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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Ainda é sexta-feira

A agonia do Calvário começou ontem, quando, reunido com seus discípulos, o Mestre amado comeu e bebeu sua última refeição. Quando ele orou sozinho, pedindo forças para beber a amargura da morte, enquanto seus companheiros dormiam... Bem disse o evangelista que foi de tristeza, mas muita gente sabe que a causa de sua insônia é o peso da dor que carrega no coração... Eles dormiram, sim, mas acho que foi mesmo de incompreensão, de indiferença até, de achar que nada daquilo seria realmente possível...
Mas, agora, é inegável... Hoje é sexta-feira e o mal está feito. O beijo roubado da traição já foi dado. E todos ouviram quando o galo cantou. O que pouca gente viu foi o choro da vergonha, do arrependimento, da convicção da verdade quando bate fundo na alma de um discípulo duro e turrão... Menos gente ainda viu o mal irremediável do remorso, a corda tensa da culpa, da ignorância tão extrema do amor perdoador do Pai, que não o nega a ninguém...
Sim, hoje é sexta-feira. Era madrugada quando começaram os açoites e zombarias. O dia chegou, mas com ele nenhum alívio para o preso inocente. As horas se aproximam, agoniantes, proclamando o Calvário que virá. Nenhum pedido especial pela última refeição, nenhuma visita dos parentes, nenhum ministro religioso para ouvir a confissão e o possível arrependimento do condenado. Somente ele, os soldados, a tortura e a cruz.
De fato, hoje é sexta-feira. Começa a caminhada, a via dolorosa, uma tortura a mais, não imposta aos demais, mas que ele sofreu na pele já exposta, cortada, ferida, ardente e sedenta. Ele carrega a cruz e, nela, o peso do pecado de toda a gente. Só hoje, em 2007, são sete bilhões de almas a serem remidas... Imagine quantas foram ao longo de toda a história. Só de pensar nisso já vejo um milagre: só o filho de Deus poderia mesmo carregar tamanho peso e alcançar o Gólgota ainda vivo. Só o peso do meu pecado me faz cair tantas vezes ao longo de uma vida tão pequena... não consigo imaginar o que é o pecado de uma eternidade de anos desde o sexto dia da criação...
Coincidência ou não, no sexto dia da semana, na sexta-feira, começou a subida para o alto de um monte, em busca de um novo homem, uma nova mulher, que estes que hoje aí estão trazem a marca desfigurada da imagem de Deus. E a restauração passa pela dor de uma morte tão cruel. Quem poderia imaginar esse tal horror?
Sim, mas é sexta-feira. Três horas da tarde, enfim, depois de uma eternidade ali, de dor, cansaço, febre, sede, calor, alucinações e hipotermia. E o meio da tarde vira noite. Até o inimigo romano admite, na boca do centurião: “Esse aí era mesmo um filho de Deus”. O véu do templo se rasga. Ele brada: “Está consumado”. Seus olhos, decerto já anuviados, vêem pela última vez num momento as mulheres que choram a seus pés. Seu coração sente saudade dos discípulos covardes que fogem. E não fugiria também eu?
Sexta-feira e eu estou perdida no meio da multidão que volta para casa depois do espetáculo. Trago no coração o luto de quem perdeu alguém querido. A revolta de alguém traído pela justiça, pela política, pela religião. Trago as marcas de quem foi moído pela mentira, de quem foi oprimido porque não tinha nem um tostão furado. Trago a dor de quem foi impedido de entrar porque não tinha a roupa adequada. Sentimentos de sexta-feira. Dor de cruz.
A sexta-feira é o túmulo do ente amado que se foi. A sexta-feira é a bala perdida que leva um inocente sem explicação. A sexta-feira é uma criança morta por bandidos no meio da cidade, sem que haja proteção. A sexta-feira são crianças iludidas com a promessa de uma vida melhor e feitas escravas num mundo onde supostamente não havia escravos... A sexta-feira é a fome no mundo, as guerras, a corrida armamentista, as armas de destruição em massa, o terrorismo em nome de Deus. São as doenças de gente: a aids, o câncer, a dengue, a meningite. E, por que não?, as doenças de bicho: a gripe aviária, a febre aftosa, a raiva... São todas as coisas que fazem a criação de Deus chorar e gemer. Porque sexta-feira é morte, é paixão, é dor, é angústia. É o sentimento de impotência que nos invade diante da tragédia, da perda, da doença, do inexplicável... É a noite às três horas da tarde. É a crise de fé: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” É o medo da fragilidade humana diante de um diagnóstico. É a dor da fragilidade humana quando o corpo se quebra. É o silêncio que resta quando a voz, finalmente, se cala. Sexta-feira é o nó na garganta, é o fim da picada, é o fim da linha...
Talvez, por tudo isso, afinal, quase não se fala, de verdade, na sexta-feira. Tentamos negar sua existência. Falamos com alegria do final de semana, sem pensar, de verdade verdadeira, na sexta-feira. Mas ela vem ao nosso encontro e não dá pra enganar. Dizemos odiar a segunda, mas a rotina que ela proporciona na verdade nos alivia. Difícil é encarar o fim dos processos. Doído é viver, de verdade, a sexta-feira. Mas é nela que nos movemos a maioria dos nossos dias. É nela que reside o mais fundo efeito do pecado humano. Por causa da sexta-feira é que vemos nos noticiários mais eventos ruins do que bons. Por causa da sexta-feira, por causa da morte e do pecado que levou a ela, de repente estamos nós, seres humanos, ameaçados de extinção pelo aquecimento global...
