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Mostrando postagens de Setembro, 2007

Globalização, fé e culturas

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O advento da globalização nos coloca diante de um novo sentido para a vida e, por conseguinte, para a fé. Recentemente, li um texto de Ricardo Gondim, no qual ele falava da importação de modelos para as igrejas brasileiras. Ele enfatizava, especialmente, a maneira como perdemos nossa riqueza quando abrimos mão de nosso jeito de ser, adotando posturas, discursos e modelos exteriores à fé brasileira.
De fato, quando os americanos chegaram ao Brasil, trazendo a fé evangélica de modo mais contundente que outros povos protestantes que por aqui passaram (como os ingleses), o impacto do “american way of life” era ainda muito restrito. O povo brasileiro era grandemente analfabeto, não havia internet, nem comunicações via satélite. Mas hoje, vivemos hoje uma nova era (opa, cuidado com esses termos!) de missões e de colonialismo.
Com uma televisão baseada em filmes americanos, as crianças abandonam as tradicionais histórias e folclores brasileiros, que ao menos sedimentam uma cultura própria, par…

O céu é ainda é pouco

Há muitos anos, uma amiga minha disse: “Eu não sei porque o céu tem que ter ruas de ouro... Eu preciso de dinheiro é aqui!”. Na época, eu achei uma grande heresia e atrevimento as palavras dela. Mas agora, estou tendendo a concordar... Não com a frase, mas com a idéia que ela sinaliza. A idéia de que esperar pelo futuro não é o bastante. A idéia de um céu perfeito enquanto este mundo, criação do Deus amoroso, se desmorona sem que eu faça algo a respeito, parece-me anti-bíblica, anti-profética, anti-messiânica, anticristo.
Eu sei, eu sei que “o mundo jaz no maligno”! Mas acredito que quando o autor bíblico escreveu isso foi justamente no inconformismo próprio da fé na ressurreição. Se o mundo jaz – está deitado, morto, sepultado no maligno – necessário se faz pô-lo de pé.
Mundo, vem para fora! Sai da caverna da morte, desata-te das ataduras da impiedade!
Até quando, Senhor? Quero ver o céu hoje, se não em plenitude, ao menos em sinais! Que eu posso fazer, sob o poder do teu Espírito, para…

Emaús

Eu que pensei que fosse essa a hora
Em que a vida iria, enfim, mudar.
Eu que celebrei e clamei “Hosana”,
sinto um nó na garganta
e uma dor me sufocar.
Eu que esperei tanto tempo
e no meu acalento
ansiei libertação,
sigo agora, tão aflito,
oprimido e contrito,
sem ter paz no coração.
E você, meu companheiro,
com palavras de efeito
quer a lei me ensinar?
E se a conheço, por que essa chama,
esse calor que me inflama,
parece que vai me incendiar?
Talvez meu erro tenha sido
concluir a seu respeito
ao invés de observar
o homem que acolheu meninos
que deu pão aos mais famintos
que acalmou até o mar.
Se ele não era o Messias aguardado,
Quem, por Deus, é o Esperado?
Quem nos vai, enfim, livrar?
Entra em casa, meu amigo.
Descansa o corpo neste abrigo,
vem meu pão compartilhar.
Se já tenho o coração tão quente,
não podias de repente
ritual conhecido praticar!
Vejo o pão que é teu corpo,
em tuas mãos e sinto o gosto
de algo tão familiar!
És tu mesmo, Mestre amado,
eis que hás ressuscitado!
Nova vida a mim vens dar.
Essa nova grandios…

Reverência

Adonai, meu Senhor
Aquele que domina meu coração
Aquele que sonda meus pensamentos
Aquele que guia os meus passos
Aquele que perpassa meus momentos.

Adonai, meu Senhor,
Aquele que me aprisiona em sua graça
Aquele que me ata com seus laços de amor
Aquele que me algema em sua compaixão
Aquele que me encarcera em sua infinitude.

Adonai, meu Senhor,
Que não me anula embora me domine,
Que não me nega embora me transforme,
Que não me oprime embora me corrija,
Que não me chama de servo, mas de amigo.

