Globalização, fé e culturas



O advento da globalização nos coloca diante de um novo sentido para a vida e, por conseguinte, para a fé. Recentemente, li um texto de Ricardo Gondim, no qual ele falava da importação de modelos para as igrejas brasileiras. Ele enfatizava, especialmente, a maneira como perdemos nossa riqueza quando abrimos mão de nosso jeito de ser, adotando posturas, discursos e modelos exteriores à fé brasileira.
De fato, quando os americanos chegaram ao Brasil, trazendo a fé evangélica de modo mais contundente que outros povos protestantes que por aqui passaram (como os ingleses), o impacto do “american way of life” era ainda muito restrito. O povo brasileiro era grandemente analfabeto, não havia internet, nem comunicações via satélite. Mas hoje, vivemos hoje uma nova era (opa, cuidado com esses termos!) de missões e de colonialismo.
Com uma televisão baseada em filmes americanos, as crianças abandonam as tradicionais histórias e folclores brasileiros, que ao menos sedimentam uma cultura própria, para cultivar valores alheios. As escolas de inglês, por exemplo, andam nos prestando um desserviço que nada tem de lingüístico. Em novembro, enfeitam-se com os adereços do Halloween e nos convidam a celebrar uma festa que nada tem a ver conosco. Em que pesem os problemas religiosos da origem dessa festa, o que me vem à mente é a colonização intelectual. Se é para cultivarmos valores folclóricos, melhor seria o Saci Pererê do que bruxas e vassouras voadoras. Pelo menos, é mais brasileiro. Tem a cor da nossa pele, a textura do nosso cabelo, e o que é melhor, fala a nossa língua.
De modo algum quero ser uma pessoa fechada às novas influências, ou parecer aos leitores e leitoras uma fanática patriota. Não é nada disso. Apenas penso que podemos aprender com os outros sem abrir mão do que somos. A globalização, em muitos aspectos, tem sido a americanização do mundo, a uniformização dos diferentes, a pasteurização da riqueza étnica, cultural, religiosa e tudo o mais que Deus colocou no mundo. Nossa cultura tem sido sistematicamente aprisionada por modelos importados: não se fala mais em babá, mas baby-sitter; não se fala lanche, mas McDonalds ou fast-food; incorporamos ao dia-a-dia tecnológico expressões como “deletar” (ao invés de apagar); “webdesigner” (ao invés de produtor de páginas para internet. Aliás, Internet!).
O mesmo acontece em relação à fé. Ao percorrer as livrarias evangélicas, o que mais vemos são autores americanos passando receitas de como fazer nossa igreja crescer. Mas eles não conhecem nossas favelas, não se alimentam do nosso pão com manteiga; não pisam o solo seco dos nossos cerrados. Modelos puramente importados não poderão responder às demandas de nossa gente. Temos de ver com olhos próprios. Podemos interagir, sim, com outras idéias, mas não simplesmente abrir mão de nossos próprios pontos de vista. Afinal de contas, se a gente sempre diz que Deus é brasileiro...

Comentários

  1. Foram muito bem colocadas essas questões.Temos de repensar a nossa tendência de reproduzir e supervalorizar a cultura americana em detrimento da nossa.

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