E talvez, por tudo isso, afinal, muita gente tenha perdido a esperança. Muita gente tenha entregado os pontos. Muita gente descrê. Vai para casa como os apóstolos naquela distante sexta-feira, depois de enterrar apressadamente seu morto, com medo do que possa acontecer. Sem poder sequer chorar em público, sem oportunidade de lamentar. Sem levantar os olhos da lápide, sem lembrar a promessa. Às vezes, ao contrário, zombando dela e de sua aparente impossibilidade. Ninguém jamais voltou de lá... por que seria diferente agora?
Estamos vivendo a sexta-feira. Em todo o mundo, é sexta-feira e sempre será, enquanto a morte existir e todas as suas forças reinarem nas vidas humanas perdidas, sem esperança. Mas o problema dos cristãos é exatamente esse: crer contra a própria esperança... Porque nós sabemos o que os apóstolos, naquela distante sexta-feira, podiam apenas desejar; ou que ainda não estavam preparados para crer...
Apesar de hoje ser sexta-feira, como o apóstolo Paulo disse, eu creio também que “as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que há de ser revelada em nós”. Apesar de hoje ser sexta-feira, “a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus”. E, embora seja sexta-feira e a “criação esteja sujeita à vaidade, mesmo contra sua vontade”, e muito embora ela “conjuntamente, gema e esteja com dores de parto, e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gemamos em nós mesmos”, nós cremos e vivemos na “esperança de que a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus”.
Apesar de hoje ser sexta-feira, tenho fé e esperança, porque “na esperança somos salvos”. E quando eu quero duvidar, por causa do amargor das minhas sextas-feiras, me lembro da exortação de que “a esperança que se vê não é esperança; pois se alguém vê, como o espera?”. Então eu lamento, e choro e sofro, porque não posso esconder de Deus minha dor. Mas me refaço, e luto, e não me acomodo, porque “se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos”. E quando o peso da sexta-feira parece demais para mim, eu sinto que “o Espírito nos ajuda na fraqueza, porque não sabemos orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós, sobremaneira, com gemidos inexprimíveis”.
Por isso, prossigo, ainda que seja sexta-feira. Meus olhos enxergam a morte, mas meu coração espera com paciência pela vida. Meu corpo experimenta a dor, mas meu coração, surpreendentemente, canta de júbilo. Minha boca se cala, mas minha alma clama. Por ser sexta-feira, meus limites me param, mas minha fé me leva além. E porque assim espero, também fico bem certa, de “que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do futuro, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
Sim, é sexta-feira, e a morte exala seu odor por toda parte. Lamentadores estão pelas praças e são muitos os que predizem tempos de desgraças. Mas eu creio. Lembro-me do servo de Deus do passado, que disse: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide, o produto da oliveira minta. E ainda que não haja mantimento nos campos e nos currais não há gado... Todavia, eu me alegrarei no Senhor e exultarei no Deus da minha salvação. Javé é a minha força, firmará os meus pés como a corça. Ele me fará andar altaneiramente...”
Sim, é sexta-feira. Mas todo o cristão sabe, e crê, e espera, e suporta. Porque ele sabe que depois de toda sexta-feira da paixão há um tempo de espera confiante. Talvez demore um pouco, talvez o sábado se alongue. Mas não é sem fim. Depois de toda sexta-feira da paixão, há sempre uma manhã de domingo. E depois de todo o choro, alguém de branco virá e dirá: “Por que procuras entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou...” Sim, ainda é sexta-feira. Enquanto eu estiver neste mundo tão cheio de dores, viverei esta sexta-feira. Mas “eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida esta minha pele, então na minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei ao meu lado, os meus olhos o contemplarão.”
Sim, hoje é sexta-feira. E o meu caminho é o de consolar os que vivem a dor desta sexta-feira. É caminhar ao lado dos que aguardam o domingo da ressurreição. Tenho diante dos olhos, dentro do coração, a memória de todos os que me esperam lá. E nos veremos de novo, daremos braços e abraços, vamos rir e chorar de emoção. Esvaziaremos os odres da saudade, nos despiremos de nossa mortalidade para nos cobrir com as vestes reais da eternidade. Todos os motivos para chorar serão queimados nas brasas vivas do altar de Deus. Todas as lágrimas serão extintas. Todos os crimes e erros serão de uma vez por todas superados, julgados e esquecidos. Vou recuperar o que perdi e sei que jamais perderei novamente. Essa certeza me fortalece para esperar.

