos em que o nome fosse dado por revelação divina (Eva nomeia Caim em Gênesis 4.1; nomeia Seth em Gênesis 4.25; a escrava Agar recebe de Deus o nome de Ismael para dar ao filho que tivera com Abraão em Gênesis 16.11; Lia e Raquel, esposas do patriarca Jacó, nomeiam a todos os seus filhos, inclusive os das escravas; Maria recebe do anjo a incumbência de colocar o nome de Jesus em seu filho, conforme Mateus 1.25 e Lucas 1.31; em Lucas 1.60, Isabel exerce seu direito de escolher o nome do filho; entre outros exemplos).
Gerhard von Rad (1986, p. 188) entende que há uma relação profunda e indissociável entre o nome e seu portador. O portador existe no seu nome e no nome se reconhece a essência de quem o porta. E, ainda, “os judeus acreditavam que primeiro deviam conhecer o nome de uma pessoa antes que pudessem conhecer a própria pessoa” (TENNEY; PACKER; WHITE JR, 1988, p. 44). Tércio Machado Siqueira ressalta que, “sobre a importância do nome, a Bíblia adverte: o que não tem nome não existe (Ec 6.10); o homem sem nome é vil e desprezível (Jó 30.8); o nome deve mostrar a qualidade de quem o carrega (1Sm 25.25)” (SIQUEIRA, 2005, p.111).
Há muitas sagas vétero-testamentárias em que o nome do personagem ocupa lugar de destaque no desenrolar da trama. Há maldições bíblicas que incluem o esquecimento do nome e que eram rogadas sobre inimigos em tempos de combates.
A escolha dos nomes no contexto judaico é também um marcador identitário. Pode estar relacionado a alguma história da família, a algum evento em torno da concepção ou do nascimento, a uma memória que liga a criança ao seu povo, tradições e religião. Um exemplo da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) foi quando os filisteus capturaram a arca da aliança e uma mãe estava concebendo. Ela deu à criança o nome de Icabode; que quer dizer: “Foi-se a glória [cabode] de Israel” (conforme 1 Samuel 4.21).
Há também autores que ligam o nome de uma pessoa à sua herança de família, ao reconhecimento de pertencer a um povo. As pessoas que trocassem de nome perderiam seu lugar social, sua herança no meio da família e seu espaço na tribo ou povo.
2. Por que, então, Deus muda o nome de uma série de pessoas importantes na trajetória bíblica? Primeiro, porque Deus pede que eles rompam com sua história anterior de vida. Abraão, em Gênesis 12, é chamado a sair para fora de sua terra, de sua parentela. Ele teria de abrir mão de qualquer coisa que o fizesse voltar, como reclamar uma herança familiar, por exemplo. Sarai também abriu mão de sua herança familiar quando saiu de sua casa com Abrão e ambos passaram a ser Abraão e Sara. Paulo, ao deixar de ser Saulo, perdia seu lugar de fariseu influente, de mestre dentro do Judaísmo, para ser “apóstolo dos gentios”. Jacó, por sua vez, teve seu nome mudado para que ele pudesse ser livre para liderar seu povo a partir de outros valores, que não a enganação e a trapaça.
Então, como para o judeu o nome significa o que a pessoa é, não há outro jeito de mudar, senão trocando seu nome, passando a ser conhecido por outra coisa diferente. Desde que você aceitou a Jesus como Senhor e Salvador pessoal, como as pessoas têm reconhecido você? Há coisas com as quais precisa romper definitivamente. Deus não quer lhe dar um apelido, alguma coisa que você pode ser chamado quando interessa ou descartar por outro. Deus quer lhe dar um novo nome, uma nova identidade... Como é possível que isso aconteça de fato? Por meio da conversão!
2. Deus dá a Abraão uma nova visão antes de mudar o nome dele (Gênesis 12). Ele seria o pai de uma grande nação, de um grande povo. Teria de aprender a parar de pensar pequeno e tentar achar herdeiro por si mesmo, quer o servo Eliezer, quer Ismael. Assim, Deus muda nossa identidade para nos ensinar a negar a nós mesmos e à nossa forma de resolver as coisas. Veja quanta trapalhada Abraão faz antes de obedecer e aguardar no Senhor. Como Deus vai mudar nossa vida se estamos constantemente olhando para o lugar de onde saímos? Se temos recaídas em nossa fé? Se queremos agradar a Deus e ao mundo ao mesmo tempo?
3. Deus luta com Jacó e o obriga a enfrentar seus pecados e a encarar alguém ao invés de agir por estratagemas, antes de mudar o nome dele. Jacó pegou uma bênção que não era dele, enganou o sogro para enriquecer e também foi enganado para se casar com Lia, contra sua vontade e certamente a vontade dela. Tudo isso gerou grandes dores para os três envolvidos na história. Ele também enganou o irmão e os laços familiares se romperam de forma dramática. Deus muda nosso nome para nos ensinar um novo caráter, novas atitudes e uma postura de santidade que O agrada. Como é que Deus iria levantar um povo santo tendo um patriarca mentiroso, enganador e bom vivant como Jacó? Como Deus vai mudar nossa igreja se nós ainda carregamos conosco práticas de nosso antigo viver?
4. Deus faz Paulo cair do cavalo; o deixa cego por três dias, para que ele aprendesse a depender dos outros e não mais de si mesmo, antes de mudar o nome dele. Para que neguemos nossa sabedoria, nossa ciência, nossa vontade e acatemos o valor de Deus para nossa vida. Paulo afirma que considerava tudo o que tinha obtido antes como “lixo, perda, como algo podre e fedido” por amor a Cristo. Eu gosto demais de estudar, quero aprender, quero me qualificar... mas isso eu sei que é suficiente para mim mesma, para o mercado de trabalho talvez, mas jamais para Deus... Ele quer conhecimento com entrega, sabedoria com santidade, informação com pureza, consagração e serviço! Sem unção, o conhecimento não acrescenta, só ensoberbece. Mas aqueles que se preparam para servir a Deus melhor e usam seu conhecimento para o serviço aos demais, como Paulo fez marcam gerações! Ele falava várias línguas, ele conhecia as leis dos romanos, ele escreveu muitas e muitas cartas... ele colocou sua sabedoria debaixo da unção divina e isso fez toda a diferença até os dias de hoje! Como Deus vai nos usar se não colocamos nosso melhor para ele? Se não nos aperfeiçoamos para servi-lo? Ou se, arrogantemente, usamos nossa sabedoria para oprimir, manipular e dominar os outros?
Deus quer nos dar um novo nome – uma nova identidade – porque ele está mudando nosso caráter, nossa mentalidade, nossa visão sobre as coisas (todas elas). Ele está mudando o nosso nome porque quer que sejamos novas criaturas, anunciando um novo evangelho: a salvação em Cristo – para um mundo que só conhece a velha notícia de que tudo vai de mal a pior.
Você vai ficar com seu velho nome, seu velho jeito de ser, sua antiga identidade e herança? Ou, apesar da dor que Goethe diz que sentiremos quando nossa carne for atingida pela mudança necessária, você quer que Deus mude você para ser à imagem e semelhança dele?
Termino contando a vocês uma história. Ela é parte do livro: O peregrino da alvorada, de C. S. Lewis e faz parte da trilogia: Crônicas de Nárnia. Um menino, chamado Eustáquio, por causa de magia, havia se tornado um dragão. Ele queria voltar a ser humano, mas não poderia fazer isso sozinho. Então que Aslam (o leão, uma alegoria de Jesus na história) aparece e o leva a um lago. Então, eis o que acontece:

