O céu é ainda é pouco

Há muitos anos, uma amiga minha disse: “Eu não sei porque o céu tem que ter ruas de ouro... Eu preciso de dinheiro é aqui!”. Na época, eu achei uma grande heresia e atrevimento as palavras dela. Mas agora, estou tendendo a concordar... Não com a frase, mas com a idéia que ela sinaliza. A idéia de que esperar pelo futuro não é o bastante. A idéia de um céu perfeito enquanto este mundo, criação do Deus amoroso, se desmorona sem que eu faça algo a respeito, parece-me anti-bíblica, anti-profética, anti-messiânica, anticristo.
Eu sei, eu sei que “o mundo jaz no maligno”! Mas acredito que quando o autor bíblico escreveu isso foi justamente no inconformismo próprio da fé na ressurreição. Se o mundo jaz – está deitado, morto, sepultado no maligno – necessário se faz pô-lo de pé.
Mundo, vem para fora! Sai da caverna da morte, desata-te das ataduras da impiedade!
Até quando, Senhor? Quero ver o céu hoje, se não em plenitude, ao menos em sinais! Que eu posso fazer, sob o poder do teu Espírito, para que não haja mais políticos que se escondem atrás do voto secreto, quando, como meus representantes, deveriam me dar detalhes do que fazem? Até quando pessoas serão arrastadas pelas ruas em carros roubados por adolescentes? Até quando os filhinhos de papai de Brasília baterão nas pessoas pelas praças impunemente, só por diversão, como se a vida nada valesse? Diga-me, Senhor, o que eu posso fazer? O que queres que eu faça? Sim, porque apesar de tudo, do sentimento nacional de que é assim mesmo, eu sei que ainda há algo que se possa fazer... Eu sei que o meu redentor vive...
Quero o céu agora, Senhor! Quero o sentimento da justiça “correndo como ribeiros” pelo sertão nordestino, porque a indústria da seca é uma fonte, um manancial de dinheiro para uns poucos... Quero erguer minha voz pelas praças, ainda que ela seja fraca, porque o silêncio é o que dói mais. Disse o pensador que para que o mal triunfe basta que os bons não façam nada. Eu quero estar entre os bons. Mas não quero sentir que estou inerte. Quero ser considerada entre os que amam a justiça, mas mais ainda entre os que a praticam. Quero ser profética, não na veneração, na adoração, nos cânticos enebriantes tão somente. Quero agir profeticamente, não apenas sentir.
Eu quero o céu com as ruas de ouro, Senhor! Eu me embalo na imaginação das belezas futuras. Quero ver o mar de cristal – a vida sem mistérios, desvendada, sem razões para ter medo. Só não quero ter de esperar tudo isso só no céu. Não quero fechar meus olhos neste mundo levando como últimas imagens a morte, a dor, o abandono, o aborto, a licenciosidade, o pecado, o egocentrismo... Quero levar nos olhos a fé, a esperança, o trabalho sério de gente séria, a salvação que faz fluir do interior das pessoas, hoje e agora, o que de melhor puseste em nós quando nos criaste.
Será que estou delirando, Senhor? Perdi o senso? Oh, faze-me voltar, se assim o for... É que tenho na alma a imagem dos profetas que profetizaram sobre o paraíso, mas também puseram as mãos à obra para fechar as brechas dos muros... Vejo aqueles que falaram das delícias divinas do céu, mas tiraram a morte da panela dos pobres... Aqueles que consolaram mulheres estéreis e, neste mundo desértico, as fizeram abraçar seus filhos...
Quero chegar ao céu com uma vida cheia de realizações aqui nesta terra. Coisas que tu disseste que eu faria: falar diante das autoridades a respeito de um reino diferente; curar os enfermos; libertar os endemoninhados; consolar os tristes; libertar os cativos... Maravilhas da vida abundante que só são possíveis porque há flagelos neste mundo. Ações desnecessárias no céu, fundamentais na terra. Quero chegar lá com o sentimento do dever cumprido, para olhar o céu com olhos de deslumbramento. Não quero ter arrependimentos lá, Senhor. Jamais quero pensar: “Será que alguém mais não está aqui porque eu deixei de fazer a minha parte?”

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