Sim, hoje é sexta-feira, Senhor, mas não para sempre. Estou aqui, do lado de fora deste túmulo, e esperarei. A hora certa há de chegar. Estarei pronta e meu coração já antecipa a euforia, ainda que eu chore. É sexta-feira, Senhor... Eu preciso te encontrar, para viver contigo, como diz uma canção popular, “como um dia de domingo”. Vem, Senhor, transforma esta sexta-feira em domingo de ressurreição!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Poema: Nada era dele (Gioia Junior) - A propósito da Páscoa


Disse um poeta um  dia,
fazendo referência ao Mestre amado:
"o berço que Ele usou na estrebaria,
por acaso era dele? Era emprestado!

E o manso jumentinho,
que em Jerusalém chegou montado
e palmas recebeu pelo caminho,
Por acaso era dele? Era emprestado!

E o pão - o suave pão,
que foi por seu amor multiplicado
alimentando a multidão
Por acaso era dele? Era emprestado!

E os peixes que comeu junto ao lago,
ficando alimentado. Esse prato era seu? Era emprestado!

E o famoso barquinho?
Aquele barco em que ficou sentado
Mostrando à multidão qual o caminho
Por acaso era seu? Era emprestado!

E o quarto em que ceou ao lado dos discípulos
Ao lado de Judas  que o traiu, de Pedro, que o negou
Por acaso era dele? Era emprestado!

E o berço tumular, que depois do calvário foi usado
de onde havia de ressuscitar
Por acaso era dele? Era emprestado!

Enfim, nada era dele!
Mas a coroa que Ele usou na cruz era dele!
E a cruz que carregou e onde morreu,
Essas eram de fato de Jesus! "

Isso disse um poeta certa vez,
numa hora de busca da verdade;
mas não aceito essa filosofia
que contraria a própria realidade.
 
O berço, o jumentinho, o suave pão,
os peixes, o barquinho, a sepultura e o quarto
eram dele a partir da criação;
Ele os criou - assim diz a Escritura;
mas a cruz que Ele usou, a rude cruz,
a cruz tosca e mesquinha,
onde meus crimes todos expiou,
essa cruz não era sua! Essa cruz era minha!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

De braços abertos


De braços abertos...