Herdeiros da Reforma

John Wesley era um jovem pastor anglicano, que queria mudar a si mesmo. Ele se perguntava pela verdadeira fé, que não tinha; pela verdadeira confiança, que nunca demonstrara. Em busca de respostas, ele viajou para a América, entrevistou-se com morávios, judeus, espanhóis. Leu pietistas, aprendeu a arte do bem viver e do bem morrer, estudou a Bíblia, defrontou-se com pregadores leigos. Wesley dizia: “Eu quero amar a Deus, mas não o amo. Quero ser um bom cristão, mas não o sou.” Peter Bohler, um morávio, até escreveu em seu diário que a vantagem que Wesley lhe demonstrou é que ele era sincero.
Então, um dia, ele foi de má-vontade a uma reunião na Rua Aldersgate. E lá, ele ouviu alguém ler o que Lutero escreveu, como Prefácio à Epístola de Paulo aos Romanos. Entre outras palavras de Lutero, Wesley ouviu:
“Fé não é aquela ilusão humana e sonho que algumas pessoas pensam que é. Quando elas ouvem e falam muito sobre a fé e ainda vêem que nenhum progresso moral e nenhumas boas obras resultam d…

Habitação

O verbo virou gente
e armou sua barraca em nosso acampamento,
fez seu barraco em nossa favela,
construiu sua oca em nossa aldeia,
fabricou sua cabana em nosso quilombo,
construiu seu palacete em nosso condomínio fechado.
E no meio de nossa escuridão, de nossa angústia e nossa dor,
vimos a sua glória, como a do unigênito do pai,
como a do menino sem mãe,
como a da mãe sem filhos,
como a da criança sem casa,
como a do sofredor à espera do paraíso.
O verbo virou gente e o tornamos instituição.
mas no meio da dura estrutura que levantamos,
o verbo se fez ressurreição,
se metamorfoseou em tantos rostos e jeitos,
que sua glória cobriu toda a terra
e de novo nos fez irmãos.

Saudades de um livro

Dizem as mitologias antigas de alguns povos mediterrâneos que o mar é o lugar do mistério e do caos. O mundo começou pela água, que a tudo envolvia, até que a terra apareceu. Mas o mar continuou lá, soberbo, nos cercando por todos os lados, mostrando-nos o quanto somos vulneráveis. Basta que suas ondas se elevem e já nos atemorizamos. No mar habita o monstro marinho que ninguém vê, mas que faz desaparecer os navios, faz naufragar as esperanças das esposas nos cais.
Tenho saudades de um livro que fala do mar e de tudo o que ele é, a trajetória de uma vida. É a história do velho e do mar, contada por Ernest Hemingway com aquele toque de dor e magia que só ele soube dar. Na minha adolescência, o livro, numa edição ilustrada a bico-de-pena, fazia-me arrepiar de suspense e emoção. Eu passava a mão sobre as figuras, sentindo o que o velho sentia: frio, calor, fome, náusea. Quase o gosto do sal na boca. Meu Deus, o mar é tão grande e o ser humano é tão pequeno! Vejo naquele velho todas as min…

De braços abertos

Pregaram Jesus na cruz... Que dor, meu Deus!
Suas mãos e pés furados, o lado cortado...
A contradição da cruz: a dor, de braços abertos...

Jesus morreu de braços abertos,
Foi de braços abertos que ele pediu:
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!
Mesmo sendo inocente, de braços abertos
Ofereceu perdão a quem o feria...

De braços abertos, é... de braços abertos,
Jesus morreu na cruz por todos nós...
Suas palavras ecoando esperança no coração da gente:
Hoje estarás comigo no Paraíso
Ele mesmo tão longe do Paraíso, pendurado na cruz,
Crê na vitória e a promete a quem se arrepende,
Como o ladrão...

De braços abertos, estendidos, doloridos,
Os braços que carregaram crianças,
Que abraçaram enfermos,
Que trabalharam com a madeira...
Braços abertos de Jesus na cruz:
Mulher, eis aí teu filho, ele disse.
Filho, eis aí tua mãe, repetiu.
Jesus, na morte, de braços abertos,
Preparou para que a Maria não faltasse
O braço que acolhesse e amparasse
Depois que ele morresse...
Como também hoje não quer que falte abrigo

Ansiosa Espera

Estive esperando pelo Messias,
Quando cativo no Egito,
Construindo palácios e morando em casebres.
Quando sob o domínio da Babilônia,
Morando longe de casa,
Sem o cheiro da minha terra,
Sem o gosto dos meus prazeres
Sem o toque dos meus queridos.

Estive esperando pelo Messias,
Quando oprimido pelos romanos
Pagando impostos para encher os baús do Imperador
Enquanto meus filhos morriam de fome.
Vendo o Templo de longe,
Louvando sem ter alegria
Cantando sem ter esperança
Orando sem ter muita fé.

Estive esperando pelo Messias
Nas ruas de um país de sofridos
Nas esquinas, junto aos abandonados
Em conversas de silenciados.
Mas o Messias que esperava não veio.
Ele não estava nos palácios, nem nos templos.
Em lugar algum da nobreza o encontrei.

Estive esperando pelo Messias
E foi no presépio tosco
Entre animais e feno
Nos braços de uma menina
Que o encontrei.
Naquela noite não houve fogos, nem festas,
Mas foi o rei que nasceu.

E por causa daquela noite
Em que apenas a voz dos anjos se ouviu
Que minha espera chegou ao fim:
O …