Sobre as tempestades da vida

Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar. E tomando um barco, passaram para o outro lado, rumo a Cafarnaum. Já se fazia escuro e Jesus ainda não viera ter com eles. E o mar começava a empolar-se, agitado pelo vento rijo que soprava. Tendo navegado uns vinte e cinco a trinta estádios, eis que viram Jesus andando por sobre o mar, aproximando-se do barco, e ficaram possuídos de temor. Mas Jesus lhes disse: Sou eu. Não temais! Então, eles de bom grado, o receberam, e logo o barco chegou ao seu destino. (João 6.16-21)

Os discípulos desceram para o mar
Os discípulos eram pescadores acostumados a navegar no lago de Genesaré ou Mar da Galiléia. Apesar de ser chamado de mar pelos evangelistas, era um grande lago de água doce, que até os dias de hoje é uma importante fonte de peixe para o povo da região. Sete dos doze discípulos eram pescadores (Pedro, André, Filipe, Tiago, João, Tomé e Natanael). Portanto, a experiência de mar ali era larga. Mesmo assim, a tempestade os surpreende.
O evento acontecido com os discípulos se reproduz em nossas vidas. Também achamos que conhecemos os caminhos pelos quais queremos trilhar. Fazemos planos. Traçamos alvos e objetivos. Até nos preparamos para isso. Sabemos onde queremos chegar. Só não contamos com o inesperado, com o surpreendente, com o acaso, com a tempestade que não marca dia nem hora para chegar.
Os discípulos tinham colocado para si mesmos um propósito, pelo qual estavam remando a cerca de 5km da margem do lago, mais ou menos na metade do percurso. Jesus tinha se retirado para o monte, a fim de orar e os discípulos decidiram voltar a Cafarnaum, depois de terem passado um período do outro lado, na região de Genesaré. Se você pegar um mapa bíblico da Palestina na época de Jesus, vai perceber que o tal “Mar da Galiléia” nem é um lago assim tão grande. Ele é bem menor do que o Mar Morto, por exemplo.
Mas nas regiões áridas e semi-áridas como aquele local, o vento pode surpreender em sua força. Então um copo d’água, de repente, pode se tornar um grande inimigo. Foi o que aconteceu. O lugar, tão conhecido, de onde os discípulos retiraram seu alimento e seu peixe de cada dia, seu local de trabalho, ficou desconhecido, mudado pelas condições climáticas adversas. Esse elemento-surpresa desestabiliza a navegação. O destino, antes tão próximo, fica espetacularmente distante. E as condições ao redor não ajudam em nada...
Já se fazia escuro...
A noite tem um efeito dilacerador sobre nós. A escuridão tem o poder de nos deixar vulneráveis. As sombras projetam nossos medos e os materializam diante de nossos olhos em fantasmas que nos observam, nos sondam. Como ocorre com as crianças, que têm medo do monstro no armário, nós, adultos, também ficamos atemorizados ao cair da noite. Podemos perguntar a qualquer voluntário desses projetos de ajuda via telefone, que ele vai confirmar: à noite, as chamadas aumentam muito.
Quando está escuro, não podemos confiar em nossos olhos. Os sons aumentam em nossos ouvidos. Tudo fica silencioso, portanto, qualquer barulhinho nos assusta. Os discípulos, provavelmente, não viam nada. Naquele tempo, não havia grandes prédios iluminados como hoje. Portanto, a margem do lago poderia estar perto, mesmo assim, eles não a veriam, pois não havia casas iluminadas em quantidade, nem construções tão altas que pudessem ser vistas à distância, ainda mais em meio a uma forte chuva. A noite se tornava mais aterrorizante, assim.
Em nossas vidas, mais do que um fenômeno da natureza, a noite pode ser um estado de espírito. Sempre relacionamos o sol, o dia, com a alegria, o prazer, a exuberância. Mas a chuva parece ter a capacidade de nos deixar mais melancólicos. A noite nos lembra o silêncio e a solidão. Assim, é possível que esteja um belo dia lá fora, mas nossos olhos só enxergam em cinza. Nessa hora, pequenos temores ou sentimentos mal-resolvidos podem se agigantar. O sofredor Jó nos relata assim a sua experiência com a noite: “Como o escravo que suspira pela sombra e como o jornaleiro que espera pela sua paga, assim me deram por herança meses de desengano e noites de aflição me proporcionaram. Ao deitar-me, digo: quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama, até à alva” (Jó 7.2-4).