Pregaram Jesus na cruz... Que dor, meu Deus!
Suas mãos e pés furados, o lado cortado...
A contradição da cruz: a dor, de braços abertos...

Jesus morreu de braços abertos,
Foi de braços abertos que ele pediu:
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!
Mesmo sendo inocente, de braços abertos
Ofereceu perdão a quem o feria...

De braços abertos, é... de braços abertos,
Jesus morreu na cruz por todos nós...
Suas palavras ecoando esperança no coração da gente:
Hoje estarás comigo no Paraíso
Ele mesmo tão longe do Paraíso, pendurado na cruz,
Crê na vitória e a promete a quem se arrepende,
Como o ladrão...

De braços abertos, estendidos, doloridos,
Os braços que carregaram crianças,
Que abraçaram enfermos,
Que trabalharam com a madeira...
Braços abertos de Jesus na cruz:
Mulher, eis aí teu filho, ele disse.
Filho, eis aí tua mãe, repetiu.
Jesus, na morte, de braços abertos,
Preparou para que a Maria não faltasse
O braço que acolhesse e amparasse
Depois que ele morresse...
Como também hoje não quer que falte abrigo
À criança, ao jovem, ao adulto, ao ancião.
E sofre, vendo tanta gente sem teto sobre a cabeça,
Sem sorte, sem camisa, sem casa, sem chão.


Braços abertos, Jesus agoniza e chora
Que nem a gente, quando não entende a vida
E grita, como a gente tem vontade de gritar
E estender os braços pro céu e perguntar:
Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?
Braços abertos, pedindo forças, e o silêncio
Quando a gente não entende porque Deus parece longe...

Braços abertos, Jesus geme, geme o gemido que era nosso
E o gemido de muita gente que não tem como viver:
Tenho sede! A garganta seca debaixo do sol,
Como o lavrador do nordeste, o menino e a menina de rua,
Como o mendigo, o povo brasileiro diante do governo desleal
Que de braços abertos também diz: Tenho sede, tenho fome...
O mesmo Jesus que disse: “Se você pedisse, eu te daria
A água da vida”, sente sede na garganta do meu irmão!

Braços abertos, na cruz que era minha,
Geme Jesus o gemido meu e anuncia:
Está consumado! Nada mais será como antes,
Morrendo na cruz o filho de Deus,
Consuma o amor, o pecado, a morte
Consuma e completa o caminho pra Deus!
Seus braços abertos aguardam agora
Que a glória resplandeça e a treva pereça
Para os que são seus...

Braços abertos e a última prece
Ecoa da boca trêmula de Jesus:
Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito!
Braços abertos que confiam no Deus
Que parece distante na hora da dor
Mas que se achega e acolhe, recebe em si mesmo
De novo manifesta imensidão de amor!

Braços abertos de Jesus na cruz...
Tantos sentimentos na gente a imagem produz!
Ele abriu os braços para salvar o mundo,
Abraçar os povos, espalhar sua luz...
Que pena que tanta gente não entende...
Que tristeza que tanta gente recuse esse abraço de amor...
Abraço que não ficou na morte, mas do túmulo renasce!
É o Jesus que vive, que reina,
que ainda abre os braços pra todo e qualquer pecador!

(Escrito em 31/03/99. Este poema pode ser dramatizado da seguinte forma: Cada frase de Jesus é escrita em uma folha de papel. O local onde a dramatização ocorrerá deve estar escuro, sendo o desenho de uma cruz projetado na parede. Enquanto alguém declama o poema, diversas pessoas, pela ordem, colam as frases sobre o desenho projetado da cruz, segundo o traçado. Ao final, as luzes são acesas e todas as frases são lidas novamente. Pode-se então cantar algum cântico relacionado à crucificação, seguido de oração e apelo.)

O povo do coração aquecido

“O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17, Habacuque 2:4, Gálatas 3:11, Hebreus 10.38) Uma experiência de mais de um dia John Wesley era um jov...