O que fazer com a notícia?

Maria Madalena foi ao túmulo de madrugada, escondido, para prestar suas homenagens a Jesus. Medo dos judeus, medo dos  romanos, medo do que os outros poderiam pensar. Medo dos homens, dos discípulos, dos assaltantes da madrugada, dos roubadores de esperança. E vergonha. Sim, inadmissível que amassem tanto o mestre, mas é certo que sentiam vergonha daquela morte humilhante, bandida. Isso tornava até o amor deles repugnante. Como amar alguém assim? Bandido bom é bandido morto. O bandido está morto. Amá-lo é crime. Então o jeito é chorar de madrugada.
Perfumes e panos arrumados para cumprir os rituais. Humanizar o morto, prepará-lo, ainda que de atraso, para o encontro com o Eterno.
As leis religiosas não poderiam mais ser cumpridas, porque o tempo de preparar o morto já havia passado. Assim, na verdade, apesar do medo e da vergonha, no gesto das mulheres há um brilho genuíno da graça de Deus. Fazer o certo mesmo quando não cabe mais. Mostrar afeto ainda que não faça diferença. Cultivar amor, ainda que escondido. E chorar, que ninguém é de ferro.
A saudade de Jesus, celebrada com os discípulos, celebrada anteontem mesmo, agora é concreta, real e fria. Mas, como disse Rubem Alves, "Quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta,a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro."
Saudade é uma presença de ausência, ensina o mestre. Quando o ente querido não está, então a ausência se torna algo real, tangível. Usamos rituais para lidar com ela. Vemos os álbuns de retratos, sentimos cheiros, resgatamos receitas. Vamos ao cemitério de madrugada, quando nosso medo, vergonha e dor podem ser disfarçados com as trevas ao redor. Tememos.
Mas há um problema...

Quem nos removerá a pedra? Como podemos nos aproximar do mestre que está morto, se uma pedra nos separa? O sepulcro é intransponível para o ser humano. Qualquer pessoa que morre em nossa vida está separada de nós por esta pedra sepulcral. Iremos até ela, mas não há recíproca. A não ser que um milagre aconteça. Esse é um milagre doloroso para os discípulos de Jesus. Há uma grande controvérsia em andamento. Os saduceus não aceitam a ressurreição. Os fariseus acreditam, mas no último dia apenas, que ninguém sabe quando será. Os essênios se escondem pelo deserto e não sabemos bem o que eles pensam... Há incrédulos pelas ruas. Há os que desistiram da ideia de Deus. Há os que não acreditam sequer na vida, quanto mais na ressurreição. Há o império. Forças de morte, ideias de morte, práticas de morte. Como crer?


Viram que a pedra já estava removida. Deus sabe que a iniciativa precisa ser dele. Ele cria o mundo. Ele coloca roupas de pele sobre os homens caídos. Ele envia os profetas. Ele manda sonhos e visões. Ele determina libertadores. Ele se encarna em Jesus. E ele remove a pedra. Mais uma vez, o impossível se torna possível. A pedra é a impossibilidade. É o problema. Quando há uma pedra no meio do caminho, é só ela que se vê. A mente humana não encontra alternativa. Só repete: tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra... Mas a fé vê o caminho, não a pedra. A fé luta pelo caminho. Por isso a fé é dom de Deus. Porque ela vê além do que os olhos, que só enxerga a pedra.


Ele não está mais aqui. O jovem vestido de branco contempla o túmulo vazio. Ele é o espanto das mulheres. Um jovem... lembro-me de João: Jovens, eu vos escrevi porque sois fortes e tendes vencido o maligno. Veja, um jovem está no sepulcro. Não nos diz Marcos que é um anjo. É um jovem. Um mistério, uma potência. E ele nos relata que a saudade continua, pois de novo uma ausência. Ele não está aqui. Costumamos procurar por Jesus em nossos lugares costumados. Pode ser que ele não esteja no túmulo. E pode ser que, em algum momento, ele não esteja sequer na igreja. Ele pode estar na rua, pode estar na esquina, no lugar ao lado. É preciso que vençamos o medo de andar escondidos pela noite, porque ele, ressurreto, não ficará escondido ou retido por nossos limites. Onde ele está? Na Galiléia. Para encontrá-lo, é preciso antes uma atitude concreta, de quem quer ir além do medo.


