A parábola da grande família

Era uma vez uma grande família, formada por pessoas de muitos jeitos diferentes e vindas de muitos lugares. Em comum, eles tinham uma forma de ver o mundo a partir dos olhos de sua fé. Eles faziam várias coisas diferentes e tinham muitos talentos. Era uma inspiração ver como tinham capacidades e delas faziam uso com alegria e regularidade.
Um dos momentos mais importantes da vida em comum desta família era quando se reuniam para comer. Entretanto, esse que era para ser um momento muito prazeroso, começou a se tornar complicado. É que havia muitas divergências quanto à forma, ao horário, à maneira de comer e muitas outras regras que começaram a surgir e até mesmo interferir no gosto da refeição. Eu vou explicar como tudo acontecia.
Havia os que pensavam que a refeição era só deles: Quando chegavam os parentes de outros lugares para participar da hora da refeição, eles escondiam os alimentos, deixavam para se alimentar em outra hora ou até diziam abertamente que os parentes de outros lugares não podiam participar, só os que comiam naquela casa. E assim, apesar de serem da mesma família, ficavam separados, uns comendo e outros com fome, diante da mesma mesa farta.
Havia os que pensavam que as crianças não podiam sentar-se à mesa: Naquela casa, apenas os adultos podiam ter a honra de sentar-se à mesa para comer. As crianças ficavam ao redor, olhando e imaginando o gosto do alimento. Algumas vezes, depois que todos comiam, as crianças podiam ter acesso ao que havia sobrado. Mas nem sempre era assim. Então, os pequeninos ficavam sempre com fome do alimento e do carinho.
Havia os que pensavam que podiam comer de qualquer maneira. Sem pensar sobre a importância daquela refeição especial e do sentido original que ela trazia, enquanto uns proibiam tudo, outros não refletiam. Apenas comiam e bebiam como se fosse um evento corriqueiro, uma festa no parque, um restaurante popular. Esqueciam que aquela refeição trazia em si o sentido de família como nenhuma outra, e lembranças de um irmão mais velho, cujas ordenanças para o bem-estar da família foram, pouco a pouco, sendo esquecidas. Sem perdão, sem respeito, sem amor, sem pureza de coração, sem unidade, sem o toque especial da fé e da esperança, comiam esses. E, por mais que seus corpos estivessem satisfeitos, seus corações permaneciam famintos, esqueléticos, anêmicos e doentes. Por isso, não podiam ser felizes.
Havia os que pensavam que a refeição era mágica: Sem entender o que o irmão mais velho lhes contara a respeito do valor da refeição, havia os que pensavam que a comida virava outra coisa cada vez que comiam. E ela ficava tão carregada de superstição que, ao invés de alegria, provocava medo. Em vez de respeito, provocava terror. Em vez de amizade, provocava julgamento. Sem gosto e sem substância, a refeição virava um ritual e não um evento. E como a magia não resiste à verdade, aos poucos alguns entre eles deixavam de pensar sobre o valor da refeição e, por isso, comiam mecanicamente ou com o coração cheio de pesar. Haviam perdido o verdadeiro milagre que a refeição prometia lhes trazer.
Havia os que deixavam para comer somente depois de lavarem as mãos. Mas nunca as lavavam. Sim, alguns se achavam indignos da mesa e da alegria familiar que ela representava. Desta forma, embora estivessem em casa e a mesa estivesse diante deles, eles nunca comiam. Diziam que iam lavar as mãos primeiro, para estarem devidamente limpos. Mas jamais se apressavam, mesmo sabendo a hora da comida. E a hora passava. E eles continuavam com as mãos sujas e os estômagos vazios. Com o tempo, ficavam tão acostumados a comer besteiras e bobagens na rua, que a comida especial da casa já nem lhes fazia falta e a poeira das mãos nem incomodava tanto. Esses são aqueles que perderam o sentido de suas vidas e do valor de estar juntos diante de uma mesa e de uma refeição tão especial.
E também outros havia, para os quais a refeição tinha pelo menos, três sabores muito especiais...
Para estes, a refeição tinha gosto de família.
Dela participavam todos aqueles que aceitavam os ensinos do irmão mais velho e do verdadeiro Pai, um pai cuidador e amoroso, que tudo fazia por seus filhos e filhas. Para estes, a refeição era um dos momentos mais particulares para estar juntos. Aproximavam-se da mesa com uma alegria quase incontida. Sentiam prazer em partilhar o sabor do alimento e da vida que ele significava. Entendiam que o fato de comerem juntos fazia deles uma família verdadeira, mais do que qualquer outro laço que tivessem entre si. Por isso, tinham pela refeição grande respeito e a vivenciavam como uma experiência única. Era um sinal de fraternidade, de unidade e que os identificava entre quaisquer outras famílias em toda a terra!
Para estes, a refeição tinha gosto de vida, da presença real do irmão mais velho. A refeição não era especial porque os alimentos assumiam outras formas ou sabores, mas porque, a cada vez que se reuniam para comer, os membros da família lembravam os ensinos, viviam a experiência viva e sentiam que o irmão mais velho estava, de fato, entre eles, como em tempos antigos. Por isso, aquela refeição tinha um caráter sagrado, insuperável, imutável e tinha o poder de fazer com que eles se tornassem um só. Qualquer diferença poderia ser superada se ao menos eles pudessem comer juntos com o sabor da vida nova. Qualquer problema poderia ser vencido se fossem capazes de partilhar o alimento e partilhar o coração. A presença viva do irmão entre eles, a graciosidade e amor do Pai cuidador, tudo isso podia ser vividamente sentido enquanto comiam e bebiam.
Para estes, a refeição tinha gosto do futuro. Comer aquela comida era uma garantia de que uma nova refeição viria no dia seguinte. Era uma prova viva de que tudo o que haviam aprendido como família valia a pena e poderia ser passado adiante. Ademais, quando aprenderam a comer aquele alimento, o irmão mais velho, que agora vivia distante deles, havia lhes ensinado a receita da vida alegre e havia feito uma promessa: “Repitam essa receita, comam e bebam desse alimento. Eu tenho de ir agora, mas um dia eu voltarei. Até lá, não vou comer dessa mesma comida de novo, porque vou esperar ansiosamente para comer junto com vocês”. Comer com gosto de quero-mais é a melhor coisa que existe! E eles sentiam a cada vez o gosto de querer mais a volta do seu irmão, o gosto de ver a família completa, o gosto de ver as dificuldades vencidas.
E com o gosto bom da comida que simbolizava sua unidade, que atualizava a presença do seu irmão distante e que tinha o gosto da promessa futura, esses aproveitavam o que a comida tinha de melhor. Levantavam-se da mesa satisfeitos e alimentados. Nutriam a saúde do corpo, do coração e da alma. Eram capazes de ultrapassar obstáculos diante dos quais muitos outros desistiriam. E tinham um senso de família tão intenso que não permitiam que nada no mundo atrapalhasse seu amor e sua comunhão. E cada vez que comiam, ficavam ansiando pela próxima refeição. Mas não pensem que faziam isso porque eles eram gulosos e comilões! Longe disso! É que uma das coisas que eles mais apreciavam era poder servir uns aos outros enquanto comiam. Essa era uma parte muito especial da refeição e eles jamais abriam mão dela! Assim garantiam que ninguém passaria fome, enquanto pudessem partir um pedaço a mais de pão e repartir um pouco mais de vinho...
Hoje, há uma mesa aqui, diante de nós. Que papel desempenhamos nesta história? De que maneira comeremos?

Revda. Hideíde Brito Torres
Outubro/2007

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