Contemplando a beleza da santidade (Salmo 96)

“Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou os aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus. (Confissões de Agostinho, II, X, 6).
Ricardo Barbosa de Souza, escrevendo na revista Eclesia, traz a citação acima de Agostinho. Logo me apaixonei por ela. As pessoas de hoje, que tanto desprezam a tradição e o passado, dizendo que “quem gosta de coisa velha é museu”, não têm mais olhos para apreciar que as verdadeiras riquezas da humanidade não estão nos galhos altos, muito embora cheios de frutos, mas nas raízes, que a tudo sustentam e a tudo tornam possível. Aqueles homens e mulheres, sejam do passado longínquo, sejam do passado recente, não eram pecadores que nada sabiam e que impediram o avanço do Evangelho. Eram pecadores tementes, fiéis, que tomaram as pedradas que hoje não nos ferem, que foram arrastados por cavalos que hoje não nos ameaçam. E foi a fé deles que nos possibilitou até mesmo a liberdade de falar as besteiras que muitas vezes falamos hoje...
Bem, desculpe-me o desabafo, mas é porque fui convidada a refletir sobre o tema mais fútil de todos os tempos para estas pessoas que, como disse o pastor Ricardo em seu belo artigo, estão “reduzindo a vida a esquemas produtivos” do tipo: “como fazer sua igreja crescer”, “como ser um ministro eficiente”, “como obter o melhor de Deus”, etc. Falar de beleza é falar de contemplação. E contemplar significa parar tudo o que estamos fazendo, simplesmente para olhar... olhar e encantar-se, olhar e absorver, olhar e dizer: “Que bonito”, sem pretensão extra, sem nada prático, senão deslumbrar-se. Se contemplássemos mais, falaríamos menos. E como isso seria bom, você não acha?

A beleza de cantar

O Salmo 96 fala de explorarmos os nossos sentidos na adoração a Deus. Ele fala do cântico novo, que para mim tem muito mais a ver com o espírito com que se canta. Mesmo uma canção nova, com espírito envelhecido, deixa de ser algo digno de admiração. A beleza de cantar surpreende. Foi como aconteceu com aquela cantora do show de televisão, que correu o mundo. As aparências enganam, não é? A gente se surpreende com tanta gente que tem a estética, mas não a ética. É belo, mas, ao abrir da boca...
O cantar para Deus, por outro lado, é belo porque inclui. Cantai ao Senhor “todas as terras”. É uma canção comunitária, uma canção de abençoar: “bendizei o seu nome”, uma canção de anunciar “a glória” (em hebraico, kabod) do Senhor. O prof. Tércio Machado Siqueira explica que “a tradução mais comum de kabod é glória quando a referência está ligada a Deus, o Templo e a cidade de Jerusalém (Ex 29.43; 40.34-35; Lv 9.6-23; Nm 14.10). Nesse sentido, kabod, com o sentido de autoridade, honra ou glória, é usado, no AT, para descrever a presença, o poder e a reputação de Deus diante de Sua criação. Isaías diz que o kabod, glória, de Deus enche toda a terra (Is 6.3). O que caracteriza a glória de Deus é a Sua presença carregada de bondade, graça e compaixão (Êx 33.19)”.
Anunciar a glória e as maravilhas de Deus é cantar sua beleza. Por isso, a liturgia do culto deveria tocar mais profundamente nossos sentidos e nos levar à contemplação. Nos cheiros, nos sons, nos toques, deveríamos ser capazes de contemplar a beleza que Deus nos revela e conosco quer partilhar. Culto que não emociona, neste sentido profundo de parar e contemplar, observar, enlevar-se, embeber-se de beleza... não deveria ser chamado de culto. Por isso o louvor tem esta capacidade de encantar. A música consegue ir além da língua, da cultura, dos esquemas sociais, da qualidade do conhecimento. Pessoas diferentes podem ouvir uma mesma canção e se encantar com ela, independentemente do idioma que falem. O mesmo acontece com a poesia.
A beleza de olhar
Na Semana Wesleyana de 2009, fui convidada a palestrar. Noutro dia, ouvi o prof. Luiz Carlos Ramos falando acerca da importância da imagem em nosso tempo. Ele ressaltou que a gente se satisfaz mais na imagem gravada do que na participação do evento. Ele falou que a gente vai a uma festa, por exemplo, e vê alguém filmando. E a gente diz: ‘Não vejo a hora de assistir ao filme!’ Poxa vida, mas estamos vivendo a festa! Isso não deveria ser mais importante?”
O salmo nos convida a ver a beleza de Deus. Ele começa falando do culto, mas logo estende seu olhar para fora da Igreja e nos convida a fazer o mesmo. A participar dessa sensação boa que é olhar o que de bonito existe. Glória e majestade estão diante dele. Força e formosura, no seu santuário (este é o lado de dentro). Os céus se alegram, a terra exulta. O mar faz barulho com suas ondas e com os seres vivos dentro dele. O campo faz folga e todos os bichos dentro dele pulam de alegria. As árvores do bosque fazem música quando seus galhos balançam e nós nos regozijamos quando pegamos o fruto com a mão e o seu gosto escorre pelo canto da boca (este é o lado de fora).
Contemplação, gosto, riso, dança, festa, alegria. É bonito de se ver... Interessante é que há mais coisas do lado de fora do que do lado de dentro. E a gente limita tanto nossa vida... Ficamos contentes em assistir ao filme, ao enquadramento que nos é dado pelas estratégias, pelos planos, pelos encontros, pelo ‘quebrantamento’, pelas estruturas de poder... que esquecemos que a verdade está lá fora também. Que é preciso olhar. Um místico, chamado Merton, assim se expressou: “Devemos reverenciar toda a criação, porque o Verbo se fez carne. O universo criado é o templo de Deus, onde o mosteiro é como que o altar, a comunidade, o tabernáculo, e o próprio Jesus está presente na comunidade, oferecendo Sua homenagem de amor e louvor ao Pai e santificando almas e coisas”.
E eu me lembro de uma frase, no início do movimento de Dons e ministérios, que fala sobre esta capacidade de contemplar: “Orar com os olhos abertos”. Contemplar, sentir, tocar, cheirar, experimentar Deus na vida inteira e na inteireza da vida... E concluir, como o salmista: “Senhor, como tu és bonito!” (Salmo 104).

Comentários

  1. Tenho lido o salmo 96 e meditado nele.Esse verso q pede para o adorarmos na beleza da santidade (9),tem mexido cmg e do tentando entender,se é possível.Na busca por ajuda,achei sua linda postagem q de certa forma bateu com o q subiu ao meu coração ontem a noite qdo eu meditava nele:
    Não é a questão do palpável, da beleza física,mas a questão do q se sente,do abstrato q pode se tornar palpável, sim,mas começa no abstrato.Começa no elemento fé.Tnh q crer q verei a beleza da santidade,não em uma pele negra,Branca,não em um par de olhos pretos,azuis,verdes,mas na essência da do q Deus é :SANTO! E de como Ele vai querer interagir com a mnh fé
    Através do cheiro,do toque,da voz,da visão? Ou da alegria única de saber q cheguei nesse lugar:o lugar da beleza da santidadade
    O lugar q somente um adorador de vdd consegue chegar,pq não importa as circunstâncias, importa a fé de esse lugar existe e Deus quer q eu esteja lá

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