Contai aos discípulos e a Pedro: Uma boa notícia deve ser compartilhada. É do caráter intrinseco da boa nova que ela se espalhe. Seu objetivo é alegrar, consolar, confortar. Guardá-la não faz sentido. Mas temos sido arautos da tragédia. Fofoqueiros, maliciosos e boateiros. Coisas boas não dão Ibope, desde os tempos antigos. A notícia da morte se esperava que fosse divulgada. É um absurdo até que não seja sabida, diz o moço da estrada de Emaús ao estranho que se aproxima: Como é que você não sabe? Mas a notícia boa a gente esconde. Pode ser por medo de que partilhar a felicidade faça com ela seja diminuída. Se quer que uma coisa boa siga boa, não conte a ninguém. Não fale da sua felicidade porque a inveja atrapalha... Egoísmo que mata a essência da notícia boa. As mulheres são desafiadas a superar seu medo e a contar a notícia, porque agora o fato vai além do túmulo.


De medo, nada disseram a ninguém. Dizem os estudiosos que foi assim que terminou a escrita da primeira versão de Marcos. O medo não deixa que a notícia se espalhe. O medo leva a gente de volta pra casa. Saíram do sepulcro correndo, com medo, assombradas. Nem sentiram que o sol já tinha nascido, nem perceberam os novos ventos soprando, nem lembraram as promessas. O medo não deixa a gente ir além do possível, do viável. O medo não permite descobertas.  O medo não deixa espaço para a acolhida, o perdão. Este é o dano. Para que a notícia se espalhe, é preciso que o medo seja vencido, se não, nada feito. 


Mas, há sempre o recomeço... O versículo 9 parece que resolve contar tudo de novo... E de outro jeito... Resumido, que Marcos é de poucas palavras. Veja lá. "Quando Jesus ressuscitou, na madrugada do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, de quem havia expulsado sete demônios. Ela foi e contou aos que com ele tinham estado; eles estavam lamentando e chorando." Ela foi e contou. Simples assim. Boa notícia não tem mistério. Não podemos controlar o que vai acontecer depois de contarmos. Não sabemos o que as pessoas irão fazer com essa notícia. Desconhecemos as potencialidades de seu desdobramento. Só sabemos que não dá pra ficar com ela só pra nós. Não deu para as mulheres, não deu para Maria. E é por isso que estamos até hoje aqui, contando a mesma história. Esperando a mesma boa notícia. Acreditando em milagres. Por causa de um povo desprezado que não conseguiu conter a notícia "incontível". Cremos no que ninguém mais poderia crer, por causa delas e deles. Seguimos na trilha dos contadores de boas notícias. Hoje é nossa vez de escolher o que vamos fazer com essa novidade. É nossa opção nos calar por medo, por egoísmo ou por conveniência. É nossa opção contar como quem segue sentindo saudade, contando e contando até chegar o dia em que paremos de sentir saudade. O dia da ressurreição do corpo, do novo abraço, do fim da espera... A notícia que continua relevante, pois tem gente que esqueceu o que ela significa, como lembra Rubem Alves:

"Os cristãos incluíram uma declaração estranha no seu Credo. Diziam que criam e desejavam a ressurreição do corpo. Como se o corpo fosse a única coisa que importasse...
Mas haverá coisa que importe mais?
Haverá coisa mais bela?
Ele é como um jardim, onde crescem flores e frutos...
Cresce o riso,
a generosidade,
a compaixão,
o desejo de lutar,
a esperança;
a vontade de plantar jardins,
de gerar filhos,
de dar as mãos e passear,
de conhecer...
E ele transborda as águas que vão subindo, e elas saem dele, e o deserto seco vira oásis regado. é assim: neste corpo tão pequeno, tão efêmero, vive um universo inteiro, e, se ele pudesse, bem que daria a sua vida pela vida do mundo.
Mas o corpo não é só fonte que transborda: é colo que acolhe.
O ouvido que ouve o lamento, em silêncio, sem nada dizer...
A mão que segura a outra...
O poema, que é a magia que transubstancia o mundo, colocando nele coisas invisíveis, só reveladas pela palavra...
A capacidade de ouvir as lágrimas de alguém, longe, nunca visto, e chorar também...
O meu corpo transborda e fertiliza o mundo...
Tão simples, tão belo. Mas algo estranho aconteceu.
Algo nos tentou, e começamos a buscar Deus em lugares perversos.
Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina: e o fizemos sofrer e o transformamos em besta de carga, em cumpridor de ordens, em máquina para o trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como se Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delícias do Paraíso.
E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra. Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo.
Escrevi estas coisas como celebrações da ressurreição.
Na esperança da ressurreição dos mortos.
Para exorcizar a morte, que nós mesmos alimentamos com nossa carne.
Invocações de alegria e beleza.
Quem tem alegria e ama a beleza luta melhor.
Os corpos ressuscitados são guerreiros mais belos porque trazem nas suas mãos as cores do arco-íris.
E os corpos se transformam então em semente que engravida a terra para que nasça o futuro... (Rubem Alves)
Agora estamos como Maria e os apóstolos. Já sabemos que o túmulo está vazio. Estamos alegres pela ressurreição, mas ainda cheios de saudade. Volta, Jesus!

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