"Finalmente chegamos ao alto de uma montanha que eu nunca vira antes, no cimo da qual havia um jardim. No meio do jardim havia uma nascente de água. Vi que era uma nascente porque a água brotava do fundo, mas era muito maior do que a maioria das nascentes – parecia uma grande piscina redonda, para a qual se descia em degraus de mármore.
Nunca tinha visto água tão clara e achei que se me banhasse ali talvez passasse a dor na pata. Mas o leão me disse para tirar a roupa primeiro. Para dizer a verdade, não sei se falou em voz alta ou não. Ia responder que não tinha roupa, quando me lembrei que os dragões são, de certo modo, parecidos com as serpentes, e estas largam a pele. “Sem dúvida alguma é o que ele quer”, pensei. Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados.
Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. “Está bem”, pensei, “estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la”. Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho.
E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele.
A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado como um frango depenado e muito menor do que antes.
Nessa altura agarrou-me – não gostei muito, pois estava todo sensível sem a pele – e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente." (texto retirado do livro "Viagem do Peregrino da Alvorada" do autor C.S. Lewis)


Um velho nome é uma velha forma de viver. Uma velha pele na qual o novo de Deus não pode entrar. Maquiagens e documentos falsos não resolvem. É preciso SER uma nova criatura. Só o Leão de Judá por fazer isso, por meio de seu sangue. A questão é: vamos aceitar os processos pelos quais Deus vai fazer isso em nossa vida? Ou vamos querer enganar, usando aparências? Ao fim do dia, a escolha é sempre nossa. Mas a história do Reino de Deus só conhece a trajetória daqueles que largaram o que eram, para se tornar o que Cristo é. 

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