Discurso na Câmara dos Deputados em homenagem aos 50 anos do Cogeime (texto na íntegra)

Bom dia a todas as autoridades aqui presentes nesta manhã. Ao senhor presidente da Câmara, Sr. Rodrigo Maia, aos deputados e deputadas presentes, particularmente ao Sr. Áureo Ribeiro, proponente da homenagem ora feita ao Cogeime. Bom dia também a toda a comunidade metodista aqui representada, aos amigos e amigas que nos prestigiam e às crianças do Cecosal, que também vieram nos prestigiar. Que a graça e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo venham, nesta manhã, a se infundirem em nosso coração e alma. Nesta manhã, falo em nome da Oitava Região Eclesiástica, que integra os Estados do Mato Grosso, Tocantins, Goiás e Distrito Federal. Em nome da Bispa Marisa Freitas Ferreira, bispa da Região Missionária do Norte e bispa assistente do Cogeime, que infelizmente não pôde estar presente a este conclave. E em nome do Colégio Episcopal da Igreja Metodista, composto por 10 bispos e bispas que atuam em todo o Brasil.
No Antigo Testamento, a palavra moreh, traduzida por professor, ou mestre, tem a mesma origem de Torah, a lei judaica, o ensino por excelência. Interessante é que o mesmo termo também é usado para se referir às chuvas temporãs, que são aquelas que preparam a terra para o florescimento e o surgimento dos frutos. Naquelas culturas, os professores eram seres muito especiais, assim como o são em muitas culturas antigas pelo mundo afora. Na Bíblia, Deus é chamado de Mestre muitas vezes e este foi o título preferido por Jesus. O processo educativo era entendido por essas comunidades como um plantio na alma humana, para que seus melhores potenciais pudessem florescer.
João Wesley, nosso fundador, foi pastor, escritor e, durante toda a sua vida, atuou como professor, tanto em Oxford como nas escolas populares que abriu no Reino Unido. Naquele distante começo do movimento metodista no mundo, Wesley expressava seu desejo de “unir ciência e piedade vital, há muito tempo separadas”. Não havia, no coração daquele homem, a oposição entre a fé e o conhecimento que hoje tanto caracteriza nossos debates atuais. Essa herança é nossa alavanca para termos nos tornado uma igreja que, no mundo todo, sempre aliou a pregação evangelizadora à abertura de escolas.
Era algo tão intrínseco ao movimento que Wesley exortava seus pregadores nos seguintes termos: "Prega expressamente em favor da educação. Com dom ou sem dom tens de fazê-lo; de outra forma não estás chamado para ser um pregador metodista". A revolução social levada a efeito pelos metodistas ingleses, reconhecida nos livros de história, estava intimamente ligada à preocupação de que as pessoas precisam evoluir como seres humanos, precisam alcançar tanto a fé quanto a autonomia de pensamento, precisam de uma salvação que seja plena, abundante e integral, que alcance suas condições concretas de vida.
Esse ideal nos move e também nos desafia. Vemos que nossa contribuição à história do mundo em geral e à história do Brasil em particular é importante, fundamental, mas ainda arranha a totalidade das necessidades humanas. Não podemos ter a pretensão de fazer esta grande tarefa de modo isolado. Mas sempre precisamos reconhecer nossa parte neste projeto, para que, como diz o profeta Oséias, o povo não mais pereça por falta de conhecimento, em suas mais profundas, diversas e necessárias nuanças.
Nesta manhã, nosso desejo é que esta homenagem se converta também numa fala profética, que signifique parte daquilo a que Wesley aspirava acerca de “reformar a nação, particularmente a Igreja e espalhar a santidade bíblica por toda a terra”. Porque a santidade que pregamos é santidade social. Ela significa melhores condições de vida para os trabalhadores e trabalhadoras; proteção e segurança para as crianças e adolescentes; defesa dos direitos e da integridade física, emocional e econômica das mulheres e das minorias desprotegidas de qualquer natureza; promoção da vida em toda a sua plenitude. A santidade bíblica é resultado da graça de Deus, que se manifesta salvadora a todas as pessoas, educando-nos para superar a impiedade e a injustiça, como diz o apóstolo Paulo a Tito.
Sendo nós herdeiros e herdeiras do Protestantismo, a conhecida “religião do livro”, não é sem sentido nossos esforços para ampliar o conhecimento, a capacidade de reflexão e a tomada de posições que resultam de um processo educativo. Sonhamos com um país no qual as pessoas possam alcançar plenamente seus potenciais e no qual a educação, bem como a saúde, sejam valores inegociáveis, distintos e defendidos frente a qualquer visão mercantilista ou mercadológica do ser humano.
Essa visão de mundo nos foi outorgada não apenas por João Wesley, ou por outros colaboradores, homens e mulheres, que fundaram escolas por todo o mundo e no Brasil. Mas principalmente por Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, para quem o ser humano tem primazia e importância, independentemente de sua posição financeira ou social. Cristo nos mostrou, com suas pregações, peregrinações neste mundo e pelos milagres que realizou, que cada pessoa importa. Nós precisamos nos esforçar a cada geração para manter esses valores em nossos corações, em nossa mente e em nossa prática.
Queremos agradecer a oportunidade de ver nossa participação na educação brasileira reconhecida nesta homenagem ao Cogeime e, por extensão, a tudo o que o Metodismo quer representar em termos de transformação e crescimento do ser humano. João Wesley acreditava não ser possível separar a religião de tudo aquilo que representa o social na vida humana. É preciso que sigamos de perto suas pegadas.
Mas não podemos sair hoje sem um sincero apelo a todos vocês nesta casa, homens e mulheres, que decidem os rumos de nossa nação. Um apelo sincero a que, em todas as oportunidades, sejam fomentadores da chuva do conhecimento, reconhecendo a educação – e nela os docentes e discentes, bem como os parceiros do processo educativo – em seu potencial mais amplo. Sem uma visão real do seu valor e do seu papel, a educação jamais poderá ver florescer seus frutos de transformação social, espiritual, econômica, ambiental...
Suzanna Wesley, mãe de João, deu a ele uma recomendação que ela usou em sua própria casa, num tempo tão distante do nosso, mas que até hoje deveria mover os ideais de educação de nosso Brasil e do mundo todo, porque as condições de muitos ainda não mudaram o suficiente. Ela expressamente dizia: “Nenhuma criança deve trabalhar antes que saiba ler”. Que todos e todas nós possamos reconhecer nossa tarefa como ainda incompleta e nos esforcemos para alcançar este alvo tão básico, neste país continental. Creio que é um propósito que Deus está desde sempre disposto a abençoar. Basta-nos obedecer. 

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