Cristãos e política

Tenho recebido várias manifestações acerca dos evangélicos e suas diversas posturas quanto à eleição próxima. Concordo com alguns amigos que se sentem especialmente ofendidos pela ignorância e dramaturgia de uns, pela petulância e arrogância de outros. Eu já desisti de esperar do governo alguma coisa. Acredito na separação entre Igreja e Estado - mesmo um candidato que se diga evangélico não iria governar pensando só nesta parcela da população, sob o risco de ser tão ou pior que qualquer outro, de qualquer religião. Só porque determinado segmento não concorda com as minhas ideias, eu acho que ele deve ser segregado ou não ter seus direitos civis garantidos? Quanto anticristianismo de minha parte!
Também acho imprudente, como líder religiosa, indicar ou apresentar quem quer que seja. Nesses dias bicudos, tem sido difícil apresentar até a mim mesma. Posso me enganar feiamente comigo mesma (enganoso é o coração, lembra o profeta!), quanto mais com os outros.
Creio no voto como uma expressão de fé - mais em Deus do que no candidato. Espero que Deus ilumine aquela pessoa, que a faça ser justa e ter a visão ampla para as demandas sociais, muito mais importantes que as econômicas e políticas, muito mais desprezadas que quaisquer outras.
Fico triste também quando, sem me dizer, me dizem em quem eu devo ou não votar. Fico oprimida pelos crentes que passam informações adiante sem verificar a veracidade delas, que só alimentam o ódio e o medo. Não recebi sequer uma mensagem que me desse alguma esperança. Fico triste.
Então me lembro de Jesus e suas palavras sábias: "O meu reino não é deste mundo". "Os homens buscam poder e querem escolher o maior entre si. Com vocês, não é assim". Claro, o voto deve ser ético. E isso pra mim significa, entre outras coisas, que não é porque sou mulher que vou votar em mulher. Não é porque sou evangélica que o político "que se diz" evangélico vai levar o meu voto. Não é porque o candidato está na frente que eu vou deixar de votar em quem realmente acredito para não desperdiçar o voto. Isso também significa que devo conhecer suas propostas e, obviamente, verificar se elas coadunam com os princípios gerais do Evangelho, que é meu princípio e regra de vida. Se alguém se declara contra a Palavra de Deus, declaradamente está me dizendo que não devo votar nele ou nela. Isso me parece claro, verdadeiro e coerente. Isso também aumenta exponencialmente minha responsabilidade pessoal pelo rumo das coisas...
"Cada um tenha a sua opinião bem definida em sua mente". A minha opinião está bem formada. Rejeito fofocas, repreendo o terror, exorto os legalistas, tenho pena dos guetistas, incentivo os sonhadores, consolo os entristecidos. Queremos um bom governo. Merecemos um. Mas, honestamente, não esperemos desta geração perversa e corrupta, desses filhotes de víboras e raposas, desses incautos e indolentes, que façam o mundo melhor que esperamos. Mesmo o mais ilustre dos políticos ainda tem que lidar com um sem número de fatores que, eventualmente, podem comprometê-lo com o que ele mais rejeita. São muitos os emaranhados do poder. E, além disso, já temos prova de sobras de que não existe salvador da pátria. Só existe o Salvador de nossas vidas... As estruturas jazem mesmo no maligno. Não é delas que virá o socorro.
O Reino de Deus está dentro de vós, disse Jesus. Somos nós que fazemos o mundo melhor a cada dia, e não é indicando este ou aquele, apoiando este ou aquele. É fazendo o que não estamos fazendo: é enfrentando os opressores, é destronando as potestantes do ar e da política. É sendo voz profética, não essa das canções mercadológicas irritantes, alucinantes, passivas e paranoicas. É sendo a voz do que clama no deserto: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas".

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