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sábado, 30 de abril de 2022

Só sei de uma coisa: eu era cego e agora vejo

Certo dia, fui visitar a célula do meu marido. Durante o bate-papo do compartilhamento da palavra, a anfitriã comentou que admira muito as pessoas que conseguem, com naturalidade, trazer Jesus para todos os assuntos do dia. Uns dias depois, lendo alguns versos de João, me deparei com o testemunho do ex-cego, curado em Siloé e me lembrei desse comentário. De fato, a simplicidade parece algo perdido nos nossos dias. Estamos sempre esperando discursos elaborados de toda parte. Quando eles vêm, parecem falsos, deslocados da realidade. E nós mesmos/as podemos nos sentir assim quando falamos de Jesus. Sentimos que apenas as pessoas com curso de teologia ou bem-preparadas podem fazê-lo. Queremos transformar tudo em grandes sermões e que luzes coloridas apareçam ao nosso redor, ao lado de uma boa banda gospel, para a gente sentir que está na hora de "falar de Jesus" com alguém. Talvez aí resida o erro. Somos, como aquele ex-cego, incapazes de falar de Jesus, isso mesmo! Ele sempre vai permanecer, de certo modo, na aura do mistério para nós. Talvez os seus contemporâneos tivessem mais informações do que nós. Como o ex-cego, topamos com Ele e fomos atingidos por sua graça e amor, mas não podemos ir muito além. Quando perguntam ao cego: "Onde está ele?", o moço responde: "Não sei". Em todo o texto, o ex-cego só afirma e reafirma a mesma coisa: "Eu era cego e agora eu vejo". Acho que o moço Jesus é profeta. "Se é pecador, não sei. Só sei isso: eu era cego e agora eu vejo". Você e eu, para fazer diferença na vida do amigo, da vizinha, do parente sofrido, da jovem deslocada, da vítima da violência e do bullying ou mesmo do sujeito que vive sua vida tranquilamente, não precisamos de muita coisa. Lá na frente, todo estudo e conhecimento vão ajudando muito. É claro que podemos melhorar, crescer, conhecer mais de Deus. Mas para começar, só temos de ter o básico. Não posso lhe falar tudo sobre Jesus. Na verdade, a maior parte de tudo que ele é, eu desconheço e não posso alcançar. Mas uma coisa eu posso. Posso te falar de mim mesma antes e depois de Jesus. Posso te dizer que, de muitos modos, eu também era cega e agora vejo. Posso te contar como ele me dá forças para fazer coisas impossíveis. Como, sem ele, eu submergiria em meus pavores e medos. Como ele já me segurou em curvas escuras da estrada, sobre pontes trêmulas e em momentos de total desespero. Como ele me consola quando as coisas próprias até da igreja me desafiam. Eu não sei o que você gostaria de ouvir sobre Jesus. Os fariseus queriam muitas respostas. O povo estava curioso. Mas o cego só podia contar o que tinha vivido. Sendo fiel nisso, quando ele se reencontra com Jesus e este se revela como o "Filho do homem", o cego crê e adora, porque já tinha sido objeto da graça. E então ele se tornou referência para todos os demais ao seu redor. Não existe nada mais natural para falar de Jesus, se a gente falar da vida da gente. É onde de fato faz diferença, porque é na vida que estão nossas grandes perguntas, dores e anseios. Depois, quando essas coisas forem supridas, todo o restante do aprendizado será para enriquecer, alegrar, matar outras curiosidades. Mas, por enquanto, um "antes" e um "depois" de Jesus, na sua vida, que é o que o seu amigo e amiga conhece, já faz toda a diferença. Comece por aquilo que você já conhece de Jesus. O restante, no tempo dele, Ele mesmo vai contar.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Outro salmo fora dos Salmos: uma canção com cheiro de criança (publicado na Voz Missionária)

Lucas 1.67-79

Outra vez recorro a um salmo fora dos Salmos para falar de criança. No Natal, o cântico de Maria inspirou nossa coluna. Agora, trago à memória a canção de um pai, celebrando a chegada de seu filho, sua esperança, sua memória e seu nome para a posteridade.
Numa casa de sacerdote, onde o culto devia emanar em cada palavra, um novo som se faz ouvir. Não é um alaúde, não é uma cítara, não é uma harpa. É um choro de criança que faz salmodiar...
Ele divide seu canto em duas partes: uma que fala do passado (68-75) e outra que fala do futuro (76-79). A festa pela chegada de seu filho lembra a Zacarias toda a tradição do seu povo e toda a esperança que ele sempre carregou consigo. Tudo isso explode numa expressão de louvor, conhecida como “Benedictus”.