E o mar começava a empolar-se, agitado pelo vento
A agitação do mar tira o equilíbrio dos discípulos. Eles somam ao seu medo a instabilidade de sua embarcação. Se o barco se rompe, eles sucumbem dentro do mar. Agitados de um lado para o outro, sentem sua cabeça girar; o estômago, resistente às reviravoltas do lago, de repente se encolhe pelo medo; os olhos procuram com aflição um outro barco, no qual Jesus possa estar vindo ao seu socorro. Mas nada acontece. Eles usam todos os seus conhecimentos tentando vencer o mar, mas é inútil.
A cultura dos judeus e de seus vizinhos sempre viu no mar um lugar de caos, de medo, de monstros desconhecidos. Tanto que, em sua narrativa da criação, os judeus dizem que o espírito de Deus se movia sobre as águas. Antes de haver mundo, havia o desconhecido, as águas em quantidade... E Deus se movia sobre ela. Quando ele começa a criar, faz uma separação entre a terra e as águas. O ajuntamento das águas, Deus chamou de Mares.
Quando o povo estava escapando do Egito, quem estava lá para atrapalhar a fuga? O mar (Êxodo 14)! Quando Jonas quis fugir para Társis, quem interveio nos seus planos? Outra vez, as grandes águas (Jonas 1). Os judeus acreditavam que, de fato, a única coisa que podia deter o mar ou o monstro que nele estava é a força da mão de Deus (Jó 7.12; Salmo 89.9; Salmo 104.9). Mesmo assim, freqüentemente relacionavam a própria voz de Deus com os fenômenos da natureza (Salmo 29.3). Especialmente no Antigo Testamento, quando muitos acreditavam que Deus era extremamente rígido e poderia castigá-los a qualquer momento (de acordo com a teologia da retribuição: o bem Deus abençoa, o mal, Deus castiga), o mar se tornaria uma arma nas mãos do Poderoso. E assim, quem poderia resistir?
Da mesma forma que a noite pode se tornar um estado de alma, o mar também. Os salmistas foram os que melhor refletiram isso na Bíblia, demonstrando como as provações da vida poderiam se tornar como águas que querem submergir a nossa vida. No Salmo 42.7, o salmista afirma: “todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim”. E também Davi, em 2 Samuel 22.17, sentiu-se liberto de seus problemas como quem é tirado das “muitas águas”. A sensação de afogamento é extremamente aflitiva. No meio da água, somos entregues à morte. O desespero toma conta de nós. Quando a água entra em nossa boca, não podemos respirar. O peito dói. Essa sensação é a mesma de quando estamos muito tristes e deprimidos. O mar da vida, em revoltosa tempestade, nos assusta, pois somos impotentes diante dele.
Ele andou por sobre o mar!
Então, quando estavam no meio do lago, eles viram Jesus andando por sobre as águas. A figura tão conhecida de Jesus, turvada pela escuridão da tempestade e pelo medo dos discípulos, pareceu-lhes um fantasma. E eles ficaram cheios de temor. Quantas vezes os temores nos assaltam na calada da noite, no turbilhão de nossos sentimentos! E a gente se vê perdido no meio do oceano da vida. As pessoas que querem se aproximar de nós e nos ajudar são vistas com desconfiança. Achamos sempre que existe uma intenção por detrás dos gestos e quando mal percebemos, estamos possuídos de temor.
O medo tem levado as pessoas a se isolarem cada vez mais. Quem foi assaltado anda pela rua espreitando ladrões em cada pedestre distraído e inocente. Quem perdeu um grande amor vive sempre no receio de uma nova desilusão. Medo, medo, que aprisiona a alma em sentimentos negativos, que tira o brilho da vida!
