Três ministérios na vida de Jesus: a manjedoura, o barco e a cruz

A madeira é a base sobre a qual muitas coisas são construídas. Olhando o ministério de Jesus, podemos encontrar o símbolo da madeira presente em, pelo menos, três momentos marcantes. Quero refletir sobre isso considerando o tema do culto de hoje e também o momento litúrgico que estamos vivendo, o Advento, em preparação para a chegada do Natal...

Primeiro símbolo: a manjedoura
Maria “teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem” (Lucas 2.7). A manjedoura recebeu Jesus em sua chegada a este mundo. Quando todas as placas dos hotéis, pousadas e hospedarias diziam: “Não há vagas”, a manjedoura cedeu a dureza de seus contornos e a maciez rude de seu capim para acolher e aquecer o Deus menino que nasceu.
O que a manjedoura ensina para nós? A doação, a entrega, a adaptação à necessidade do outro, a acolhida e o afeto. Jesus disse, certa vez: “Cada vez que fizerdes a um desses meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”(Mateus 25.40). Quando a Igreja observa o papel da manjedoura no ministério de Jesus, é chamada a também abrir-se para acolher as vidas para as quais “não há lugar” e “não há vagas” neste mundo. Pessoas desiludidas, que não encontram seu espaço nesse mundo e nessa sociedade perniciosa e malvada na qual vivemos, devem encontrar sempre lugar na Igreja. Aqui elas devem ser envolvas em faixas de amor, aquecidas pelo carinho e pela partilha verdadeiras, devem encontrar conforto e acolhida. O mundo quer oferecer luxo a quem pode pagar por ele, mas a Igreja, como a manjedoura de Cristo, quer oferecer segurança e conforto, mesmo da maneira mais simples, para aqueles que não podem pagar nenhum preço, mas cujas vidas são as mais valiosas, porque são, como Jesus e como nós, igualmente “filhos e filhas” amados do Pai celeste. Jesus exerceu esse ministério de acolhida em sua vida: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28) e nos convida a fazer o mesmo. Nós somos hoje a manjedoura de Deus na qual o mundo é convidado a deitar-se e receber cuidado, afeto, amor e vida eterna!

Segundo símbolo: o barco
O barco, igualmente feito de madeira, esteve presente inúmeras vezes no ministério de Jesus. Seus primeiros discípulos eram pescadores, para os quais o barco era um meio de sobrevivência (Mateus 4.18). Num barco, Jesus pregou às multidões (Marcos 4.1). Muitos milagres foram realizados quando Jesus estava num barco: Pedro andou sobre as águas (Mateus 14.29); a tempestade foi acalmada (Mateus 14.32; Marcos 4.37, Marcos 6.51); os peixes foram pegos em abundância (Lucas 5.1-7; João 21.11). O barco é um canal, um veículo pelo qual Jesus se deslocava de um lugar ao outro. Levando Jesus, o barco levava os milagres, as palavras de poder, a presença de Deus de um lugar para outro. A Igreja não transporta a si mesma, mas ela transporta Cristo em sua mensagem, em seu modo de ser, nas ações que realiza, nos cultos que celebra. A Igreja deve ser como esse barco que, silenciosamente navega, sabendo o poder de quem a conduz. A Igreja deve ser o barco que leva Jesus ao encontro de pessoas oprimidas, como o gadareno: Jesus saiu do barco e o libertou (Lucas 8.27-37). A Igreja deve ser capaz de passar pelas tempestades que a rodeiam, levando as vidas em seu interior com segurança, pois Jesus está dentro da Igreja, operando com poder, e jamais permitirá o naufrágio deste empreendimento (Marcos 6.51).
Cada um de nós é parte desta madeira, desta construção que é o barco chamado Igreja. Cada parte é igualmente importante para o equilíbrio, a segurança e a eficiência deste meio de graça, deste veículo de bênçãos, que transporta o mestre dos mestres... Por isso mesmo, devemos viver integralmente a vida de Cristo, que modo que não permitamos jamais a corrupção, o desalinho, o descuido para com este barco, pois ele transporta o mais importante dos tesouros: a Palavra viva do Senhor. Como barco de Cristo, a Igreja sinaliza nos mares da vida a chegada da palavra que salva, do milagre que faz nascer a fé, dos sinais e maravilhas que tornam a vida possível! Grande sinal é este: somos o barco de Deus!

Terceiro símbolo: a cruz
A cruz, cuja madeira recebeu sobre si o sangue de nosso Salvador, é o terceiro símbolo que quero abordar nesta noite. Não é possível contar a história de Jesus sem passar pela manjedoura, pelo barco e pela cruz. A cruz sinaliza a redenção de toda a humanidade. A cruz representa a morte do pecado. Representa um ponto final na história de separação entre o ser humano e seu criador: “Está consumado!” (João 19.30). Não há cristianismo sem cruz: “Aquele que quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a cada dia a sua cruz e siga-me!” (Mateus 16.24). A cruz significa que a nossa vida mudou de parâmetros, de valores e de circunstâncias, como disse Paulo: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gálatas 6.14). A cruz é a ponte que atravessamos para chegar a Deus, porque “havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliou consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus” (Colossenses 1.20).
A Igreja exerce seu ministério sinalizando a cruz. Por isso ela está em nossos altares, em nossas Bíblias e até no símbolo de nossa igreja, porque a cruz vazia nos mostra o alto sacrifício de Cristo e aponta para cima, para o céu, para a ressurreição, para a vitória sobre o diabo e sobre o mal. Paulo mesmo afirma: “tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz” (Colossenses 2.15).
Não há igreja nem evangelho sem cruz. Certa vez, li no No Cenáculo um testemunho a respeito de um homem que visitou uma igreja em reforma. O teto tinha uma cruz de madeira de um lado a outro, bem diferente na nova arquitetura que foi proposta. Ele perguntou ao engenheiro responsável: “Por que não tiram essas madeiras antigas, já que tudo está sendo modificado?” O engenheiro respondeu: “Se tirarmos a Cruz, toda a igreja virá abaixo. O teto se sustenta sobre a cruz, porque assim a igreja foi projetada. Essa história está sempre em minha memória: “Se tirarmos a cruz da Igreja, ela desaba! Que palavra profética!
A cruz é o anúncio da vida eterna. As pessoas erguem seus olhos para a cruz e são atraídas a Jesus, pois ele disse: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer” (João 12.32-33). Assim é a Igreja, sinalizando Cristo, apontando a salvação, mesmo que incompreendida: “Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Coríntios 1.18). Grande sinal é este: pela cruz, mostramos o Cristo vivo!

Conclusão: Igreja, manjedoura que acolhe. Igreja, barco que leva a palavra, os sinais e os milagres. Igreja, cruz que aponta a salvação e sinaliza Cristo. Madeira, não de lei, mas de graça; tábua de salvação; arca da aliança, esculpida por Deus para levar seu tesouro precioso – a vida eterna em Cristo. Cumpramos por fé este chamado, deixando Deus entalhar sua palavra em nossa vida, família e ministério. Sejamos sinal, como a cruz, o barco e a manjedoura...

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