Bendito seja o Senhor, que visitou e redimiu o seu povo... plena e poderosa salvação
Certa vez, li um pensamento que dizia algo parecido com “cada criança que nasce é um sinal de que Deus ainda acredita na humanidade”. Uma espécie de voto de confiança, enfim, de que um mundo novo e melhor pode surgir a partir de uma nova criaturinha que chega para encantar e recomeçar. Essa também é a esperança de Zacarias frente ao pequenino João, que nasce em cumprimento de uma profecia e de um milagre.
Em primeiro lugar, sua canção é de gratidão e reconhecimento. Na chegada do bebê, é Deus mesmo que visita seu povo e o salva, não de qualquer modo, não de forma passageira, mas com uma salvação que é plena e poderosa! Que bom saber que nossas crianças podem inspirar tão grande esperança! Que nós possamos ver nossos filhos e filhas como uma visitação de Deus a nós! Isso pode nos inspirar, como Zacarias, a viver sacerdotal e devotadamente a eles, como mediadores entre nossos pequeninos e o seu Deus, de modo a infundir-lhes fé, temor, alegria e intimidade com esse Pai terno e eterno, que é nosso Senhor!

Para nos libertar dos nossos inimigos e usar de misericórdia com nossos pais
São muitos hoje os inimigos da vida, em especial, os inimigos da infância: a fome, a violência, o despreparo dos pais, a gravidez indesejada, o uso de drogas, o sexo indiscriminado e gerador de enfermidades, algumas incuráveis; a precocidade materna e paterna... Entretanto, ainda quando a criança que nasce encontra tudo isso desfavorável à sua vida, ainda assim pode ser fonte de libertação e de misericórdia. Isso, porém, não pode ser fruto do acaso, nem uma honrosa exceção (me vem à mente aquela propaganda do menino de rua que se tornou professor, educador e pai adotivo...), mas uma visão assumida, concretamente, pelos cristãos e cristãs de nosso tempo. Na época da Igreja Primitiva, havia uma postura, assumida pelos seguidores e seguidoras de Jesus, de resgatar as crianças entregues à morte nas praças romanas, abandonadas e desprezadas. Hoje, infelizmente, vemos muitos projetos sociais de nossas igrejas à míngua por falta de visão das comunidades, dos líderes, dos pastores e pastoras, dos órgãos de decisão os mais diversos, do governo federal e afins... De modo gritante em nosso mundo, enquanto proliferam os acordos comerciais com países como a China, meninas de peito e de colo morrem de fome e maus-tratos em lugares chamados de abrigos... Órfãos do tsunami são comercializados na Ásia... Filhos da guerra são desprezados entre sérvios e bósnios... Rejeitados de seus lares dormem sobre as marcas de sangue dos meninos da Candelária... Pequeninos carregam nas mãos as drogas que lhes tirarão a vida ainda em flor nos morros e favelas... Antes que as crianças sejam nossa libertação, é preciso que as libertemos no aqui e agora. Como Zacarias, somos os sacerdotes daqueles que nasceram para serem profetas e profetisas do Altíssimo!

Conceder-nos que, livres, o adorássemos sem temor, em santidade e justiça
A promessa de Deus repousando no corpo frágil do bebê João é promessa de vida abundante. Que é essa vida senão liberdade, confiança, santidade e justiça? Que modo melhor de viver senão em poder andar altaneiramente? Essa promessa de Deus, lembra Zacarias, foi feita a nossos pais e a Abraão. Esse menino é promessa feita gente; ele é fonte inesgotável de alegria e de esperança. Gente, temos de cuidar desse menino, porque ele é nosso tesouro de fé! Temos de protegê-lo porque sua presença significa que Deus não se esqueceu de nós!
De fato, esse sentimento sobrevêm a todo pai ou mãe que olha sua criança dormindo em sua cama. Sua tranqüilidade, sua inocência, sua respiração leve nos dão um tremor por dentro, um desejo de mudar o mundo para que nosso pequenino ser não sofra. Uma vontade de ser melhores, de fazer a vida dar certo... Quanta coisa boa uma criança inspira, se formos capazes de ouvir seus gritinhos, choros ou risos como quem ouve uma canção do céu... Sim, os pequeninos nos levam a adorar sem temor, a desejar a justiça, a promover a santidade, porque sua existência promove em nós o impulso do bem. Daí talvez Jesus ter dito que precisávamos nos tornar como crianças para alcançar o Reino.

Tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor
Algumas vezes na Bíblia se contam narrativas de violência contra as crianças: aquelas que morreram para que o Faraó e Herodes resguardassem seus tronos (Ex 1; Mt 2.16-18); aquelas que foram vendidas para cobrir dívidas (2Rs 4.1); aquelas que foram obrigadas a se afastar porque foram consideradas indignas pelos adultos (Mc 10.13); aquelas que foram feitas escravas em guerras que não eram delas (2 Rs 5.2). Algumas dessas narrativas são tão incutidas em seu tempo, que os autores não parecem nem mesmo discordar da prática. Por isso, Deus, ao longo da história, veio tocar o coração e a vida das pessoas em uma nova disposição, para ajudá-las a ver que ele defende o direito dos pequeninos (Gn 22).
Mas aqui, algo inusitado acontece: um pequeno vem diante do Senhor, Todo-poderoso. O Cristo, o Salvador, é precedido por um menino. E ele mesmo é um menino! Que surpreendente para um povo acostumado à história de reis, exércitos, cavaleiros, conquistadores! A festa e a dança acontecem porque a salvação chega ao som de um choro de criança!

Para dar ao seu povo conhecimento da salvação pela remissão dos pecados
João é visto aqui, por seu pai, como um cooperante do ministério da salvação que virá com o Cristo. A criança diante dele é um sinal não apenas de que a salvação existe, mas de que as pessoas tomarão conhecimento dela! Que bom é saber que esse novo tempo que Deus inaugura com essa criança é um tempo de não haver segredos! Ainda mais, que o conhecimento não vai gerar um grupo de superiores, detentores do poder, mas é um conhecimento para o povo, um conhecimento que retira os pecados, que acaba com o mal! Quanta alegria deve ter sentido o povo ao redor ao ouvir a boa notícia de que esse menino é portador de um conhecimento libertador... E nossas crianças hoje não o podem ser também?

O sol nascente nos visitará por causa da entranhável misericórdia de Deus
Em termos de imagem, como é lindo um pôr-do-sol! Mas só quem já experimentou a dor de uma longa noite reconhece o valor de um sol nascente (como diz aquele outro salmo: “minha alma espera pelo Senhor, mais do que os guardas pelo romper da manhã”). Sim, a esperança que vem com esse menino é a esperança de que um novo dia nasce para toda a humanidade. E isso não é obra do acaso, mas é por “causa da entranhável misericórdia de Deus”. Ou, para usar a expressão mais poética da tradução da Bíblia de Jerusalém: “graças ao misericordioso coração do nosso Deus”. A NVI fala sobre “as ternas misericórdias do nosso Deus”. Sim, acho mesmo que a figura de um bebê descreve bem a ternura de Deus...
Uma ternura que possibilita uma nova luz, que vem para iluminar de vida quem só conhece as trevas da morte (Is 9.1) e guiar os pés no rumo da paz. Esse é um sonho de criança, que Zacarias traz em seu canto, em sua ação de graças a Deus e reafirmação de suas promessas do passado e para o futuro. Por isso, se formos mesmo capazes de perceber a ternura de Deus na vida de nossas crianças, é bem capaz de sentirmos um cheirinho de talco ao abrir nossa Bíblia e ler essa canção. E se nosso coração estiver bem tocado por essa ternura, vamos ouvir a voz de Deus por entre risos e choros de todos os bebês ao redor... “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel”, nosso Deus!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

(O Evangelho; Grupo Logos)

"Eu sinto verdadeiro espanto no meu coração
Em constatar que o evangelho já mudou.
Quem ontem era servo agora acha-se Senhor
E diz a Deus como Ele tem que ser ...

Mas o verdadeiro evangelho exalta a Deus
Ele é tão claro como a água que eu bebi
E não se negocia sua essência e poder
Se camuflado a excelência perderá!

O evangelho é que desvenda os nossos olhos
E desamarra todo nó que já se fez
Porém, ninguém será liberto, sem que clame
Arrependido aos pés de Cristo, o Rei dos reis.

O evangelho mostra o homem morto em seu pecar
Sem condições de levantar-se por si só ...
A menos que, Jesus que é justo, o arranque de onde está
E o justifique, e o apresente ao Pai.

Mostra ainda a justiça de um Deus
Que é bem maior que qualquer força ou ficção
Que não seria injusto se me deixasse perecer
Mas soberano em graça me escolheu

É por isso que não posso me esquecer
Sendo seu servo, não Lhe digo o que fazer
Determinando ou marcando hora para acontecer
O que Sua vontade mostrará"

O povo do coração aquecido

“O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17, Habacuque 2:4, Gálatas 3:11, Hebreus 10.38) Uma experiência de mais de um dia John Wesley era um jov...