Jesus nunca nos disse que não sentiríamos medo em momento algum de nossa vida. O medo é um dos sentimentos inerentes ao ser humano, isto é, faz parte de nós. Só não podemos deixar que ele nos domine. Por isso mesmo, Jesus entra em cena quando estamos exatamente no meio de nossas tempestades! Na hora em que o medo nos ameaça totalmente, quando estamos à mercê dos perigos, Jesus pronuncia as palavras que garantem a paz de nossa alma: “Não temais!”.
Sou eu! Não temais!
A expressão grega para “Sou eu” ou “Eu sou” é “Ego eimi”. É mais do que simplesmente o nosso “eu sou”. É uma expressão de caráter teológico. Equivale ao “Eu sou” que Deus disse a Moisés no monte Horebe, quando lhe apareceu no meio da sarça. É um “Eu sou” de plenitude, de absoluta presença e poder. O fato de Jesus “ser” é mais do que qualquer outra realidade. É mais do que o mar em tempestade, é mais do que o medo que nos assola. Jesus anda sobre o caos. Jesus caminha sobre o terror. Jesus está acima de tudo o que lhe causa medo. Ele é maior do que qualquer fenômeno da natureza, do que qualquer outro poder, seja terreno, seja celestial. Ele “é”!
No grego, Jesus diz: “Ego eimi. Mé fobeiste”. “Sou eu. Não temais!” A palavra para temor vem do termo “fobia”, que, em português, indica um medo descontrolado. Existem pessoas que têm fobia de altura, de engordar, de ficar no escuro, de ficar preso no elevador, de morrer. As fobias se tornaram a doença do nosso tempo, como a Síndrome do Pânico, por exemplo. O temor se torna tão descontrolado que a pessoa passa a viver em função de sua fobia. Em outras palavras, deixa de viver. Jesus, em sua presença absoluta e amorosa, diz: “Não precisa ter fobia alguma. Sou eu. Não se desespere. Não perca o controle de sua vida. Estou aqui”.
Jesus sempre vem!
Não precisamos nos descontrolar, mas nos descontrolamos. E fazemos isso porque ainda não temos a visão do todo, do pleno. O apóstolo Paulo mesmo diz: "Em parte conhecemos, em parte profetizamos." Em parte sabemos, em parte temos esperança. E, freqüentemente, acreditamos mais no que vemos do que naquilo em que se baseia a nossa fé. E como somos humanos e limitados, logo aquilo que vemos se torna insuficiente para nos controlar os temores e nos fazer andar um passo a mais. O encontro de Jesus com seus discípulos mostrou isso. Somente quando viram o vento calmo, seus corações pararam de saltar dentro do peito. Jesus esteve ali e realizou o milagre, mas os evangelistas atestam que ele disse aos seus discípulos: "Vocês têm uma fé muito pequena!" A caminhada com Jesus por sobre a terra tem que nos fazer suficientemente fortes para caminharmos também sobre as águas, isto é, a convivência com o Senhor nos momentos de alegria precisa também ser a nossa base ao atravessarmos as tempestades da vida. Porque não andamos pelo que vemos, mas por fé! (Romanos 8.24-27; 2 Coríntios 4.18)
Se o medo faz parte de nossa essência e limitação humanas, a fé vem de Deus para nós. A cada temor, eleve seu coração a Deus, confesse seus receios, tenha coragem de olhar para Ele, que é o seu salvador e que o ama. Entregue-se plenamente a Ele, sem duvidar, mesmo que não possa ver saída para a tempestade que lhe cerca. Mantenha os olhos abertos para ver: em meio aos raios e trovões, ele virá! E quando ele chegar, nada o impedirá de vencer a luta junto com você! E nesse momento, você perceberá que, na verdade, Ele sempre esteve ali...

Hideíde Brito Torres, Bacharel em Teologia pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Tem diversos livros publicados: "Socorro, Senhor: Pensamentos sobre a lamentação no Salmo 88"; “Quando falta alguém”, "Quando os salmos nos ensinam", 365 Dias com Deus (I e II), Ensina a criança (I e II) pela Editora Cedro.

Comentários

  1. Pastora, suas palavras têm me abençoado muito a cada dia. Apesar de não estar sempre em Cataguases sinto orgulho de ser pastoreada por pastores agraciados por Deus e tementes à Ele. Que possamos sempre enxergar nosso Salvador em meio às tempestades, e alcançarmos a paz.
    Amo vocês.

    Thaís Espíndola Fernandes

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